Mas, enfim, (não) esqueçamos isso

porIsabel Pires

21 de novembro 2022 - 16:49
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As declarações do Presidente da República de dia 17 de novembro no final do jogo de preparação da seleção nacional, são incompreensíveis e altamente condenáveis. Tratar com esta displicência e indiferença o ataque brutal a direitos humanos e a morte de milhares de pessoas é inaceitável.

Qualquer que seja o ponto de vista a partir do qual analisamos as declarações do Presidente da República de dia 17 de novembro no final do jogo de preparação da seleção nacional, elas são incompreensíveis e altamente condenáveis. Tratar com esta displicência e indiferença o ataque brutal a direitos humanos e a morte de milhares de pessoas é inaceitável.

Sou adepta de futebol. Desde muito miúda, altura em que também joguei. Quem me conheça sabe que não sou a pessoa que mais vibra com competições que envolvem seleções, mas um bom jogo é um bom jogo.

Os Mundiais envolvem sempre muitas pessoas, levam, por vezes, países inteiros ao rubro com a sua seleção. A esse propósito, recomendo vivamente a leitura de “Futebol ao Sol e à Sombra”, de Eduardo Galeano. Não apenas porque Galeano é um dos escritores mais brilhantes da sua geração, mas porque nos demonstra, com a simplicidade e beleza a que nos habituou, porque é que o futebol pode ser algo bonito e consciente politicamente.

Debruça-se, neste livro, em reflexões que nos transportam para várias edições de Mundiais de Futebol e percebemos a sua evolução para uma competição altamente mercantilizada, onde a expectativa de ver um futebol bonito foi sendo aniquilada pela quantidade absurda de publicidade que nos entra pelos olhos dentro ou um tipo de competição mais racional e menos com o coração.

Aqui, o papel da FIFA e a forma como se foi tornando uma das instituições mais poderosas e que mais dinheiro movimenta é relevante. As notícias, ao longo de décadas, sobre casos de corrupção na FIFA, indignações várias sobre locais onde se foram realizando os mundiais, enfim, tudo parece que, no final, pode ser suplantado pelo jogo, na sua essência.

Seria uma utopia interessante, mas, tal como na Argentina de 1978, que prendia opositores políticos, os torturava e matava e, ao mesmo tempo, celebrava a vitória no Mundial levantou protestos e boicotes, o que se está a passar no Qatar não pode passar em branco.

As razões para tantos e tantas criticarem a realização do Mundial de Futebol no Qatar são muitas e, verdade seja dita, são sobejamente conhecidas.

Comecemos pelo óbvio: o Qatar é uma monarquia absolutista, em que o Emir detém o poder executivo, legislativo e controla o poder judicial. A liberdade de imprensa é uma miragem, partidos políticos não são permitidos e as eleições previstas pela Constituição de 2003 continuam adiadas.

A escravatura só foi proibida em 1952, mas mais à frente veremos que também isto é discutível.

Para as mulheres, o cenário dificilmente é pior: têm que pedir aos tutores masculinos autorização para trabalhar em empregos públicos, para casar, para estudar no estrangeiros ou para viajar até aos 25 anos; mesmo após essa idade, podem ser proibidas de sair por parte de pais ou maridos. Para pessoas LGBTQI+, a repressão é o dia a dia. As relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo são proibidas com penas de um a três anos para homens considerados culpados de “instigar” ou “atrair” outro homem a “cometer um ato de sodomia ou imoralidade”.

Este “estado da arte” bastaria para pôr os cabelos em pé de qualquer pessoa, mas também percebemos, desde 2019 particularmente, que as suspeitas de corrupção na atribuição do Mundial são cada vez mais evidentes. Aliás, em junho de 2019, Platini acabou mesmo detido pela política anticorrupção francesa e interrogado, bem como o braço direito de Sarkozy, por alegadamente terem sido aliciados a mudar o seu voto pela realização do Mundial no Qatar, em troca de investimentos em França.

Aliás, não por acaso, a multinacional responsável pela construção de estádios, por exemplo, é a VINCI (por nós conhecida por deter a ANA Aeroportos), que está hoje a braços com a justiça francesa por acusações sobre as condições indignas de trabalho no Qatar. Alguns exemplos do que foi relatado (entre 2011 e 2018): passaportes de trabalhadores confiscados, horários de trabalho de onze horas diárias ou 66 a 77 horas por semana, com temperaturas altíssimas (podiam chegar aos 50º), quartos pequeníssimos e falta de instalações sanitárias.1

Fala-se em mais de 6.000 trabalhadores que morreram na construção de estádios e infraestruturas que lhes estão adjacentes no Qatar. São milhares de vidas sepultadas por baixo daquilo que será, nos próximos meses, o foco de entretenimento de milhões de pessoas.

O que tem a FIFA a dizer a isto? Por exemplo, quando a seleção dinamarquesa indicou que queria treinar com a frase “Direitos Humanos para todos”, a FIFA proibiu alegando a velha regra de “não se permitem mensagens políticas” (tema, aliás, que dá pano para mangas no que toca ao papel da FIFA e do que é, na sua essência o futebol).

E em Portugal? A Federação Portuguesa de Futebol nada tem a dizer, na verdade. No dia 17 de novembro, quando vários adeptos foram impedidos de entrar em Alvalade com t-shirts alusivas a uma campanha da Amnistia Internacional, a Federação remete para o “excesso de zelo” dos seguranças. Como sempre, descarta qualquer responsabilidade em qualquer decisão.

O Governo assobia para o lado, saúda os jogadores que irão competir, mas nada diz sobre o Qatar. Já o Presidente da República, como sempre, tem alguma coisa a dizer. Mas convenhamos, qualquer que seja o ponto de vista a partir do qual analisamos as declarações do Presidente da República de dia 17 de novembro no final do jogo de preparação da seleção nacional, elas são incompreensíveis e altamente condenáveis. Tratar com esta displicência e indiferença o ataque brutal a direitos humanos e a morte de milhares de pessoas é inaceitável.

A conclusão parece-me óbvia: o Mundial não pode servir para relativizar e legitimar um regime ditatorial onde parte significativa da população não tem qualquer direito e que ignora milhares de pessoas mortas a trabalhar. Os responsáveis políticos de países como Portugal, que defende os Direitos Humanos, não podem tratar o Mundial como um estado de exceção em que, por alguns meses, são toleradas violações que, no dia a seguir à final, serão novamente reprováveis.

É por tudo isto que as instituições democráticas portuguesas devem ter uma posição e ação claras. Os Direitos Humanos são para cumprir em todo o lado. Exige-se que não se desloquem ao Qatar e que não peçam uma lei da rolha às denúncias e protestos. Para nós é claro de que lado estamos.

1 https://www.esquerda.net/topics/dossier-357-qatar-o-mundial-da-vergonha - Dossier com informação mais extensa sobre estes casos.

Isabel Pires
Sobre o/a autor(a)

Isabel Pires

Dirigente do Bloco de Esquerda. Licenciada em Ciências Políticas e Relações Internacionais e mestranda em Ciências Políticas
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