A violência em Gaza e na Palestina não começou no dia 7 de Outubro. São já 78 anos de tragédia, de ocupação. Mas para muitas pessoas no mundo só a partir de 7 de Outubro essa violência se tornou visível. Desde então, o mundo está a assistir a um genocídio, ninguém pode dizer que não sabia, ninguém pode dizer que não viu.
Em Gaza destroem-se vidas, mata-se com armas e com fome e procura-se enterrar cada um dos direitos que foram conquistados em resultado de um rasto de sangue. Esses direitos que ajudaram a humanidade a viver novas fases pós terror são todos os dias negados em Gaza.
E, ainda assim, há, no nosso país e no mundo, quem tente negar todas as evidências. E, ainda assim, há, no nosso país e no mundo, quem se mantenha em silêncio. Mas em tempos de genocídio o silêncio pesa mais do que as armas. Silêncio não é neutralidade, é cumplicidade.
E, ainda assim, há, no nosso país e no mundo, quem esteja agora mais empenhado em desacreditar a corajosa tripulação da Flotilha Global Sumud do que em denunciar o genocídio. O que dizer de quem só tem insultos para se referir a uma missão de paz?
É de coragem, alimentos e medicamentos que aqueles barcos vão cheios. Como é de coragem que se continuam a encher ruas e praças e salas em todo o mundo. A flotilha é feita de todas as bravas pessoas que lá estão e também de todas as pessoas que tem todo o mundo têm o coração em Gaza.
Precisamos de dizê-lo sem rodeios, perante tudo o que se está a passar, o governo português tem sido um governo cobarde. Não é uma guerra, é uma ocupação.
Não é “privação de alimentos”, é fome.
Não é um problema complexo, é um genocídio a acontecer a frente dos nossos olhos. Não perceber isto, é alimentar o colapso moral.
Há muitas ações que o nosso governo e outros governos poderiam e deveriam estar a levar a cabo: deviam ter uma flotilha que levasse alimentos e medicamentos a Gaza; deviam estar a aplicar sanções a Israel; deviam estar a impor um embargo a todas as armas que alimentam o genocídio; deviam estar a reconhecer o estado da Palestina sem condições; deviam estar a prestar solidariedade sem limites ao povo palestiniano. É isto que tem de ser feito perante o sofrimento atroz de tantas pessoas, de tantas crianças.
Resta-nos por isso as nossas vozes, as nossas ações, a nossa solidariedade.
A cidadania não pode ficar refém do silêncio cúmplice dos governos.
Resta-nos a Sumud, essa perseverança inabalável, essa resistência activa, essa capacidade de continuar a viver, essa esperança inesgotável.
O que vive em Gaza actualmente não tem comparação com nenhum outro momento histórico. Mas quebrar o cerco é possível. Acreditem. Em Janeiro de 2010 fomos muitos de muitos países a entrar e a quebrar o cerco que durava já há anos. Estive nessa missão juntamente com vários colegas eurodeputados e deputados nacionais de vários países. Este cerco também será quebrado, é só uma questão de tempo.
Mahmoud Darwish escrevia num dos seus mais belos poemas sobre a Palestina: “nesta terra há razões para viver”. Sim, há todas as razões para viver. Dessa esperança depende o futuro da humanidade.
A Palestina será livre.
Texto de Intervenção na sessão de Solidariedade com a Palestina, que teve lugar na passada sexta-feira, 19 de setembro de 2025, no ISCTE em Lisboa