Luís Inácio foi vítima dos “300 picaretas”

porLuís Leiria

20 de abril 2016 - 11:18
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“Luis Inácio falou, Luis Inácio avisou / São trezentos picaretas com anel de doutor”, diz a música dos Paralamas do Sucesso. Mas Lula da Silva parece ter esquecido a advertência.

“Há no congresso uma minoria que se preocupa e trabalha pelo país, mas há uma maioria de uns trezentos picaretas que defendem apenas seus próprios interesses” – esta famosa frase de Lula da Silva em 1993, que deu origem a uma música da banda Paralamas do Sucesso, poderia servir de epígrafe ao relato da sessão parlamentar que aprovou, no Brasil, a instauração do processo de impeachment à presidente Dilma Roussseff.

O golpe palaciano desferido sob o comando de Eduardo Cunha, um gangster apanhado com contas secretas na Suíça, foi uma exibição em direto da boçalidade da maioria dos deputados que condenaram a presidente em nome do fanatismo religioso, da família, e por motivos vários, como evitar que “as crianças aprendam sexo nas escolas”, “acabar com a Central Única dos Trabalhadores e seus marginais”, ou homenagear um torturador da ditadura militar. Cerca de 60% dos parlamentares têm causas pendentes na Justiça, mas esbravejaram contra a presidente que acusam de “roubalheira”, apesar de Dilma, ao contrário deles, não ter contra si qualquer acusação de corrupção.

Cerca de 60% dos parlamentares têm causas pendentes na Justiça, mas esbravejaram contra a presidente que acusam de “roubalheira”

Detalhes saborosos do dia de votação parecem inventados mas foram reais. O deputado Bruno Araújo, do PSDB, teve a sorte de ser o 342º a votar a favor do impeachment, sendo esse o voto que decidiu a derrota do governo. No dia seguinte ficámos a saber que o parlamentar pernambucano aparece como destinatário na lista de pagamentos da Odebrecht a políticos.

Já a deputada Raquel Muniz, do PSD, dedicou o seu voto “sim” ao marido, Ruy Muniz, prefeito de Montes Claros, que apresentou como exemplo de gestor público. Na manhã seguinte, a Polícia Federal prendeu o marido por corrupção.

Surdo aos próprios avisos

A música dos Paralamas tem como refrão: “Luis Inácio falou, Luis Inácio avisou / São trezentos picaretas com anel de doutor”. Mas o autor da advertência esqueceu-se dela e lançou-se de alma e coração a tentar “salvar o governo da companheira Dilma”, estabelecendo num hotel de Brasília um quartel-general de articulação contra o impeachment. Falou com o “baixo clero”, os deputados dos pequenos partidos que nunca aparecem e que se sentem importantes quando são chamados para conversar com os grandes. Até o Tiririca foi ao hotel de Lula. Os seus esforços, porém, foram inúteis. No leilão de cargos e parcelas do Orçamento de Estado oferecidos aos “300 picaretas” em troca do voto “não”, Lula da Silva perdeu para o vice-presidente Michel Temer, que cobria todas as suas ofertas para garantir o “sim”, com a vantagem de quem está em trajetória ascendente e à beira de subir ao poder. Quando chegou a primeira vez que falou ao microfone desde que foi eleito, Tiririca disse “sim”, o contrário do que prometera. Luis Inácio avisara, Lula não ouviu.

No leilão de cargos e parcelas do Orçamento de Estado oferecidos aos “300 picaretas” em troca do voto “não”, Lula da Silva perdeu para o vice-presidente Michel Temer, que cobria todas as suas ofertas

O resultado foi que na noite de domingo o ex-presidente contabilizou pelo menos 26 traições, já que só anunciaram o voto “não” 137 deputados, a que se somaram 7 abstenções e 2 ausências. Total: 146, longe dos 172 necessários para barrar o impedimento.

Estratégia fracassada

E no entanto, houve um momento em que a campanha da oposição de direita contra Dilma perdeu impulso. Foi no dia 18 de março, quando o PT chamou a grandes manifestações a favor do governo e em defesa da democracia, e Lula demonstrou dispor ainda de capacidade de mobilização, desmanchando a ideia de que a direita possuía a unanimidade das ruas.

Mas aqueles que esperavam uma guinada à esquerda do ex-presidente, com o renascimento do sindicalista que dirigia as assembleias das greves do ABC, desiludiram-se. O tom do discurso naquela noite foi o da conciliação, o regresso do “Lulinha paz e amor”. A partir daí, as armas de Lula foram as do “toma lá dá cá” com os deputados. Mas essa estratégia estava votada ao fracasso, porque do outro lado estava a grande maioria da classe dominante que, depois de 13 anos a beneficiar-se dos bons ofícios prestados pelos governos de Lula e de Dilma, decidira que já é hora de um governo puro-sangue, sem intermediários. E até jatos particulares puseram à disposição dos deputados que à última hora mudassem de opinião e fossem a Brasília votar pelo “sim”.

O fracasso da articulação antigolpe de Lula simbolizou o fracasso de toda uma estratégia seguida pelo PT durante estes 13 anos: garantir a governabilidade com base em alianças com monstros como o PMDB, melhorar a vida dos pobres com pequenas concessões, e ao mesmo tempo encher de alegria o sistema financeiro, que nunca ganhou tanto quanto nesta última década, nas palavras do próprio Lula. Todos lucravam, todos ficavam felizes, mas só enquanto a excecional conjuntura económica internacional o permitiu. Quando chegou a crise, o preço das matérias-primas caiu e a China reduziu o crescimento, Dilma adotou os cortes orçamentais e o ajuste fiscal propostos pelo seu adversário Aécio Neves nas eleições que ela acabara de vencer com um programa diferente.

E agora?

O mandato de Dilma Rousseff ficou ferido de morte neste domingo, e o Senado dificilmente deixará de confirmar o afastamento da presidente por 180 dias. Mas o governo de Temer que assumir será tão fraco que dificilmente se aguentará por muito tempo. Claro que o PMDB não vai abrir mão do poder que lhe caiu no colo, presenteado pelo golpe palaciano que Temer teve o talento de urdir a partir do Palácio do Jaburu, a sede da vice-presidência. Mas setores crescentes da classe dominante já concluíram que com este governo usurpador, carente de qualquer legitimação – Temer também é responsável das “pedaladas fiscais”, como Dilma – não vai a lugar algum.

A tese de eleições gerais para o Congresso e para a Presidência, lançada pela Folha de S. Paulo, vai encontrando um eco crescente. É possível que o próprio PT a ela adira, até porque as sondagens indicam que apesar de todo o desgaste do partido, Lula ainda tem a vitória numas eleições presidenciais ao alcance da mão.

A vitória do golpe palaciano reforça a classe dominante, não a enfraquece. A Fiesp, a Febraban, o PSDB, o PMDB et caterva conseguiram os seus desígnios.

Mas aqueles que acham que a queda de Dilma provocada pela direita não terá consequências nefastas no futuro, que veem a derrota parlamentar da presidente como um primeiro passo para afastar “todos” e conquistar eventuais eleições gerais, impedindo o avanço da direita, do ajuste fiscal e dos ataques aos direitos dos trabalhadores, caem numa cruel ilusão. A vitória do golpe palaciano reforça a classe dominante, não a enfraquece. A Fiesp, a Febraban, o PSDB, o PMDB et caterva conseguiram os seus desígnios. Aconteça o que acontecer, o futuro será duro para os trabalhadores do Brasil que só contam com pequenos partidos da esquerda socialista para defender os seus interesses, ainda por cima partidos que foram até agora incapazes de se unirem numa frente que os faça avançar com um terceiro campo alternativo.

Vão todos regressar

O vice-quase-presidente Temer já anunciou que o povo terá de passar por sacrifícios, que está nos seus planos fazer a reforma da Previdência e privatizar a Petrobrás. Mesmo que venha a haver um acordo entre as duas facções opostas para o país ir para eleições, as dificuldades para a esquerda e os trabalhadores são enormes. Ou alguém duvida que Temer, Aécio, Cunha, Bolsonaro, vão “todos” regressar após eventuais eleições gerais antecipadas? E que até mesmo no caso de uma improvável vitória de Lula este retomaria a mesma política de austeridade anunciada por Dilma quando tomou posse no seu segundo mandato?

Alguém duvida que Temer, Aécio, Cunha, Bolsonaro, vão “todos” regressar após eventuais eleições gerais antecipadas? 

Na luta de classes que nunca deixou de reger a vida do Brasil, a relação de forças atual não é a mais favorável aos trabalhadores. A vitória do impeachment da direita é fruto dessa situação. O legado dos 13 anos de petismo no poder teve o efeito de um furacão devastador para toda a esquerda.

Ter consciência disto é condição essencial para a esquerda socialista poder recuperar o terreno perdido.

Luís Leiria
Sobre o/a autor(a)

Luís Leiria

Jornalista do Esquerda.net
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