Nem toda a gente está à venda

porJosé Soeiro

30 de outubro 2019 - 9:59
PARTILHAR

O Porto, que alguns gostariam de tornar numa marca comercial, não está à venda. E Rosa Mota, que hoje nos dá mais uma lição de dignidade, já nos mostrou que também não. Que ninguém fique pois num silêncio cúmplice sobre esta vergonha.

Rui Moreira apresentou, orgulhoso, um orçamento da Câmara para 2020 de 315 milhões, mais 21,1 milhões do que em 2019. Desse dinheiro, descontadas todas as despesas e todos os investimentos, o objetivo é ter um excedente de 14 milhões. Quase o dobro dos 8 milhões que custou a obra de requalificação do Pavilhão Rosa Mota. Havia dinheiro de sobra para ser a autarquia a recuperar aquele equipamento, sem concessioná-lo a privados.

Mas outros apetites se sobrepuseram. Pior ainda: o concessionário também quis ganhar dinheiro com um patrocinador. Parece que 20 milhões de euros numa obra de 8 (grande negócio!) foi o preço para que a Super Bock pudesse abarbatar o nome do Pavilhão e desqualificar simbolicamente a figura que a cidade escolheu para o nomear.

No início deste mês, o Presidente da República interrompeu as reuniões com os vários partidos para a formação do Governo para se juntar à atleta do Porto, que ganhou este ano mais um prémio, declarando: “A Rosa Mota é mais importante do que todos os governos ou presidentes de Portugal". Pelos vistos, serve-lhe de pouco perante a supremacia do patrocínio de uma marca de cerveja - e uma maioria de vereadores que foram eleitos proclamando o amor pelo Porto mas que não se importaram de vender a alma a um privado.

Só que o Porto, que alguns gostariam de tornar numa marca comercial, não está à venda. E Rosa Mota, que hoje nos dá mais uma lição de dignidade, já nos mostrou que também não. Que ninguém fique pois num silêncio cúmplice sobre esta vergonha.

Artigo publicado na página de José Soeiro no facebook: https://www.facebook.com/jose.soeiro

José Soeiro
Sobre o/a autor(a)

José Soeiro

Dirigente do Bloco de Esquerda, sociólogo.
Termos relacionados: