Escrevo em resposta a Daniel Oliveira, que, citando o meu artigo no Esquerda.net, argumentou que há uma direitização da política portuguesa, evidente até para os menos atentos, mas não há (ainda) uma direitização da sociedade, quer dizer, dos valores dos portugueses. Pelo contrário, temos até atitudes cada vez mais à esquerda em assuntos como o aborto, a imigração, a redistribuição da riqueza e a lei do trabalho, como mostram os vários dados apresentados por mim e pelo Daniel.
Perante a hegemonia da direita e da extrema-direita na política portuguesa, isto serve de pouco consolo, mas mostra que nem tudo está perdido para a esquerda, e que há espaço e base social para uma esquerda forte. No entanto, as atitudes não se convertem linearmente em votos: as pessoas não são unidimensionais, têm mundivisões frequentemente contraditórias e são movidas a votar em dados momentos por diferentes razões ou assuntos. Este espaço aberto, entre valores enraizados e a forma como se expressam (ou não) no voto, é o espaço da política. E é na disputa política que a direita tem sido mais forte nos últimos anos, não esquecendo, claro, o contributo dos algoritmos e do ambiente mediático.
Segundo Daniel Oliveira, a direita «conseguiu deslocar a agenda e a identidade. Conseguiu decidir sobre o que se fala (…), empurrando para fora dele as questões que mais diretamente determinam as condições de vida». Tem razão. Por exemplo: o racismo é estrutural na sociedade portuguesa. Mas a narrativa de que as pessoas votam no Chega porque são racistas passa ao lado da questão – pode ter-se atitudes desta natureza e votar noutros partidos. A vitória do Chega foi tornar o racismo central na agenda e na definição do sujeito político, construindo ideologicamente uma clivagem contra imigrantes, minorias e beneficiários de apoios sociais, ou o que Olivier Schwartz chamou de «consciência social triangular», em que o inimigo é quem está em baixo. A questão não é se os preconceitos não existiam antes ou se outros valores, solidários e igualitários, deixaram de estar presentes – a questão é saber quais desses valores são ativados na hora de fazer escolhas políticas.
A ideia de que a derrocada da esquerda aconteceu porque “abandonou a classe” é uma crítica fácil e pouco precisa. A esquerda radical portuguesa sempre priorizou assuntos económicos: a luta contra a troika e a austeridade, o combate à precariedade e a defesa dos direitos do trabalho, os passes sociais, a escola e a saúde públicas, a habitação. E a politização de outros assuntos como as lutas feministas, antirracistas e LGBTQIA+, que não são exteriores a uma leitura de classe, foram essenciais para a afirmação da esquerda, nomeadamente do Bloco. Quem é “woke” é a direita. Infelizmente, os problemas da esquerda são mais complicados que isto.
Interessa-me mais, contudo, discutir saídas. Depois de dizer que a esquerda falou sempre para “elites culturais”, Daniel Oliveira sugere que as transformações tecnológicas criarão uma «massa qualificada, com capital cultural, cada vez mais precária e insegura», que deve ser o segmento privilegiado da esquerda. A primeira questão, que o leitor também se terá colocado, é se já não é para estas pessoas que a esquerda tem falado. Segundo, quão numeroso será este segmento em Portugal? É suficiente como base social? Os dados disponíveis apontam para a incorporação lenta de IA por parte das empresas, especialmente em tecidos produtivos como o português, e o impacto está a ser muito circunscrito a setores específicos.
A esquerda não deve abandonar as classes intermédias mais qualificadas: afinal, elas também são parte da classe trabalhadora. No entanto, é preciso alargar. A base social natural da esquerda são as classes populares, que tradicionalmente se abstêm mais que outros grupos. São estes setores da classe trabalhadora mais precarizados, descontentes e afastados da política institucional que estão mais disponíveis para um programa de mudança económica profunda e de redistribuição da riqueza. O sucesso de partidos como os Verdes do Reino Unido e a França Insubmissa depende crucialmente desta mobilização, nomeadamente jovens e moradores das periferias das cidades, com forte representação de mulheres e pessoas racializadas e, paralelamente, os trabalhadores e as classes médias empobrecidas ditas «tradicionais». Lembre-se o diálogo da França Insubmissa com os Coletes Amarelos ou a eleição de uma canalizadora da periferia industrial de Manchester como nova representante dos Verde na Casa dos Comuns.
Uma leitura mais abrangente do tipo de dados que mencionei no início deste texto mostra que as classes populares em Portugal, tendencialmente de menores rendimentos e de menores níveis de instrução, aliam atitudes fortes de defesa dos serviços públicos e de combate às desigualdades com uma forte desconfiança do sistema político, seus atores e instituições. Segundo o European Social Survey, somos o nono país de trinta em que os cidadãos são menos interessados em política e aqueles que menos confiam nos políticos e nos partidos, sendo também o quarto país que menos acredita que o sistema político permite influenciar o governo ou a política no geral. Tais atitudes são tanto mais fortes quanto menor o nível de rendimentos. Ao mesmo tempo, o último Eurobarómetro revela que 72% dos portugueses têm dificuldades em pagar as contas a maioria das vezes, contra 53% dos europeus. As principais preocupações são a saúde pública, o custo de vida, o emprego e o combate à pobreza.
O paradoxo da esquerda portuguesa é querer expressar as questões das classes populares através de uma institucionalidade que, na perceção dessas pessoas, lhes falhou e lhes diz pouco. No livro Rebenta a Bolha! Autoajuda para uma esquerda deprimida, Manuel Afonso diz mesmo que a esquerda portuguesa é «uma das esquerdas mais institucionais do mundo». Apresenta-se como a principal defensora das «instituições de Abril» e, portanto, não canaliza a revolta sentida contra um sistema cuja legitimidade decresce por não dar resposta aos problemas da vida das pessoas, que só piora.
A esquerda hoje só poderá reconstruir uma base social e eleitoral maciça através de plataforma que priorize a crise do custo de vida e denuncie estruturalmente o sistema político-económico. É a conjugação das questões socioecónomicas a uma clivagem anti-institucional que pode criar um «nós» e um «eles», necessário à polarização política que o próprio Daniel Oliveira vem corretamente defendendo. Assim, a esquerda poderá recuperar a chamada «consciência de classe» e construir um bloco maioritário e heterogéneo. E isso só será possível com uma renovação profunda de estratégia, linguagem, narrativas e protagonistas.
Artigo publicado em expresso.pt a 24 de abril de 2026