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A efémera RDA (República Popular de Almada)

A República Popular de Almada era uma espécie de piada às tradições de luta do maior concelho da Margem Sul e que, ao mesmo tempo está próximo e distante do Terreiro do Paço.

A República Popular de Almada era uma espécie de piada às tradições de luta do maior concelho da Margem Sul e que, ao mesmo tempo está próximo e distante do Terreiro do Paço, separado por menos de dois quilómetros de um rio que, muitas vezes, é uma barreira.

A piada era muitas vezes assumida pelos almadenses que se revêm nessa tradição de luta. Porém é menos conhecido que, embora efémera, a República Democrática de Almada existiu. Nos anos de 1974/75 foram muitas as lutas travadas em Almada. Greves na Lisnave e outras fábricas, lutas de moradores por habitação, transportes, creches e infantários, direito à cultura, lutas de estudantes pelo direito à educação e contra a permanência da ideologia e métodos do estado novo. Muitas destas lutas ultrapassaram as limitações que a principal e reformista força política do concelho queria e, levaram mesmo a confrontos. Greves da Lisnave, ocupação do seminário entre outras.

As estruturas do que se chamava então poder popular cresceram e contribuíram fortemente para resolver muitos problemas do concelho.

O 25 de novembro surge neste contexto. Ao contrário do discurso oficial, o 25 de novembro não foi um golpe da esquerda “totalitária”, mas sim um golpe de uma ampla coligação que ia da extrema-direita a sectores, nomeadamente militares, de esquerda democrática. O apoio dos EUA e alguns países europeus a este golpe também está documentado. É público que houve reuniões preparatórias, distribuição de armas e que havia toda uma planificação da ação militar. Pelo lado da alegada “esquerda golpista” não se conhece nenhuma preparação para a realização de um golpe, não existia nenhum plano e foi notória a falta de preparação para lidar com os acontecimentos. Para dar um exemplo, algumas unidades chave não tinham munições.

Se militarmente não foi preparado nenhum golpe, politicamente também não havia nenhuma vontade de realizar um golpe por parte da maior parte dos sectores da esquerda, alegadamente golpista. O PCP era fiel à estratégia da URSS que respeitava os acordos realizados no fim da 2ª guerra mundial, segundo os quais Portugal estava na área de influência do Ocidente. Não foi por acaso que Rosa Coutinho (o membro do Conselho da Revolução mais próximo do PCP) teve a tarefa de desmobilizar os fuzileiros. A UDP e a LCI eram organizações leninistas com uma conceção política que os levava a defender uma futura insurreição de massas e não um golpe militar. Restam organizações como o PRP e a LUAR, que politicamente poderiam defender este tipo de ação, mas que sabiam não ter força para tal.

A 25 de novembro, o Forte de Almada, uma pequena unidade militar que, tal como outras, tinha muito poucas munições, não se rendeu. As ordens novembristas não se aplicavam em Almada. O Estado de Sítio aplicado em Lisboa parava no Tejo. Não foi só o Forte. Dia e noite o Capitão Luz e os seus homens foram acompanhados pela população que se juntou no largo junto à entrada do forte. Operários das grandes empresas usaram grandes gruas para, com blocos de cimento, impedir o acesso ao forte.

Os aviões passavam a rasar, mas o forte não se rendia. Do Terreiro do Paço não se mandava em Almada. Durou poucos dias, mas a República Popular de Almada existiu.

Sobre o/a autor(a)

Investigador de CIES/IUL
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