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Negócios que são uma maravilha!

Continuamos com problemas na distribuição das vacinas contra a Covid-19. Por que razão tem o mundo de ficar refém de meia dúzia de farmacêuticas?

Continuamos com problemas na distribuição das vacinas contra a Covid-19. Os Estados mais ricos meteram muitos milhões no desenvolvimento destas vacinas. Os Estados Unidos, no total, terão colocado 12,5 mil milhões de dólares. A Moderna recebeu 2,5 mil milhões de fundos, o que, de acordo com a organização Public Citizen, corresponde praticamente a 100% dos custos do desenvolvimento da vacina. Os norte-americanos, para além do financiamento, ainda pré-compraram 600 milhões de doses à Moderna, garantindo um lucro de 8 mil milhões, três vezes mais do que o seu custo estimado. A Pfizer afirma não ter recebido subsídios mas é sabido que a sua parceira de negócio, a BioNTech, só da Alemanha recebeu 374 milhões de euros. A AstraZeneca, que concebeu a sua vacina em parceria com a Universidade de Oxford, “prometeu” comercializar a sua vacina sem fins lucrativos, enquanto durasse a pandemia. Só que os acordos que assinou especificam que a empresa pode, a seu desejo e independentemente da Organização Mundial da Saúde, declarar a pandemia terminada em julho deste ano e começar a colher dividendos. Esta vacina recebeu mil milhões de dólares norte-americanos e 20 milhões de libras britânicas. Tanto investimento público e, no entanto, as farmacêuticas mantêm os direitos exclusivos sobre as vacinas, lucram com o negócio (15 mil milhões para a Pfizer e 5 mil milhões para a Moderna só em 2021) e mantêm um torniquete na distribuição, que está a atrasar o controlo da pandemia e a deixar os países mais pobres sem soluções.

Que tipo de negócios são estes, em que multinacionais detêm o monopólio de um produto, não têm de lidar com concorrência de mercado, são financiadas diretamente pelos Estados? Só pode ter um nome: parasitismo!

Por que razão tem o mundo de ficar refém de meia dúzia de farmacêuticas? Um dos argumentos utilizados pela indústria e pelos Estados para aceitarem as patentes e uma posição de oligopólio protegido com exclusividade de produção e comercialização, é o facto do desenvolvimento de uma nova molécula ficar muito dispendioso. Um novo medicamento leva, em média, 14 anos desde que é concebido até chegar ao mercado e estar disponível para os doentes. Não é o caso destas vacinas, a urgência em controlar a pandemia levou entidades reguladoras a emitir sucessivas autorizações de emergência para as colocar no mercado o mais rapidamente possível. Também não se pode dizer que a investigação científica seja o maior investimento das farmacêuticas: estas empresas gastam aproximadamente o dobro em marketing do que o que investem em investigação. E isso representa apenas 1/5 dos dividendos.

As vacinas de mRNA não são uma inovação da indústria. Já há algumas décadas que se tentam produzir vacinas com mRNA, no entanto esta molécula era destruída pelo nosso sistema imunitário, porque a reconhecia como sendo “estranha”. É na Universidade da Pensilvânia que o grupo de Katilin Karikó desenvolve o conceito de modificação do mRNA – modificado para “escapar” às nossas defesas. Ao mesmo tempo, o grupo de Barney Graham do NIH, concebe o design da proteína vírica, que é produzida com a informação do mRNA e que, essa sim, estimula a nossa imunidade a produzir anticorpos contra o vírus SARS-Cov2. Ora, Karikó desenvolveu o seu trabalho na Universidade da Pensilvânia, financiada pelo governo norte-americano, e Graham no NIH, uma estrutura federal pública, também norte-americana. E mesmo o transportador do mRNA, as nanopartículas de lípidos, responsáveis por “depositar” o mRNA dentro das nossas células, foi um conceito desenvolvido no MIT (Massachusetts Institute of Technology). Moderna e a BioNTech viriam mais tarde a comprar a patente da modificação do mRNA, pagando 75 milhões de euros cada uma.

O mito da “inovação científica” que tem que ser paga às farmacêuticas está há muito destruído pelos factos. Num trabalho desenvolvido nos EUA (Funding Health Sciences Research: A Strategy to Restore Balance. Washington, DC: The National Academies Press), demonstrava-se que, de todas as novas moléculas e dispositivos introduzidos na prática clínica, 51% provinham do sector público e apenas 45% eram de origem privada. Entre 2010 e 2016 foram aprovados pela FDA, a entidade reguladora dos medicamentos no EUA, 210 novos medicamentos e todos eles, todos, receberam financiamento público. Ao todo, o governo federal norte-americano gastou 100 mil milhões de dólares no desenvolvimento destas novas moléculas. De acordo com o British Medical Journal, cerca de 85-90% dos novos produtos introduzidos pela indústria farmacêutica nos últimos 50 anos, trouxeram poucos ou nenhuns benefícios em saúde e alguns chegaram mesmo a provocar dano. A industria aloca a quase totalidade dos seus recursos para desenvolver moléculas não-inovadoras, cópias de outras já existentes no mercado, acrescentando-lhes pequenas variações que lhes conferem discretas vantagens. Depois investem avidamente na sua promoção e marketing.

Que tipo de negócios são estes, em que multinacionais detêm o monopólio de um produto, não têm de lidar com concorrência de mercado, são financiadas diretamente pelos Estados, lucram com o trabalho desenvolvido por instituições públicas e seus investigadores, garantem contratos de promessas de compra na ordem dos milhares de milhões e nem sequer podem ser legalmente responsabilizadas se falharam as promessas feitas? Só pode ter um nome: parasitismo! O povo paga a produção do produto e depois ainda paga o produto. Como negócio, é uma maravilha.

Sobre o/a autor(a)

Médico neurologista, ativista pela legalização da cannabis e da morte assistida
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