O Irão, o Bloco e os bombardeamentos de mentiras no DN

porFabian Figueiredo

10 de março 2026 - 14:06
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Onde estava o zelo democrático quando, na semana passada, o PSD e o Chega rejeitaram no Parlamento o voto de condenação apresentado pelo Bloco pela detenção e tortura da Prémio Nobel da Paz, Narges Mohammadi? Para uma parte considerável da direita portuguesa, a defesa dos direitos humanos no Irão é apenas um acessório retórico para atacar a esquerda.

Sob o título “A total falta de vergonha com o fim de Khamenei”, o jornalista Ricardo Simões Ferreira assina no Diário de Notícias um texto que acaba, ironicamente, por ilustrar a sua própria premissa. Ao tentar amarrar o Bloco de Esquerda ao regime de Teerão através de extrapolações sem base factual, o autor substitui o rigor da análise pela conveniência do ataque gratuito, ignorando deliberadamente qualquer facto.

O “editor executivo adjunto” deste jornal centenário insinua que as posições do Bloco são assumidas por “gosto”, projetando uma simpatia que os factos desmentem categoricamente. É um exercício de ligeireza que ignora o registo histórico: o Bloco foi o primeiro partido a levar ao Parlamento, e a ver aprovado, um voto de solidariedade com a oposição democrática iraniana, condenando sem margem para dúvidas a repressão do regime. Esta postura é tão inequívoca que foi a própria Iniciativa Liberal a reconhecê-la, na exposição de motivos de um projeto de voto subsequente.

Onde estava o zelo democrático quando, na semana passada, o PSD e o Chega rejeitaram no Parlamento o voto de condenação apresentado pelo Bloco pela detenção e tortura da Prémio Nobel da Paz, Narges Mohammadi? Para uma parte considerável da direita portuguesa, a defesa dos direitos humanos no Irão é apenas um acessório retórico para atacar a esquerda.

Não contente com o exercício de amnésia, o autor viaja até Espanha para exumar o cadáver de uma mentira: o alegado financiamento iraniano ao Podemos. Descontadas as diferenças entre as esquerdas espanhola e portuguesa, o autor omite, convenientemente, que a justiça espanhola arquivou repetidamente estas queixas, provando que as mesmas se basearam em "guerra judicial suja" e em testemunhos falsos. Utilizar esta “fake news” para sugerir fluxos financeiros para a esquerda portuguesa é uma inovação na já prolífica academia de mentiras nacional.

Numa breve pesquisa, facilmente se encontram artigos de dirigentes do Bloco de Esquerda que afirmam, com todas as letras, “a par da veemente denúncia da ditadura iraniana, também não transigimos com as intenções de ingerência norte-americana ou do genocida governo israelita”, ou aquele no qual saliento que a incompatibilidade entre a esquerda e a teocracia iraniana é estrutural e histórica.

Enquanto o autor se ocupa com estas fantasias, o mundo assiste ao horror real. O bombardeamento da escola primária feminina Shajarah Tayyebeh, em Minab, provocou a morte de 175 pessoas, a maioria crianças. A UNESCO já classificou o ato como uma "grave violação do Direito Internacional".

Perante esta tragédia, o governo português autoriza o uso da Base das Lajes para operações unilaterais dos EUA, violando a lei portuguesa e o direito internacional. Como alertam especialistas, Portugal corre o risco de ficar "do lado dos agressores do direito internacional".

Querer o fim de um regime opressor não significa desejar o bombardeamento do próprio país. Farah Pahlavi, viúva do último Xá, não conta, certamente, entre os apoiantes do regime dos aiatolás. A ex-imperatriz demarcou-se completamente da ingerência externa: "o futuro do Irão não deve ser decidido no exterior das suas fronteiras. As potências estrangeiras têm os seus interesses, o povo iraniano tem o seu destino".

Podemos ser contra os aiatolás e contra a agressão externa ilegal, como afirma Pedro Sanchéz, quem presumo que Ricardo Simões Ferreira não acusará de ser um apoiante tardio de Khamenei. O presidente do Governo espanhol é peremptório: “a questão não é saber se somos a favor dos aiatolás, ninguém é, a questão é saber se estamos do lado da legalidade internacional e, portanto, da paz".

Ao contrário do que o jornalista insinua, a esquerda portuguesa não tem qualquer afinidade com os aiatolás. O nosso compromisso é com a liberdade e com a verdade. Já o autor preferiu mesmo “espreguiçar na rede” em vez de consultar os factos disponíveis através de qualquer motor de busca.


Este artigo é uma versão extensa do publicado no dia 9 de março no Diário de Notícias.

Fabian Figueiredo
Sobre o/a autor(a)

Fabian Figueiredo

Deputado do Bloco de Esquerda. Sociólogo.
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