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Maduro segundo Monedero

Se o poder dos “nossos” se vale de meios ilegítimos para defender o poder pelo poder, perdemos o poder e a causa.

Juan Carlos Monedero, um dos fundadores do Podemos, escreveu um texto sobre a atual crise da república bolivariana, a que chamou “11 teses sobre a Venezuela e uma conclusão escaldada” (trad. minha) e que pode ser lido aqui. Vou afastar a análise sobre a política espanhola hegemónica e a sua histeria anti-chavista, toda a esquerda internacional a subscreve e com facilidade. Concentro-me nas questões referentes à própria Venezuela.

Diz Monedero que Maduro não é Allende nem Chavez, assim à laia de desqualificar o protagonista do poder e tentar desarmar a crítica dos que lhe colam etiquetas de incompetente e caudilho, sobejamente demonstradas ao longo de anos: afinal é um líder de segunda e não sabe mais. Curiosa a forma como o próprio Monedero descarta do mesmo passo as responsabilidades do Partido Socialista Unificado da Venezuela (PSUV), e aparentemente aceita que o cursor do cenário seja Nicolás Maduro e o seu grupo de comando. Também desvaloriza a dependência exclusiva do petróleo e a crise da queda dos preços do crude, onde 17 anos não chegaram para diversificar a base produtiva, comparando com o que aconteceria se houvesse um colapso do turismo em Espanha. Haja rigor, uma caricatura não é uma comparação.

Vamos ao que conta. O essencial das teses de Monedero, já citadas, coloca-nos perante o dilema: ou Maduro, goste-se ou não, ou a odiosa direita fantoche do imperialismo americano?!

Creio que podemos convergir sobre a caracterização da direita como golpista, servil ao parasitismo rentista, corrupta, agente de interesses ianques. Embora, note-se, não possamos confundir todo o protesto popular com a direita. Quanto a Maduro, Monedero concede que há ali umas debilidades de Estado e corrupção. Chama-lhe sombras. As debilidades de Estado são as de não se ter iniciado a organização de serviços públicos dignos desse nome. Apesar de anos e anos de fortuna petrolífera, o poder organizou “missões” de solidariedade contra a pobreza à imagem das misericórdias. A corrupção que tudo oleia no exército, polícia e burocratas do petroestado é apresentada por Monedero como coisa pouca comparada com o saque aos povos para pagar os resgates bancários da crise do capitalismo financeiro de 2008. As sombras têm muita luz, é caso para dizer. Alguém pode justificar um poder progressista em nome de que “os nossos” são menos corruptos do que os outros?

Se o poder dos “nossos” se vale de meios ilegítimos para defender o poder pelo poder, perdemos o poder e a causa.

Diz Monedero que o presidente da Venezuela pode convocar uma Assembleia Constituinte nos termos da Constituição. E está legitimada a escolha, é certo. A Constituição de Chavez referendada pelo povo realmente permite-lhe isso. Deixemos de lado a escandalosa lei eleitoral e a manipulação do pretenso sufrágio onde nem sequer se aplica o princípio de uma pessoa, um voto. Deixemos até de lado que as autoridades maduristas proclamaram a participação de apenas 40% dos eleitores. Faz sentido, neste contexto e no fio das suas análises, Monedero apelar ao diálogo com os reacionários? Como se configura essa operação depois do presidente ter dado um golpe constitucional sobre a Constituição de Chavez, depois de ter sabotado o exercício do mecanismo chavista do referendo revocatório do seu mandato, depois de ter retirado os poderes ao parlamento, para só mencionar estas arbitrariedades? Maduro adiou discricionariamente as eleições regionais após a derrota nas eleições para o parlamento, quer realizá-las agora tendo na mão uma constituinte com plenos poderes para decidir sobre quaisquer órgãos e tribunais e até para decidir penas. Como é evidente a retórica é ardil. Maduro quer privatizar o poder e não está aberto a nenhuma substituição no seu partido, a nenhuma autocrítica perante o povo sofrido e a um regresso a eleições presidenciais, aliás já adiadas por força dos dois anos da constituinte.

Certamente, não há dúvidas, uma esquerda independente e popular vai abrir caminho na Venezuela apesar do rancor da direita e da hostilidade dos maduristas. Esses merecem simpatia internacionalista.

Durante muitas décadas, contestei com tantas e tantos, o imperialismo americano sem nunca apoiar a União Soviética, tornada uma fraude ao comunismo e à esquerda. Soubemos, quando foi preciso, muitos e muitas de nós, estar contra as ingerências e invasões dos EUA e da NATO, mesmo não apoiando os governos dos países agredidos quando não eram democracias. Se quero ser anti-Trump estou obrigado a ser um apoiante, vá lá crítico, de Maduro? Voltamos a isto?

Os dilemas de Monedero são velhos. Também estou escaldado com as simplificações. Não se pode defender uma esquerda socialista e democrática nos nossos países achando que se pode perverter, noutro país qualquer, coisa extraordinária, até um quadro constitucional legado por um processo revolucionário, legitimado por muitas eleições. As esquerdas de hoje não podem perder a bandeira e a prática popular da democracia ou então não convencem as novas gerações da validade do seu projeto.

Sabe-se, e ainda bem, que as opiniões mais ou menos fanatizadas não têm adesão crítica. Contudo, são mais difíceis de rejeitar as que empregam um cinismo intelectual com o desvelo do ultra-realismo.

O sentido libertador do socialismo diz-nos que realmente Maduro não tem mesmo nada, mas mesmo nada, a ver com Allende. Até para alargarmos o campo de todos aqueles que gritam a Trump para tirar as garras da Venezuela é preciso dizer que queremos defender a Constituição da Venezuela, apesar de estar suspensa.

Artigo publicado no blogue acontradicao.wordpress.com em 17 de agosto de 2017

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, professor.
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