Luanda Leaks: Rui Moreira e a arte de medalhar um ladrão

porAdriano Campos

24 de janeiro 2020 - 10:33
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O Luanda Leaks veio comprovar o que há muito já se sabia. Isabel dos Santos é a figura principal de uma das maiores redes internacionais de crime económico do século XXI, surrupiando durante anos o produto do esforço do povo angolano.

Como representante de uma cleptocracia agora caída em desgraça, Isabel dos Santos teve no seu pai, José Eduardo dos Santos, o garante político para o saque, e no seu marido, Sindika Dokolo, o articulador internacional do crime. No esquema de ações da Galp, na criação de empresas fantasmas, no negócio obscuro dos diamantes, é o nome de Sindika Dokolo que surge vezes sem conta nas páginas do Luanda Leaks.

Sabemos com que linhas se teceu este império do crime. Em Portugal, foram muitos os grupos económicos que beneficiaram do capital angolano e mais ainda as portas giratórias entre os negócios e a política que permitiram à rede de Isabel dos Santos florescer. De António Nogueira Leite (ex-secretário de Estado do Tesouro e Finanças PS) na Finertec a Mira Amaral (ex-ministro da Indústria e Energia PSD) no BIC, passando por Armando Vara (ex-ministro Adjunto PS) no BCP, o pacto de regime não falhou ao casal dos Santos. Em 2009, do PCP ao CDS, o Bloco de Esquerda foi o único a não receber José Eduardo dos Santos numa visita oficial que haveria de garantir as bases de expansão futura das negociatas em Portugal.

É já após a lavandaria económica instalada e muito depois dos vários sinais de corrupção que Sindika Dokolo desembarca no Porto, pela mão de Rui Moreira. O marido de Isabel dos Santos prometia investimento farto e reciprocidade nas relações, com o autarca do Porto a deslocar-se a Luanda depois de lembrar "dois países e dois povos que carregam, nos seus ombros, uma extraordinária História que se devem obrigar a recordar, com arte e amor. Sem preconceitos nem julgamentos mútuos". Saldadas as relações, um espólio oferecido a Sindika Dokolo: a casa Manoel de Oliveira (propriedade municipal), 120 mil euros canalizados para a Câmara (Fórum do Futuro) e uma medalha de ouro da cidade. Lavagem de imagem garantida, lá foi Sindika para outros voos, sem saber ainda que fugiria de Angola, deixando para trás um país na miséria que é, afinal, o seu conforto.

Da honorífica medalha reza uma história: aprovada por unanimidade no executivo, apenas o Bloco, na Assembleia Municipal, se opôs à entrega. Passados quase cinco anos, a cidade não precisa de uma explicação sobre como houvera Rui Moreira de medalhar um aldrabão. Conhecida e sabida, a arte está na intenção, cumprindo agora a quem ajudou à distinção, retirar a ilação: nem medalha, nem perdão, o que a cidade quer é o seu nome fora da lapela de um ladrão.

Adriano Campos
Sobre o/a autor(a)

Adriano Campos

Sociólogo, dirigente do Bloco de Esquerda e ativista contra a precariedade.
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