Este Torrão não é de açúcar

porNuno Pinheiro

08 de novembro 2022 - 11:48
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Este torrão não é de açúcar, esta história ainda não tem um final feliz, nem uma família foi realojada em condições aceitáveis. Mesmo que houvesse boas soluções para estas dezenas de pessoas, continua a haver milhares, naquele torrão esquecido.

Segundo Torrão, demolições - fotos de Nuno Pinheiro

Por via de algum mistério os bairros de lata tendem a ter nomes poéticos. Na minha infância, em Almada, um enorme bairro de lata dava pelo nome de Quinta da Alegria. Como até conhecia o bairro, não sei que alegrias lá havia, mas não deviam ser muitas porque com o marcelismo e a elevação de Almada a cidade o bairro desapareceu e as pessoas realojadas. Eram sobretudo pessoas que tinham fugido à rápida mecanização dos campos e que tinham vindo para fazer os piores e mais mal pagos trabalhos. Ratinhos, alentejanos, eram vistos com os olhos de alguma superioridade. Quando o bairro foi demolido, foram realojados em sítios com nomes menos poéticos, como o Bairro Salazar no Laranjeiro (bem perto do mais antigo Bairro do Rato), a Ramalha, ou, mais tarde o Bairro do Pica-Pau Amarelo (sem rinocerontes professores de inglês, nem capivaras, mas com vistas invejadas pela presidente da câmara que não sabe que os prédios ao pé do rio não têm as janelas para lá viradas). Contavam-se histórias de burros em prédios e couves em banheiras, verdade ou mentira serviam a ideia de que se davam pérolas a porcos (no sentido figurado e no literal).

Num sítio magnifico, mesmo junto à Foz do Tejo, ao longo de 40 anos, foi crescendo mais um bairro de lata, o 2º Torrão. Mesmo tendo do outro lado do Rio, as zonas mais ricas e caras do país, foi ficando esquecido e crescendo. Os poderes autárquicos de então refugiavam-se na ideia de que a habitação era uma questão do poder central e o bairro foi crescendo, ficou do tamanho de uma vila média. Se antes tínhamos pessoas fugidas do desemprego criado pela mecanização dos campos, agora vieram de África, também para fazer os piores trabalhos, outros são ciganos que alguns acham bem manter longe.

Como a todos os africanos que ousem reivindicar direitos diz-se (ou pelo menos pensa-se, quando a lata não chega para dizer abertamente) que deviam estar gratos, agradecidos, estariam bem pior na terra deles. É uma questão de caridadezinha, não de direitos. E o realojamento vai sendo adiado, para a semana do nunca. Até surgir uma emergência. Não que fosse nova, estava identificada há três anos, mas o perigo iminente de ruína de um troço da Vala da Caparica acelerou as coisas. A Presidente da Câmara, segundo as suas palavras, não queria ter a responsabilidade se acontecesse algum acidente, porém essa preocupação não aflorou quando recebeu os relatórios de 2019.

Houve anos para preparar realojamentos, mas agora é preciso fazê-los à pressa. Católicos papa hóstias e procissões, socialistas das sociedades anónimas, batalhões de adjuntos, assessores, especialistas em comunicação mobilizam-se, não para ajudar as pessoas, mas para conter os danos, para que a incompetência e insensibilidade não deem demasiada bronca. A presidente não ajuda ao ameaçar mandar toda a gente para um pavilhão. Afinal o que é importante é aparecer em muitas fotografias, ter uma espécie de jet-set, trazer muitos Porsches e música pimba para o concelho. Sobre este assunto vai-se tentar que caia no esquecimento.

Segundo Torrão, demolições - Fotos de Nuno Pinheiro

Segundo Torrão, demolições - Fotos de Nuno Pinheiro

Chego ao bairro numa manhã chuvosa de outono. Uma de muitas visitas nos últimos anos, mas desta vez as demolições já tinham começado. A Vala ameaçava ruir, mas não é isso que impede que lá se usem e estacionem máquinas pesadas. Nos destroços e escombros vejo brinquedos, sapatos, vidas demasiado perturbadas. A paisagem é deprimente com casas destruídas, outras que permanecem de pé porque as pessoas recusam abandonar o local sem condições mínimas de realojamento. O que parecia um musseque de qualquer cidade africana é agora um cenário de guerra, como aqueles que veem na TV.

A enorme escavadora, estacionada num local que ameaça ruir, permite um ângulo com o Tejo ao fundo

A enorme escavadora, estacionada num local que ameaça ruir, permite um ângulo com o Tejo ao fundo

As fotografias estão a sair bem, demasiado bem, há uma beleza daquelas cores e daquelas ruínas na chuva miudinha. Lamento não ter trazido a Pentax, preparada para a chuva. A enorme escavadora, estacionada num local que ameaça ruir, permite um ângulo com o Tejo ao fundo. Afinal foi essa ameaça de ruína que obrigou a que agora haja umas dezenas de famílias a realojar, o troço final da vala da Caparica corre sérios riscos neste inverno

Chega Catarina Martins. Todos querem falar com ela, ela quer falar com todos

Chega Catarina Martins. Todos querem falar com ela, ela quer falar com todos

Chega Catarina Martins. Todos querem falar com ela, ela quer falar com todos. Uma capacidade de ouvir, de responder, entre a doçura e a dureza. Pedem-lhe que não os esqueça, promete que não deixará que os esqueçam. Também está a imprensa, a situação tem estado na comunicação social e é preciso que continue a estar.

Chega Catarina Martins. Todos querem falar com ela, ela quer falar com todos

Contam as suas histórias. Quem fosse para um hostel, sabendo que era por dias, para uma casa, mas com uma fuga de gás e instalações elétricas que não passam as inspeções. Mostram fotografias dos locais para onde foram, onde faltam as condições mínimas. A Câmara de Almada, encolhe os ombros. Nem o apregoado cristianismo, nem o proclamado socialismo chegam para tanto, para se preocuparem com as pessoas.

A Câmara de Almada, encolhe os ombros. Nem o apregoado cristianismo, nem o proclamado socialismo chegam para tanto, para se preocuparem com as pessoas

Na galeria de horrores de pessoas a quem se impede de organizar a vida, uma senhora foi alojada com a filha num centro de detenção, ou acolhimento, não sabemos bem, para imigrantes sem papéis. Alvorada às sete da manhã, saídas por períodos curtos e para locais que é preciso justificar. Tratadas como criminosas (e os emigrantes sem papéis também não o são).

Pessoas que não foram tratadas como pessoas, porque, no fundo, as “autoridades competentes” as vêm como números ou objetos. Pessoas que neste dia viram a oportunidade de ser tratadas como tal. Que venceram os seus medos e falaram, defenderam as suas condições de vida, mas também a sua dignidade, a sua humanidade.

Este torrão não é de açúcar, esta história ainda não tem um final feliz, nem uma família foi realojada em condições aceitáveis. Mesmo que houvesse boas soluções para estas dezenas de pessoas, continua a haver milhares, naquele torrão esquecido.

Ao sair passa-se pela escola, parece uma continuação do bairro. Uma das últimas, senão a última feita com pré-fabricados. A pior escola para quem vive nas piores condições, é assim que se cria e se mantém um país de desigualdade.

Artigo de Nuno Pinheiro para esquerda.net

Nuno Pinheiro
Sobre o/a autor(a)

Nuno Pinheiro

Investigador de CIES/IUL
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