O meu camarada Diogo Machado escreveu um interessante e bem informado artigo, no qual questiona os elementos de uma putativa “direitização” da sociedade portuguesa. O artigo mereceu uma referência por parte do Daniel Oliveira, no seu espaço de opinião, resultando numa réplica do Diogo. O debate é muito interessante e expressa parte das angústias da esquerda. Neste artigo, vou tentar explicar as razões que me levam a afirmar que ambos estão a ver mal o filme.
“Direitização” e expressão eleitoral
No seu texto inicial, o Diogo recorre a Vincent Tiberj, sociólogo francês que, “analisando longitudinalmente vários dados relativos às atitudes dos franceses em relação à política, mostra que, por detrás dos resultados, os franceses têm cada vez mais atitudes associadas à esquerda, e não o contrário: ao longo do tempo, tem crescido o apoio à igualdade de género, aos direitos das minorias sexuais, à imigração, à intervenção do Estado na economia e a políticas redistributivas”. Em Portugal, estaríamos perante um fenómeno semelhante. Os valores e as crenças individuais estão maioritariamente associados à esquerda, mas isso não resulta numa tradução eleitoral perante o atual ciclo de maiorias à direita. O Daniel avança outros dados que confirmam essa mesma tese de direitização do voto e esquerdização das crenças e dos valores.
Porque tal acontece? Aqui, o Diogo e o Daniel não estão de acordo. Segundo o Diogo, o problema é a crise de “intermediação”, que tem duas dimensões: por um lado, a direita leva um claro avanço, dominando a comunicação social e os algoritmos das redes sociais; por outro, a esquerda sofre uma crise “expressa na sua incapacidade de se afirmar como interlocutor político das classes populares, o que exige uma renovação de estratégia, narrativas e protagonistas”.
Para o Daniel, o problema não é de intermediação, mas antes das identidades que organizam o comportamento eleitoral: “o que mudou não foram, no essencial, os valores da maioria, mas a identidade com que cada um se reconhece enquanto sujeito social e político. Foi aí que a direita ganhou. Sem ter vencido plenamente nos valores — sobretudo no que toca à igualdade social —, conseguiu deslocar a agenda e a identidade”. E acrescenta: “no lugar da clivagem entre dominantes e dominados instalou-se outra, em que o inimigo está abaixo. Ao abandonar a centralidade da classe, a esquerda deixou que as identidades nacionais, culturais ou raciais passassem a organizar o conflito político. E quando a identidade muda, muda o voto. A classe não desapareceu, perdeu centralidade simbólica.”
É mesmo sobre como nos vemos?
Comecemos pela direita, ou melhor, pela hegemonia que a direita tenta criar e reproduzir. Tanto a tese do Diogo, “o domínio da comunicação social e dos algoritmos”, como a do Daniel, “a alteração das identidades” a partir de cima, parecem embater num primeiro problema: entre 2013 e 2024, a direita portuguesa foi eleitoralmente minoritária. Em três eleições legislativas, duas eleições europeias e três eleições autárquicas, a direita foi claramente minoritária face ao conjunto dos votos à sua esquerda.
Durante estes 11 anos, foi a intermediação mediática e nas redes sociais controlada pelo grande capital menos potente ou menos organizada? Assistimos, em apenas dois anos - que nos levaram de uma maioria absoluta do Partido Socialista a uma maioria parlamentar de direita - a uma alteração das identidades dos eleitores capaz de explicar a magnitude dessa mudança? Não creio.
É inegável que enfrentamos tempos de hiperindividualismo e de mercantilização neoliberal da vida, assim como vivemos a era dos tecno-oligarcas ao serviço das direitas. Cada uma destas dimensões pesa, e muito, na criação de uma hegemonia de direita. No entanto, julgo que são insuficientes como explicações para o tempo que nos calhou viver.
Vejamos, primeiro, a questão das crenças e dos valores, ou, como diz o Daniel, aquilo que as pessoas “pensam”. O problema de relacionar a opção eleitoral com as crenças e valores de cada eleitor é que dificilmente encontraremos uma correlação uniforme.
No seu livro sobre o contexto brasileiro, escrito a partir de uma extensa investigação de terreno, Felipe Nunes explica que 53% dos eleitores que se classificam como de esquerda não se identificam como “progressistas”. Aliás, o Brasil é um bom exemplo desta contradição: em 20 dos últimos 24 anos, o Partido dos Trabalhadores governou um país cuja população é maioritariamente contra a legalização da cannabis e do aborto, contra o auxílio do Bolsa Família, contra a política de quotas nas universidades e a favor da redução da maioridade penal, dos 18 para os 16 anos.
Há países cuja população é maioritariamente conservadora e cujas crenças e valores estão mais associados à direita, mas que são governados por partidos de esquerda, assim como também se verifica o contrário.
A hipótese do Daniel identifica corretamente esta limitação e procura uma resposta nas “identidades”, dando um exemplo dessa transformação: “há dois anos, um barómetro do Centro de Investigações Sociológicas dizia-nos que apenas 10% dos espanhóis se consideravam da classe trabalhadora, enquanto 59% achavam ser de classe média. No entanto, mantêm a perceção de dificuldades económicas e a convicção de que as desigualdades são excessivas e exigem intervenção do Estado.” Portanto, não é sobre o que as pessoas pensam, mas como se veem e, a partir dessa posição, fazem a sua escolha eleitoral.
Será mesmo a identidade auto-atribuída tão determinante para a decisão do voto? Vejamos os dados das eleições presidenciais francesas (2022), mais especificamente os dados relativos aos eleitores de Jean-Luc Mélenchon (JLM) e Marine Le Pen (MLP). Quando questionados sobre como se auto-identificam em relação à sua pertença de classe, encontramos pequenas diferenças: privilegiados, JLM (9%), MLP (8%); classe média alta, JLM (17%), MLP (15%); classe média baixa, JLM (19%), MLP (25%); classe popular, JLM (28%), MLP (29%); desfavorecidos, JLM (27%), MLP (37%). Portanto, tirando a diferença de 10 pontos na categoria dos mais pobres, verificamos que as “identidades” de classe auto-atribuídas não diferem muito entre os eleitorados.
Onde vamos então encontrar as verdadeiras diferenças? Em algumas variáveis sociodemográficas e socioeconómicas. Vemos isso na escolaridade: licenciados, JLM (26%), MLP (13%); menos do que o ensino secundário, JLM (14%), MLP (35%). Em alguns escalões etários: 25 - 34 anos, JLM (34%), MLP (25%); 50 - 59 anos, JLM (22%), MLP (30%). Na profissão exercida: quadros dirigentes, JLM (25%), MLP (12%); operários, JLM (23%), MLP (36%). Na dimensão do município onde habitam: entre 2 mil e 10 mil habitantes, JLM (18%), MLP (28%); entre 50 mil e 200 mil, JLM (16%), MLP (24%).
O que as pessoas pensam e a forma como se identificam contam muito. Mas é nas variáveis sociodemográficas (idade, género, local de residência, escolaridade) e socioeconómicas (profissão, condição no trabalho, nível salarial) que encontramos uma correlação mais forte com o voto. Essas variáveis, na relação esquerda-direita, não são iguais de país para país - o género e a idade contam mais no Brasil do que em França, por exemplo - mas são sempre mais estáveis e definidoras do voto do que as “identidades” auto-atribuídas.
Por outras palavras, não é sobre como pensamos ou como nos vemos, mas sobre como vivemos, ou melhor, é sobre como a estrutura capitalista nos permite viver. E mais importante, é nessa arena que entra a política, com o poder de confirmar a hegemonia e manter o jogo como está ou, como pretendemos, baralhar o tabuleiro em favor da esquerda e do povo.
É mesmo sobre para quem falamos?
Outro ponto em que o Daniel e o Diogo não estão de acordo é sobre para quem “deve falar a esquerda”. O Daniel afirma que “a esquerda, que andou a falar para elites culturais [seja lá o que isso for] nas últimas décadas, pode ter um novo sujeito político: uma massa qualificada, com capital cultural, mas cada vez mais precária e insegura. Tem de saber falar para ela sem abandonar as classes populares ou copiar a agenda da extrema-direita.” Já o Diogo diz-nos que a esquerda “não deve abandonar as classes intermédias mais qualificadas: afinal, elas também fazem parte da classe trabalhadora. No entanto, é preciso alargar. A base social natural da esquerda são as classes populares, que tradicionalmente se abstêm mais do que outros grupos. São estes setores da classe trabalhadora mais precarizados, descontentes e afastados da política institucional que estão mais disponíveis para um programa de mudança económica profunda e de redistribuição da riqueza”.
Voltemos ao exemplo francês. É reconhecido o sucesso que as campanhas de Jean-Luc Mélenchon (que não é propriamente um novo protagonista da política francesa), alcançaram na mobilização do voto de categorias mais propensas à abstenção: jovens precarizados, desempregados, pessoas mais pobres, pessoas racializadas e habitantes das grandes periferias. Mas é preciso atenção redobrada nesta análise. Ao contrário de outros países, a abstenção eleitoral em França tem subido em praticamente todas as eleições ao longo dos últimos vinte anos, e são grandes as dificuldades da esquerda francesa em fidelizar esse eleitorado em diferentes eleições. O alargamento da votação nas campanhas de Mélenchon parece ser, aliás, interclassista.
É por isso que penso ser mais útil, como sempre, voltarmos à política. Se deslocarmos a lente para o plano da disputa atual, no Brasil, no Estado espanhol, no México e até mesmo em Portugal, a nossa dificuldade parece resultar menos da sociologia do voto e mais da resposta política à pressão do voto útil perante a extrema-direita internacional liderada por Donald Trump. Lula, Pedro Sánchez e Claudia Sheinbaum perceberam bem a estratégia do “nós” contra “eles”, sendo eles o partido do estrangeiro contra o qual é preciso cerrar fileiras. São eles os primeiros a defender uma unidade cujos eixos centrais não sejam tão radicais como os da esquerda que procura uma transformação mais profunda, e têm a pressão do voto útil a seu favor.
Como a esquerda responde a esta tenaz, que arrisca apagar eleitoralmente os seus partidos, e organiza um povo desarticulado por décadas de neoliberalismo é o principal desafio dos próximos tempos. Acredito que a esquerda é forte quando fala para todos e tenta organizar aqueles que são necessários à transformação. Por isso, não é sobre como pensamos ou como nos vemos: é sobre como vivemos e nos organizamos politicamente.