Na última semana ocorreram as eleições autárquicas em França onde celebramos o crescimento eleitoral do partido irmão do Bloco, a França Insubmissa (LFI). Face à expectativa de um crescimento da direita e da extrema-direita, os resultados geraram alguma surpresa. Embora a extrema-direita tenha tido capacidade de “furar” algumas cidades (Nice), falhou alguns objetivos urbanos importantes (como Marselha). A direita ganhou muitas communes (algumas muito pequenas, do tamanho de freguesias portuguesas), como é visível no gráfico abaixo do Le Monde (o Le monde classifica os partidos associados a Macron como o centro, o que expressa a sua visão ideológica. Adicionando esse valor ao geral da direita, o resultado ascendia a 1853 communes).
No entanto, a contagem de communes não é suficiente para entender a sensibilidade eleitoral (este modelo equipara pequenas vilas ou aldeias a cidades tão populosas como Paris). O gráfico abaixo permite visualizar melhor a distribuição. Note-se que a classificação do Le Monde posiciona o campo macronista como pertencente ao centro. No entanto, se considerarmos que este campo integra a direita e somarmos os seus valores a esse bloco, então a direita ultrapassaria a esquerda, atingindo um total de 12 536 988.
Porém, não é pouco significativo que Rashida Dati - candidata a Paris, da direita tradicional, anterior ministra da cultura num governo escolhido por Macron, tenha perdido expressivamente, mesmo apoiada pela extrema-direita que desistiu a seu favor e num contexto em que era a única candidata das direitas, face dois candidatos do campo mais vasto da esquerda, o que poderia se ter revelado uma vantagem para a antiga ministra.
Foi a esquerda que os media identificaram como tendo resultados inesperados. Embora o Partido Socialista Francês tenha em geral aguentado (apesar de algumas perdas em Saint-Denis e Montreuil) foi o crescimento exponencial da LFI que chocou quem está na bolha político-mediática. Isto foi evidenciado na vitória histórica de Bally Baygayoko em Saint-Denis, maior município da periferia de Paris, logo na primeira volta, nas vitórias em locais como Montreuil - periferia de Paris - e Robaix -noroeste de Lille - e também no crescimento exponencial em cidades como Lille e Marselha.
Estes resultados evidenciam que o partido está a conseguir disputar em territórios onde a extrema-direita (como o Rassemblement National) é bastante forte, mobilizando eleitorado semelhante em termos socioeconómicos (classes populares), mas com discursos diferentes. A esta estratégia alia-se a disputa de voto com o PS (à esquerda)- os resultados presidenciais de Mélenchon (19,6% no primeiro turno em 2017, muito próximo do bloco tradicional da esquerda e 22% em 2022) ocorreram em simultâneo com o forte declínio nacional do PS, sugerindo a migração do segundo partido para o primeiro.
A disputa entre a França Insubmissa e o Partido Socialista Francês tem sido constante e estruturante. Embora a LFI, em vários contextos, participe com os socialistas em frentes de bloqueio à extrema-direita, como foi o caso em Marselha, onde um candidato da esquerda radical chegou a retirar-se perante a recusa do PS em unir candidaturas, temendo uma maioria relativa da extrema direita, o objetivo estratégico dos insubmissos vai além dessa cooperação tática: procura ultrapassar o PS, tanto social como eleitoralmente. Para a LFI, os socialistas são os herdeiros de uma tradição de compromisso com o poder, acusados de trair as classes populares e os valores da esquerda ao governar em convergência com forças liberais, nomeadamente os chamados macronistas. Esta situação ficou evidenciada na altura da Nouveau Front Populaire, a coligação eleitoral que juntava a França Insubmissa, os ecologistas, os comunistas e socialistas e que ganhou as últimas eleições legislativas mas a quem foi negado o direito de governar por Macron. No debate sobre o voto do Orçamento de Estado, proposto pelo governo de Macron em 2024 para o ano de 2025, as disputas começaram com as diferenças de reação ao orçamento - enquanto forças como a LFI defendiam uma oposição frontal ao orçamento, o PS praticou uma posição mais institucional de contribuição parlamentar, traindo os seus aliados e o que prometera aos seus eleitores. Isto foi interpretado pela esquerda radical como “jogar dentro das regras” de um sistema que queriam contestar. Face a tudo isto há uma ideia que sintetiza o projeto da França Insubmissa: rutura. Rutura com o sistema, sem compromissos.
O clima entre estes dois partidos esteve ao rubro antes das eleições. A morte do neonazi Quentin Deranque em Lyon, assassinado por elementos antifascistas que se defendiam de uma operação de emboscada preparada por uma milícia fascista, gerou um forte ataque à LFI, em particular à figura de Mélenchon. Foi criticada a posição do partido que, embora lamentando a morte, se recusou a responsabilizar-se moralmente e a equiparar fascistas e antifascistas. O Partido Socialista Francês insistia na necessidade de um “cordão sanitário” em relação à LFI devido à sua posição sobre violência política, metendo assim a LFI ao mesmo nível que os partidos racistas e xenófobos como a União Nacional e o Reconquista.
Em simultâneo, os media antecipavam ansiosamente um impacto negativo nos resultados eleitorais da LFI, face a esta conjuntura. É importante referir que os media tradicionais estão em permanente combate contra os insubmissos. Exemplo disso é o facto de a candidata da LFI de Paris, Sophia Chikirou, não ter sido inicialmente convidada para o debate televisivo no canal BFMTV na segunda volta. Só o Grégoire, PS, e a Dati, direita, tinham sido convidados. Chikirou chegou inclusive a reclamar a ARCOM, que garante a pluralidade nos media.
Curiosamente, o jornal Público em Portugal repete a mesma narrativa no artigo de dia 23 de Março de 2026 “A “onda de direita varre França, mesmo com a esquerda a conseguir as três maiores cidades” apelidando o partido de esquerda radical como tendo entrado no “grupo dos partidos proscritos”.
Esta diferença evidenciou a distância entre a bolha mediática e os eleitores. O sucesso viu-se particularmente nas classes populares e nos jovens. O enraizamento tático nas zonas mais empobrecidas de França disputou a narrativa de que estas regiões seriam eleitores inevitáveis da extrema-direita. Tal foi alcançado através do trabalho sistemático nas comunidades, através de estratégias como o porta a porta, distribuição de panfletos, envolvimento de membros da setor associativo nas listas às autárquicas, entre outras. Foi assim que se incubaram novas lideranças expressivas da diversidade da classe trabalhadora.
Foi também a crítica permanente ao regime de propriedade dos media e a impermeabilização a ataques mediáticos de setores cada vez mais alargados que permitiu furar a bolha. Evidência que a coragem faz cultura foram os comícios cheios e eletrizantes durante a campanha.
Talvez não seja coincidência que seja precisamente em territórios populares, como Saint-Denis, Aubervilliers, Roubaix ou os bairros do norte de Marselha, que a França Insubmissa obtém os seus resultados mais expressivos, por vezes aproximando-se ou ultrapassando os 50% em intenção de voto. São particularmente relevantes estes resultados tendo em conta o facto da LFI ter sido formada há cerca de dez anos.
O que podemos aprender com esta experiência?
É inútil replicar técnicas ou modelos sem uma análise crítica dos contextos, dos partidos e do país. Ainda assim, entre realidades que partilham algumas semelhanças políticas e estruturais e tendo em conta a vocação internacionalista da esquerda, torna-se inevitável interrogar o contraste entre a revitalização observada em países como a Bélgica (PTB), França ou Reino Unido (Greens, Your Party) e os falhanços verificados no caso português. Ao longo dos últimos anos, foram-se cristalizando entre nós diversas teorias autojustificativas sobre as transformações do regime e as dificuldades da esquerda, que mais do que explicar, tendem muitas vezes a naturalizar a nossa própria impotência.
1. Teoria do surfista
Esta teoria entende a viragem política como um fenómeno de “marés” que eventualmente se inclinam para um lado ou para outro, quase de forma inevitável. Desconsidera a agência de sujeitos e organizações na produção de mudanças culturais e políticas, assumindo que estas se limitam a acompanhar correntes estruturais. Parte de uma leitura determinista da luta de classes, em que as transformações políticas são vistas como efeitos quase automáticos de dinâmicas estruturais, subestimando o papel da ação organizada e da intervenção política consciente. Em contraste, numa leitura gramsciana, a mudança política depende também da construção de hegemonia, isto é, da disputa ativa no plano cultural e ideológico, não podendo ser reduzida a simples oscilações inevitáveis.
2. Teoria da direitização
Esta teoria defende que há uma mudança sociológica na sociedade portuguesa ao nível dos valores e crenças individuais que se traduz numa mudança de cultura social, meio mediático e sistema de representação política. Diogo Machado, no artigo “Há mesmo uma direitização na sociedade portuguesa?”, apresenta uma análise de elevada densidade estatística sobre a evolução dos valores sociais em Portugal, contribuindo para problematizar e, em larga medida, refutar esta teoria. A teoria da direitização em causa revela uma dimensão autojustificativa resume-se na ideia de que “ganha a direita porque o país se direitizou”. Este tipo de explicação tende a simplificar excessivamente processos complexos, reduzindo a capacidade de formular respostas políticas inovadoras e de compreender, com rigor, as causas dos próprios resultados eleitorais. Ademais, promove uma forma de passividade, uma vez que crê que a mudança de valores já se deu. Foca-se na dimensão moral e subjetiva, reduzindo os fatores materiais.
Se o caso francês nos ensina alguma coisa, é que o sucesso não é coincidência nem mero reflexo do “espírito do tempo”. Resulta antes de um trabalho continuado de organização, de uma capacidade autocrítica sobre o estado da esquerda e, simultaneamente, da imaginação de novas formas de intervenção e de proposta política. Implica também uma clareza estratégica sobre quem é o “nosso povo”, um olhar orientado para fora e a ambição de funcionar como instrumento de emancipação das classes populares, mantendo a coesão face a pressões e ataques mediáticos que procuram fragilizar essa ligação. Num contexto marcado pela guerra, pela crise climática, pela proletarização crescente das classes médias, pelo embrutecimento do Estado e por tendências de fascização, os desafios não se enfrentam com inércia. Só uma dinâmica alargada de participação, sustentada por coragem política e trabalho coletivo, pode responder a estes processos. É hora de trabalhar.