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O preocupante cenário para 2023

Aumento de salários e controlo de preços de bens essenciais são urgentes e fundamentais para impedir, uma vez mais, o empobrecimento generalizado em 2023.

Agora que são conhecidos os dados da inflação em 2022, assim como as principais previsões para o próximo ano, temos o retrato o mais completo possível para o que pode ser, para as famílias, o ano de 2023.

Os dados da inflação para os Açores, ontem conhecidos, indicam uma inflação de 5% em 2022 (7,14% em dezembro). Há quem possa dizer que esse valor é muito inferior à taxa verificada no global do país - 7,83% - mas há vários dados que indicam que essa diferença não é assim tão irrelevante. Em primeiro lugar, a tendência mensal nos Açores tem sido de subida da taxa de inflação, enquanto que a nível nacional a tendência é de muito ligeira descida.

Acresce a isso que as previsões do governo regional para a taxa de inflação em 2022, entregues com o orçamento da região para 2022, em outubro, falharam por defeito, onde se previa uma taxa de inflação de 4,6% em 2022. É preocupante que o governo não tenha sido capaz de, decorridos 9 meses do ano, fazer uma previsão mais aproximada da taxa real de 5% que se verificou. É por isso bastante provável que a taxa de inflação prevista pelo governo regional para 2023 - 4,1% - seja otimista.

As explicações para a diferença entre a taxa regional e nacional serão várias, a começar pelo facto dos preços da energia - combustíveis e eletricidade - serem regulados, ao contrário do que acontece no continente. Historicamente as crises chegam mais tarde aos Açores e não é improvável que em 2023 o custo de vida se agrave mais nos Açores do que no resto do país.

Esta semana conheceu-se ainda um novo aumento das taxas da Euribor, o que significa aumentos ainda maiores nas prestações do crédito à habitação. Só agora e durante o ano de 2023 é que as pessoas sentirão o verdadeiro embate desta subida e da política dos bancos centrais, nomeadamente do BCE. A atualização do valor da prestação não reflete imediatamente a taxa de juro, faz-se de 6 em 6 meses ou anualmente. Muitas famílias verão que o seu rendimento é insuficiente para as despesas que têm e isso será dramático. Esta é a consequência da política do BCE que conscientemente procura reduzir a chamada “procura agregada" com o aumento dos juros. Traduzindo, quer que as pessoas fiquem mais pobres e por isso consumam menos, fazendo os preços estabilizar.

Esta política tem a conivência do governo da república e do governo regional: ao recusar aumentos de salários, pelo menos ao nível da inflação e um aumento do salário mínimo que garanta que as pessoas não percam poder de compra, contribuem ativamente para o empobrecimento da população.

Quando os governos dizem que é preciso essencialmente proteger os mais frágeis, o que pretendem é esconder que as chamadas “classes médias” serão abandonadas à sua sorte e ficarão mais pobres.

Veem-se por aí algumas propostas bondosas que pretendem, por exemplo, eliminar o IVA dos bens essenciais. Essa proposta, sem existência de controlo dos preços desses mesmos produtos, significa apenas o aumento das margens de lucro da distribuição, setor que tem registado lucros pornográficos em 2022, pois não irão refletir essa eliminação do IVA nos preços.

Aumento de salários e controlo de preços de bens essenciais são urgentes e fundamentais para impedir, uma vez mais, o empobrecimento generalizado em 2023.

Sobre o/a autor(a)

Deputado do Bloco de Esquerda na Assembleia Regional dos Açores e Coordenador regional do Bloco/Açores
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