Lutar para vencer

porManuel Afonso

01 de fevereiro 2023 - 13:44
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As lutas em ebulição fazem disparar a temperatura social. A irrupção vulcânica das e dos professores e restante pessoal não-docente é, até ao momento, o ponto mais cálido da revolta popular.

A vaga de frio não apaga o que já está a ser um Inverno quente. As lutas em ebulição fazem disparar a temperatura social. A irrupção vulcânica das e dos professores e restante pessoal não-docente é, até ao momento, o ponto mais cálido da revolta popular. Mas a onda já vinha de antes: as ocupações estudantis pelo clima, as greves na CP, na Autoeuropa e noutros setores já anunciavam que a indignação latente começava a transbordar.

Com as escolas em pé de guerra e o Governo a querer compensar a sua desagregação interna com um braço-de-ferro contra elas, a batalha na educação está para durar ― e já no dia 11 um novo mar docente inundará Lisboa. Mas não ficará sozinha. No próximo dia 9, a CGTP convocou um dia de greves e paralisações em diversos setores. No dia 25 de fevereiro, a manifestação Vida Justa, em cuja convocatória convergem nomes dos mais vários movimentos e setores, verá milhares de vozes a exigir um «programa de crise que defenda quem trabalha». Em março, o movimento feminista deverá encher as ruas e está já anunciada uma nova vaga de ocupações estudantis pelo clima. A 1 de abril, uma manifestação convocada por cerca de 15 coletivos pelo direito à habitação poderá fazer explodir o clamor pelo direito a um teto ― aquele que pode ser o mais grave candente problema social do momento. Não só o Inverno será quente, como nos aguarda uma Primavera de mil combates.

É a luta de classes, pois então

Não podia ser de outra forma. A política do Governo PS é a de usar a inflação para um ajuste sobre os salários, mantendo o garrote no investimento público, com os olhos postos no sacrossanto défice. Manter Bruxelas e os mercados felizes para que os capitais fluam, alimentando um modelo económico rentista, assente na turistificação, especulação e ultraexploração. Não é coincidência que o Governo o faça enquanto parece desagregar-se em caos e contradições internas. Os «casos e casinhos», tal como a política de Costa, refletem as opções de classe do PS. A direita quer ser o PS no lugar no PS, mas não se opõe a este programa. Antes queria ser ela a aplicá-lo, servindo-se melhor a si e aos seus. A assimilação do PS ao mundo dos grandes negócios e à sua lógica parasitária arrisca-se a devorar Costa ― mas não sem antes devorar a vida de quem trabalha. A revolta não podia não se expressar. É a luta de classes, pois então.

É inevitável não pensar naquele período, há cerca de uma década, em que a luta contra a austeridade levou a gigantescas mobilizações e greves. Como então, o reencontro nas ruas vive-se, no primeiro momento, como uma festa. O reconhecimento mútuo das dificuldades e das ganas de lutar; a superação do isolamento e da depressão que a pandemia, a guerra e a inflação fizeram pesar. Esse ambiente é palpável, por exemplo, nas grandes manifestações docentes ― uma quase euforia como negação da apatia. E não, ainda, o desespero de quem está disposto a tudo ― ainda…

Mas as lutas serão duras e, para lá do reconhecimento coletivo nas ruas ― que já não é coisa pouca ―, devemos querer lutar para vencer, para viver melhor. Devemos almejar mais do que grandes vagas que protestam sem depois deixar raízes, forças acumuladas e programa político. E temos de nos lembrar que já não estamos em 2012 ― o perigo da extrema-direita hoje é enorme, tal como o da desagregação política, de cima para baixo, sem solução positiva, pela esquerda. Não viveremos, pois, uma repetição do ciclo de lutas que se seguiu à última grande crise. Os riscos são hoje maiores; mas também o são as lições aprendidas.

Há, por isso, mil combates a organizar, mas também uma reflexão a ser feita: para lá do movimentismo, o que queremos? Onde queremos chegar? Como podemos vencer?

Perguntas para vencer

Nas poucas linhas que me restam não conto resolver o problema. Contudo, fazer as perguntas certas já será uma boa ajuda.

O calendário de lutas múltiplas acima enunciado deve ser saudado. Quanto maior for o despertar popular, mais serão os eventos de mobilização, pelo menos numa primeira fase. Mas a dispersão é um risco. Como superá-la? Que alianças, que programas, podem somar? E quem os pode protagonizar ― qual o papel dos partidos da esquerda e dos grandes sindicatos e como podem dialogar com novos movimentos e protagonistas? Será possível criar um grande campo social que alavanque as lutas e lhes dê voz política? Como fazê-lo sem cair na tentação de controlo e partidarização, mas também sem ceder aos preconceitos despolitizantes e à voragem espontaneísta? Como unir o que é diverso, aceitando as tensões inerentes, sem secundarizar nem invisibilizar causas tidas com fraturantes?

Como, neste contexto, fortalecer uma esquerda popular e anticapitalista que amplie influência e assente raízes, almejando uma alternativa ao vácuo político para onde Costa, Marcelo e as direitas empurram o país

E até onde temos, e queremos ir, para vencer? Se greves, mesmo longas, e manifestações não fazem dobrar o Governo, como avançar? O que significa hoje, radicalizar: poderemos reviver momentos como o bloqueio da ponte 25 de Abril, em 1994? Cortes de estrada? Ocupações? Como combinar esse grau de confronto com a batalha pela opinião pública? E como vencer, estando dela reféns?

Mais: como dialogar com a inevitável inorganicidade de novos fenómenos, muitas vezes permeada por preconceitos corporativos, individualistas ou até reacionários, sem virar costas à justa revolta popular?

Como, neste contexto, fortalecer uma esquerda popular e anticapitalista que amplie influência e assente raízes, almejando uma alternativa ao vácuo político para onde Costa, Marcelo e as direitas empurram o país ― sem cair em males maiores nem ficar por males menores?

Talvez já saibamos por onde começar: mergulhando de cabeça em todas as lutas ― com abertura inteligência; e fazendo uma feroz oposição ao Governo, apontando soluções audazes para que os ricos paguem a crise. Como temos feito e continuaremos a fazer.

E, também, mantendo o debate aceso, com humildade e esperança.

Manuel Afonso
Sobre o/a autor(a)

Manuel Afonso

Assistente editorial e ativista laboral e climático
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