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O bairro esquecido

No rescaldo da tragédia, que só por sorte não fez vítimas, e passadas quase duas semanas, mas agora longe dos holofotes, as famílias desalojadas do Bairro da Torre ainda não têm casa nem ajuda.

Tem mais de 30 anos e, de tempos a tempos, faz manchetes de jornal. Sempre pelas piores razões. Voltou a fazê-lo no passado dia 22 de julho. Desta vez, por causa de um incêndio que deixou 13 famílias sem teto, sem haveres e… sem esperança. O fogo deflagrou numa das habitações precárias do Bairro da Torre, feitas de painéis de zinco e de outros materiais facilmente inflamáveis. Casas feitas com o que se tem à mão. Em pouco tempo, o incêndio alastrou como um rastilho. As enormes pilhas de lixo ali deitadas diariamente por camiões de grandes empresas fizeram o resto. Estava montada uma “tempestade perfeita”.

No rescaldo da tragédia, que só por sorte não fez vítimas, e passadas quase duas semanas, mas agora longe dos holofotes, as famílias desalojadas do Bairro da Torre ainda não têm casa nem ajuda. A associação Habita criou uma campanha de angariação de fundos para tentar minimizar o drama. Entretanto, os representantes do Bloco em Loures inquiriram a autarquia sobre a demora dos realojamentos definitivos das 47 famílias que ainda permanecem no bairro e sobre a ausência de um projeto de habitação municipal com rendas acessíveis para aquele local.

A Câmara, que em plena época natalícia recusou a recolocação de geradores para ajudar os moradores a suportar o frio rígido do último inverno, garante estar a fazer de tudo para acomodar as 13 famílias que habitavam as quatro casas que arderam. “Perpetuar este caso é que não é uma solução. É uma vergonha para o país este bairro existir”, disse, indignado, o edil comunista Bernardino Soares ao Diário de Notícias. Uma vergonha que o autarca, em quase cinco anos de mandato, não conseguiu resolver. Nem os seus homólogos durante os últimos 30.

Um bairro que de bairro só tem o nome

O Bairro da Torre é um bairro que de bairro só tem o nome. Não tem água, não tem luz nem saneamento básico, mas tem mais de 200 habitantes que vivem abaixo do limiar da pobreza. Paredes meias com um aeroporto entupido e esgotado, este bairro de Camarate, um dos últimos bairros de barracas da Grande Lisboa, é um postal que ninguém quer mostrar. Há dois anos, o bairro recebeu a visita da redatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU), Leilani Farha, que referiu, além da falta de luz e água, que os moradores viviam “com lixo ao lado”.

Uma das moradoras, Guilhermina Soares, relatava ao Público o cenário que se vivia em 2016: “Mesmo depois de terem sido retiradas quatro toneladas de lixo, um avolumado monte de entulho à porta convida ainda mais os ratos e agora as cobras a entrarem pela casa dentro. O lixo, que está aqui há anos, cresce e os cães espalham-no a cada dia”.

Foi precisamente nessa altura que a EDP decidiu cortar a energia no bairro, “na mesma semana em que se inaugurou o MAAT (Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia), em Belém”, aludiu ironicamente, ao Diário de Notícias, o padre José Manuel Salvador, missionário comboniano que há dois anos dá apoio contínuo ao bairro.

Em dezembro desse ano, a Câmara Municipal de Loures instalou dois geradores para fornecer energia ao Bairro da Torre. No entanto, dois meses depois, os moradores pediram à autarquia para os retirar, por não conseguirem suportar os custos do gasóleo, mais de cinco euros por dia por morador.

Entretanto, em junho de 2017, foi aprovado por unanimidade no Parlamento um projeto de resolução que recomendava ao Governo a adoção de medidas que garantissem “a prestação do serviço público de eletricidade aos habitantes dos bairros e núcleos de habitações precárias”. Uma recomendação que, mais de um ano depois, ainda não passou do papel.

A quem vive no Bairro da Torre não resta dinheiro para pagar a conta da eletricidade. Muitas destas moradoras saem de casa de madrugada para trabalhar nas limpezas – quando há trabalho – e o pouco que ganham chega, à justa, para comprar comida e pagar os transportes públicos para poder… continuar a ir trabalhar. Como não há frigoríficos, a conta do supermercado é elevada. Nem todos têm a sorte de poder trabalhar e a maioria não conseguiria pagar uma renda num bairro social. Estão entregues à sorte ou aos caprichos de uma nova tragédia. Até haver vontade política para mudar!

Sobre o/a autor(a)

Jornalista e especialista em copywriting e marketing digital
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