O referendo britânico à permanência na União Europeia saldou-se por uma vitória dos partidários do abandono da UE por parte do Reino Unido. A consulta dividiu o país, tendo o “leave” obtido 51,9% contra 48,1% do “remain”.
Para este resultado, que deixou a Europa em choque, contribuíram diversos fatores.
Desde logo, é preciso perceber a génese deste referendo: pressionado pela ala direita do seu Partido Conservador, fortemente eurocética, e ameaçado pelo crescimento do UKIP, um partido da direita populista, isolacionista, xenófoba e islamofóbica, que sempre defendeu a saída do país da UE, o primeiro-ministro David Cameron prometeu, na campanha eleitoral, a realização do referendo. Graças às particularidades do sistema maioritário britânico, obteve uma maioria absoluta. Mas, ao ficar sozinho no poder, dispensando os liberais democratas, fortemente europeístas e seus parceiros de coligação na legislatura anterior, ficou obrigado a cumprir a sua promessa.
A direita eurocética procurou encontrar na imigração o “santo-e-senha” da sua campanha. Sabedor disso, Cameron pressionou as instituições europeias a aceitar a possibilidade de o Reino Unido impor restrições à entrada de imigrantes da UE e ao seu acesso aos benefícios da segurança social britânica. Vergonhosamente, estas cederam o suficiente para o PM britânico poder dizer que tinha obtido uma grande vitória negocial. Dessa forma, pensou ter esvaziado a campanha dos seus adversários. Convocou, então, o referendo para junho.
Cameron cometeu, porém, um erro fatal. Por um lado, porque o referido acordo ficou muito longe daquilo que a direita populista pretendia, ou seja, o fim da aplicação ao país do princípio da livre circulação de pessoas. Por outro, ao convocar o referendo depois de ter assinado um acordo sobre a imigração, tornou esta num dos grandes temas da campanha, como pretendia o campo eurocético. Acresce ainda que a crise dos refugiados só reforçou o argumentário demagógico da direita populista, desde sempre muito hábil a explorar os medos e “fantasmas” dos cidadãos.
Mas, se o tema da imigração foi crucial para a vitória do “leave”, não é o único a explicá-la.
Em primeiro lugar, há que ter em conta que os britânicos nunca “morreram de amores” pela União Europeia. Na verdade, a sua adesão à CEE, em 1973, teve mais a ver com o interesse dos empresários britânicos, que queriam beneficiar das vantagens do mercado comum, que com a adesão popular a qualquer projeto europeu. Não por acaso, o Reino Unido recusou aderir ao euro, ao espaço Schengen, à Europa Social e à Carta dos Direitos Fundamentais da UE.
Ora, atualmente, a União Europeia é hoje, por culpa própria, vítima de grande impopularidade em, praticamente, todos os Estados membros. Desde o início da crise financeira de 2008, que as instituições europeias, totalmente rendidas ao ordoliberalismo alemão e aos interesses financeiros que ele sustenta, se têm limitado a impor, aos vários governos, políticas de austeridade e de redução de direitos sociais e laborais, sem qualquer respeito pela vontade democrática dos povos. O “diktat” imposto à Grécia, sob a batuta da chanceler alemã e do seu ministro das Finanças mostrou, de forma nua e crua, a deriva autoritária e antidemocrática da UE.
Para um país que tem na supremacia do seu Parlamento a pedra angular da sua organização institucional, essa realidade tornou, para muitos cidadãos, intolerável a presença do Reino Unido numa União Europeia que despreza os cidadãos e onde instituições e funcionários não eleitos tomam decisões não sufragadas pelos parlamentares de Westminster.
Apesar de não fazer parte da zona euro (e, portanto, não estar sujeito aos critérios de equilíbrio orçamental aplicável aos que a integram), o Reino Unido não deixa de ser afetado pelas decisões europeias. E as políticas austeritárias levadas a efeito no início da crise internacional afetaram, de sobremaneira, as classes trabalhadoras britânicas. Mesmo que estas (ao contrário do que sucedeu nos países do sul do continente) não tenham sido impostas pela UE, o discurso pró-mercado dos responsáveis europeus contribuiu para acentuar nelas uma maior desconfiança face à Europa. Não foi por acaso que o “leave” obteve os melhores resultados nas zonas industriais deprimidas do Norte e Centro de Inglaterra.
Face a este quadro, a estratégia dos partidários do “remain” foi desastrosa. Para além de terem deixado a campanha resvalar para o tema da imigração, não conseguiram aduzir argumentos racionais para defender a permanência. Assim, limitaram-se a contrapor, à campanha de medo do “leave”, outra de igual teor: a saída implicaria mais austeridade (o ministro das Finanças deu um verdadeiro “tiro no pé” quando ameaçou com um possível aumento de impostos), a queda da libra, a perda de negócios com o continente e consequente aumento do desemprego, bem como a ameaça de desagregação do Reino Unido. Na verdade, mobilizar os cidadãos em defesa da UE é hoje uma missão impossível em qualquer Estado membro. Daí que, na Inglaterra, o “remain” apenas tenha saído vencedor em certos bastiões “tories” do sul, nas cidades universitárias de Oxford e Cambridge e em alguns dos maiores centros urbanos (com destaque para Londres, onde obteve os melhores resultados a nível nacional): foi o voto das elites cosmopolitas e dos mais jovens, que temem o isolamento do país, e das minorias étnicas, temerosas do racismo e da xenofobia da direita populista.
Nesta campanha, dos principais partidos nacionais britânicos, há apenas um que sai vencedor: o UKIP de Nigel Farage. Populista e eurocético, obteve o referendo que pretendia desde a sua fundação e ganhou-o. Resta saber se capitalizará o Brexit para se consolidar ou se, uma vez atingido o seu grande objetivo, se esvaziará face a um Partido Conservador dirigido pela ala eurocética.
Todos os restantes saíram vencidos da consulta. Os conservadores, divididos ao meio, saem da refrega ainda mais fraturados. Cameron já anunciou que se demitirá em outubro e tudo indica que Boris Johnson, antigo “mayor” de Londres e principal figura da campanha do “leave” possa vir a ser o próximo líder do partido e, eventualmente, o próximo primeiro-ministro. Este não passa de um político populista, que apoiou a saída da UE não por convicção mas por oportunismo: viu no referendo a hipótese de destronar Cameron e chegar à liderança dos “tories”. Resta saber como agirá a ala europeísta do partido (assente nos interesses da City londrina e da maior parte do empresariado britânico) face à tomada do poder por parte da fação eurocética (maioritária nas áreas rurais do país e entre os pequenos comerciantes e industriais).
Também os trabalhistas saem bastante mal do referendo. O seu líder, James Corbyn, da ala esquerda do partido, sempre se afirmou como crítico das políticas da UE. Apesar de ter defendido o “remain”, fê-lo sem grande convicção e pouco empenho. Não possuindo uma orientação clara por parte da direção partidária, muitos eleitores trabalhistas (especialmente, entre o operariado) acabaram por votar pelo “leave”, já que, para eles, o desemprego é fruto das políticas neoliberais da UE e do aumento da imigração. Além disso, viram na consulta popular uma oportunidade para punir o governo conservador de Cameron, claramente alinhado com os interesses dos mais ricos. O resultado do referendo pode colocar em causa a liderança de Corbyn, já que a ala europeísta do partido, herdeira do “blairismo” e da “terceira via”, tentará responsabilizar a atual liderança pela derrota do “remain”. Este será, para a direita do “labour”, o pretexto ideal para tentar derrubar um líder cuja orientação política de esquerda detestam e que veem como incapaz de chegar ao poder.
Por seu turno, os dois partidos mais europeístas, os liberais democratas (em crise profunda, após a desastrosa coligação com os “tories”) e os Verdes (com algum apoio no eleitorado mais jovem) pouco se fizeram ouvir. Com a derrota do “remain”, engrossaram a coluna dos vencidos.
Não nos surpreenderia, no futuro, uma reorganização do sistema partidário, com três polos: o primeiro, à direita, formado pelos eurocéticos conservadores e pelos moderados do UKIP; o segundo, ao centro, que incluiria os liberais democratas, os conservadores pró-UE e os trabalhistas da “terceira via”; o terceiro, abrangendo a esquerda trabalhista e uma parte dos Verdes.
Mas há que considerar os partidos regionais da Escócia, Gales e Irlanda do Norte. E, aí, encontramos vencedores, vencidos e outros que só o futuro dirá se ganharam ou perderam.
Nestes, entre os grandes vencedores destacam-se os nacionalistas escoceses do SNP. Tendo, há menos de um ano, perdido por margem reduzida o referendo sobre a independência do país (46% contra 54%), os separatistas prometeram que, nos próximos dez anos, não promoveriam nova consulta sobre o tema, exceto se as circunstâncias se alterassem drasticamente. Ora, no referendo de 23 de junho, na Escócia, o “remain”, apoiado pelo SNP, o maior partido na região, venceu claramente em todas as circunscrições, obtendo 62% dos votos, ao contrário do que sucedeu na Inglaterra e em Gales. Tanto bastou para que a primeira-ministra do governo autónomo escocês, Nicola Sturgeon, tenha declarado que o futuro da Escócia é com a UE e que o seu abandono por parte do Reino Unido constitui uma alteração drástica das circunstâncias em que decorreu o referendo anterior. Tudo indica, assim, que os separatistas tentarão aproveitar a “onda” para convocar uma nova consulta, onde a probabilidade de conquistar a independência é bastante forte. Se isso acontecer, será o princípio do fim do Reino Unido.
Ao contrário do SNP, os nacionalistas galeses do Plaid Cymru saíram derrotados. Apesar de o “remain” que defendiam ter ganho nos seus bastiões ocidentais, o “leave” saiu maioritário em Gales (52,5% contra 47,5%), com forte contributo dos eleitores trabalhistas. Esfumaram-se, assim, as hipóteses de a líder do PC, Leanne Wood, pedir um referendo à independência do país, proposta que apresentaria caso o eleitorado galês tivesse optado maioritariamente pela permanência. Apesar de tudo, as possibilidades de êxito no mesmo seriam reduzidas, já que o nacionalismo galês é e sempre foi bastante mais débil que o escocês.
Na Irlanda do Norte, o Sinn Féin é o grande vencedor. Apesar do seu euroceticismo, os nacionalistas irlandeses de esquerda, numa hábil jogada tática, defenderam o “remain”. A explicação é simples: se o Reino Unido optasse por sair da UE, como veio a acontecer, a única forma de os norte-irlandeses lá permanecerem é a integração na República da Irlanda, pela qual o SF sempre lutou. Numa região onde o voto é tribal, verificou-se algo de inédito: enquanto a comunidade católica votou em bloco pela permanência (tanto o SF como o mais moderado SDLP defenderam essa opção), o eleitorado protestante surgiu dividido: os unionistas moderados do UUP e do Alliance Party (formalmente interconfessional mas cujo apoio se situa, maioritariamente, entre os protestantes não sectários) apoiaram o “remain” enquanto os unionistas radicais do DUP e da extrema-direita votaram pelo “leave”. De maneira diferente, todos saíram derrotados: os moderados, porque viam na permanência a manutenção do “status quo” na província; os radicais, para quem a saída da UE poderá ser o pretexto para reverter alguns aspetos dos acordos de partilha de poder com os católicos, porque, apesar de a sua opção ter ganho a nível nacional, saíram derrotados na região, onde o “remain” obteve 55,8% dos votos contra 44,2% do “leave”.
Por isso, o SF já veio defender um referendo sobre uma eventual reunificação da Irlanda. Mesmo que a consulta se venha a realizar, as possibilidades de vitória são escassas caso o voto continue a ser condicionado pela fratura étnico-religiosa, uma vez que os protestantes representam 56% do eleitorado. A não ser que uma parte da elite empresarial protestante perceba ser mais vantajoso para os seus interesses trocar a permanência num Reino Unido isolado da Europa pela integração numa Irlanda membro da UE. Aí, o SF e os nacionalistas irlandeses teriam de dar mostras de moderação, aceitando que a transferência de soberania para a República da Irlanda se faria mantendo intacto o atual estatuto de autonomia da província, resultante dos chamados acordos de Sexta-feira Santa, que institucionalizaram a partilha do poder entre as duas comunidades.
Para concluir, podemos dizer que os apoiantes do Brexit podem ter ferido de morte a União Europeia mas poderão ter, igualmente, contribuído para matar o Reino Unido. E Cameron passará à História como o seu coveiro!