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Cimeira dos Povos pela Justiça Climática: é agora ou nunca

A cimeira de Glasgow, à semelhança das anteriores, é pouco mais que um desfile de promessas e de propaganda verde vindas dos principais governantes e empresários mundiais.

Para conter o aquecimento global em 1,5ºC é preciso reduzir para metade a emissão de gases com efeito de estufa ao longo desta década. Só assim o planeta poderá ser protegido dos efeitos devastadores da subida do nível dos mares, da desertificação e dos fenómenos climatéricos extremos que já se fazem sentir.

Perante esta evidência, 197 países assinaram em 2015 o Acordo de Paris, onde se comprometeram com um objetivo de aquecimento abaixo dos 2ºC (idealmente 1,5ºC), e com a submissão de planos periódicos de reduções de emissões. A COP26, um encontro entre os países signatários deste acordo, deveria servir para atualizar as metas de combate às alterações climáticas.

O problema é que a cimeira de Glasgow, à semelhança das anteriores, é pouco mais que um desfile de promessas e de propaganda verde vindas dos principais governantes e empresários mundiais.

Vejamos um exemplo. No primeiro dia de trabalhos oficiais em Glasgow foi anunciado um acordo para acabar com a desflorestação (incluindo na Amazónia) até 2030. O que não se diz é que a meta representa um adiamento de uma década face ao compromisso anterior. E mesmo assim é meramente indicativa. Bolsonaro terá carta branca para continuar a devastar a maior floresta tropical do mundo e as suas comunidades indígenas, em nome dos interesses económicos associados ao agronegócio.

Se nem todos os governos têm o cadastro do Bolsonaro, na verdade poucos cumpriram o prometido, incluindo a União Europeia. Segundo um relatório da ONU publicado há dias, se os países persistirem no caminho atual, o aumento de temperatura será de 2,7ºC. Se cumprirem os compromissos que declararam para a COP26, então o aquecimento será de 2,2ºC. Ou seja, em nenhum dos casos se cumpre sequer a meta do acordo de Paris, quanto mais o objetivo dos 1,5ºC.

Fora da reunião formal, onde tantas pessoas poderosas partilham os seus bem preparados discursos de autovalidação, reúne-se, de forma descentralizada, a Cimeira dos Povos pela Justiça Climática. São milhares de ativistas, na sua maioria muito jovens, que compreenderam há muito o que as elites querem negar: uma tão drástica redução de emissões de gases estufa só é possível com a transformação radical do atual modo de produção, consumo e mobilidade.

Em vez de promoverem essas alterações, os governos mundiais entregam-se a um perigoso exercício de malabarismo. Numa mão, os dados científicos que apontam para o desastre. Na outra, os interesses económicos e financeiros que dependem da poluição para sustentar os seus lucros. O resultado é a promessa de que "o mercado" resolverá os problemas. E assim o planeta vai aquecendo, enquanto se criam novos produtos financeiros especulativos "verdes" e as petrolíferas prometem plantar árvores para compensar a destruição de hoje. Pelo caminho fica a tão propalada fiscalidade verde que, na maior parte das vezes, só serve para transferir para os mais pobres os custos da suposta transição, cada vez mais insuficiente.

De Glasgow, a única esperança são os jovens do mundo que sabem que não há tempo para meias medidas. É agora ou nunca.


Artigo publicado no Jornal de Notícias a 9 de novembro de 2021.

Sobre o/a autor(a)

Deputada. Dirigente do Bloco de Esquerda. Economista.
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