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Brasil: “Por uma Frente de Esquerda”

Manifesto defende que “a fragmentação da esquerda (...) fortalece o projeto autocrático e neofascista que vem se implantando no Brasil.” Por isso, propõe que as eleições municipais de 2020 sejam “um ponto de aglutinação” e de “possível inflexão nessa caminhada.”
A candidatura de Edmilson Rodrigues, do PSOL, numa frente que inclui PT, PDT, Rede, PCB, UP e PCdoB, é um exemplo da frente de esquerda proposta.
A candidatura de Edmilson Rodrigues, do PSOL, numa frente que inclui PT, PDT, Rede, PCB, UP e PCdoB, é um exemplo da frente de esquerda proposta.

O manifesto é assinado pelo “Fórum21 – Ideias para o Avanço Social”, uma organização suprapartidária de debates de ideias, fundada em dezembro de 2014, tendo como fonte a Universidade. A sua Carta de Princípios defende que “cabe às forças progressistas começar pelo que é mais evidente: romper os limites do diálogo no seu próprio campo. A articulação para a troca de ideias daqueles que defendem a justiça social e a soberania popular é essencial à arregimentação de forças mais amplas para os embates que virão.”

O manifesto, que publicamos em seguida, sublinha que uma frente de esquerda “já acontece de forma pedagógica e promissora em alguns municípios brasileiros, como, por exemplo, Belém, em torno da candidatura de Edmilson Rodrigues com frente formada pelo PSOL, PT, PDT, Rede, PCB, UP e PCdoB. Ocorre também em Florianópolis, Macapá, Recife, Manaus, Rio Branco e Campinas, envolvendo uma diversidade de partidos, mobilizados para devolver as cidades à cidadania.”

Reconhecendo que os prazos da Lei Eleitoral se esgotaram e não há mais a possibilidade de criação de alianças políticas oficiais, o Fórum21 observa porém que “nada impede que candidatos e candidatas com registo renunciem às suas candidaturas em benefício de uma frente de esquerda”.

Em seguida, o manifesto na íntegra e os seus primeiros subscritores.

Por uma Frente de Esquerda”

O cenário político para as eleições municipais permanece sombrio e ameaçador para as forças de esquerda. Uma nova derrota, mesmo menor do que a de 2016, poderá ser devastadora.

A questão central é: ainda há tempo de se fazer algo para impedir novo desastre? Se sim, o quê?

A sociedade brasileira está sendo empurrada para um ciclo de violência política que a truculência no poder anuncia e incentiva. O empenho liberal da centro-direita em enxergar moderação no caos e na repressão apenas robustece esse risco com o tônico da cumplicidade.

Um golpe seguido de eleição apartada do líder das pesquisas, Lula, selou a endogamia de interesses entre absolutismo de mercado, obscurantismo religioso, banditismo miliciano, oligopólios de mídia e conivência liberal, que ora condiciona a vida e a morte da população e a empurra a um labirinto de virulência imponderável.

Os quase 150 mil mortos da pandemia arrematam o testemunho do menosprezo que esse caldo de cultura política dispensa ao destino da sociedade e à sorte coletiva de seus integrantes.

O Teto de Gastos é o lacre do perímetro que consagra a repactuação branca, endinheirada, conservadora, racista, misógina e fanatizada no comando integral da sociedade e dos seus recursos.

As forças progressistas que governaram o país por 14 anos sucessivos, desde a vitória histórica de Lula em 2002, subestimaram esse desfecho ao atribuírem à elevação incremental do padrão de vida o condão de mudar a correlação de forças e a consciência política da população.

A organização popular, consciente, autônoma e mobilizada, foi preterida como se o capitalismo não significasse conflito. Superar essa omissão e erro históricos em não fomentar a consciência popular e cidadã, a organização e a mobilização permanentes é o imperativo para contraditar a espiral regressiva em curso, abrindo espaço à construção de uma nova hegemonia propositiva.

Não se trata, por óbvio, de escolher entre travar ou não as disputas parlamentares e eleitorais. Elas são importantes. Mas ter prioridades é obrigatório.

A desordem neoliberal alerta, desde 2008, que a zona de conforto da luta de classes expirou, em um cenário em que o crescimento do excedente, o boom das commodities, no nosso caso, não amortece mais o conflito redistributivo.

Hoje, com o país afogado em uma emergência sanitária, com 12,3 milhões de desempregados, 29 milhões de dependentes de bicos, cerceado por um governo que desmonta o Estado e bloqueia seu papel na reconstrução nacional, a equação política não admite mais nenhuma ingenuidade.

É nesse pano de fundo que as forças de esquerda – mas também democratas antifascistas – estão desafiados a dar uma resposta de audácia política que reordene a disputa pelo poder, convergindo energias à corajosa construção de um novo protagonista coletivo.

As eleições municipais de 2020 oferecem-se como um ponto de aglutinação e de possível inflexão nessa caminhada. Estamos conclamando a que se inicie no pleito deste ano a sedimentação nacional de uma frente de esquerda, organicamente constituída, com propostas inovadoras e ousadas para disputa no conjunto da sociedade e, sobretudo, nos amplos setores populares.

Isso já acontece de forma pedagógica e promissora em alguns municípios brasileiros, como, por exemplo, Belém, em torno da candidatura de Edmilson Rodrigues com frente formada pelo PSOL, PT, PDT, Rede, PCB, UP e PCdoB. Ocorre também em Florianópolis, Macapá, Recife, Manaus, Rio Branco e Campinas, envolvendo uma diversidade de partidos, mobilizados para devolver as cidades à cidadania.

Mas é preciso que esses exemplos se generalizem, inclusive em cidades menores, como eixo de reunião reflexiva e mobilizadora antes, durante e depois do escrutínio, extraindo as lições e providências para os passos seguintes da nossa história.

Trata-se de construir uma força de estatura e capilaridade superiores à soma das partes hoje desconectadas, capaz de fazer o que nenhuma conseguiria unilateralmente: fincar nova voz política na sociedade, e nova agenda, que leve a superar na prática a ilusão de que é possível radicalizar direitos, sem radicalizar a democracia e a participação popular e, não menos importante, realizar uma profunda reforma tributária que instaure tributação progressiva para grandes fortunas e regulamente os fins do fundo público em prol da criação de bases para o bem-viver de todas as pessoas.

Os prazos da Lei Eleitoral se esgotaram e não há mais a possibilidade de criação de alianças políticas oficiais. Porém, nada impede que candidatos e candidatas com registro renunciem às suas candidaturas em benefício de uma frente de esquerda. Há inclusive a novidade de candidaturas coletivas, centralizadas formalmente em torno de um nome.

É necessário apresentar programas e propostas. Para as municipalidades, renda básica de cidadania, fortalecimento do SUS, “Mais Médicos”, consórcios intermunicipais, universalização real da educação básica, infraestrutura para o retorno seguro às aulas presenciais, concursos para reduzir o numero de estudantes por turma, carreiras que assegurem dignidade aos servidores, ações de apoio a minorias, garantia de transporte público, políticas habitacionais, urbanas e de saneamento, de despoluição do ar e da água, de gestão de resíduos sólidos, Orçamento Participativo Ampliado, Conselhos da Cidadania nos bairros e regiões das cidades, ou seja, a radicalização da democracia participativa.

O mundo pós-pandemia não será nada fácil. A Covid-19 expôs e potencializou a rota de colisão entre a superprodução da riqueza e a precariedade estrutural da condição humana no capitalismo financeiro do século XXI. No horizonte há fome, miséria e outras doenças. Reverter o roteiro neoliberal e neofascista dessa caldeira e repolitizar a agenda do desenvolvimento econômico-social, capturada integralmente pela ‘razão de mercado’, requer que as ideias progressistas demonstrem pertencer ao mundo real através da ação.

A fragmentação da esquerda exacerbada pelas milícias digitais fortalece o projeto autocrático e neofascista que vem se implantando no Brasil. A Frente que ora propomos é o primeiro passo para o caminho capaz de opor a civilização à barbárie.

Juntos e juntas podemos e devemos dar agora esse primeiro passo.

Mãos à obra!

Fórum 21: Ideias para o Avanço Social

Alexandre Cesar Cunha Leite – Ciências Sociais UFPB

Altamiro Borges – Jornalista

Aluísio Almeida Schumacher – Livre Docente – Ciências Sociais - UNESP

Andre Kaysel Velasco e Cruz – Ciência Política - Unicamp

Anivaldo Padilha – Presidente do Fórum 21

Antonio Carlos Granado – Economista

Antonio Ernesto Lassance de Albuquerque Júnior – Ciência Política – Gestor Público

Antonio Martins – Jornalista

Antonio Sergio Pires Miletto – Diretor da Alampyme

Aram Aharonian – Jornalista

Arlete Moyses Rodrigues – Inst. de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp

Artur Machado Scavone – Filosofia da USP

Barnabé Medeiros Filho – Jornalista

Beatriz Costa Barbosa - Jornalista

Benedito Tadeu César – Ciência Política UFRGS

Bruno Konder Comparato – Ciências Sociais da UNIFESP

Carlos Eduardo Fernandez Silveira – Economista

Carlos Tibúrcio – Jornalista

Carlos Thadeu Oliveira – Filosofia da USP

Carol Proner – Advogada e Professora de Direito da UFRJ

Celso Japiassu – Jornalista

Cesar Antonio Locatelli de Almeida – Economista – PUC/SP

Cynara Monteiro Mariano – Direito na UFC

Daniel Araujo Valença – Direito da UFERSA

Danielle Araujo – Antropologia Social - UNILA

Dirce Zan – Educação - Unicamp

Doutor Rosinha – Ex-Deputado Federal

Eduardo Dimitrov – Sociologia da UNB

Eduardo Fagnani – Economista, Professor da UNICAMP

Felipe Braga Albuquerque – Direito da UNIFOR

Fernando Ferrari Filho – Economista UFRGS

Flavio Gaitan – Ciência Política - UNILA

Flavio Scavasin – Militante Político

Flavio Wolf Aguiar – Literatura da USP

Francisco Carlos Teixeira da Silva – Historiador UFRJ

Francisco César Pinto Fonseca – Ciências Sociais – FVG e PUC/SP

Gilberto Maringoni – Relações Internacionais - UFABC

Glaucia Campregher – Economista – UFRGS

Gledson Ribeiro de Oliveira – Sociólogo e Historiador - UNILAB

Hamilton Pereira (Pedro Tierra) – Poeta

Henrique Fontana Júnior – Deputado Federal PT/RS

Janio Pereira da Cunha – Direito UNIFOR

Jeferson Miola – Funcionário público e articulista político

Jefferson José Queler – História UFOP

João Feres Júnior – Ciências Sociais - Unicamp

Joaquim Ernesto Palhares – Advogado e Jornalista

Jonas Valente – Jornalista

Jorge Mattoso – Economista - Unicamp

José Luiz Del Roio – Militante Político

José Machado - Econmista

José Pascoal Vaz – Economista Universidade Católica de Santos

José Renato Vieira Martins – Sociologia UNILA

Juarez Rocha Guimarães – Ciência Política da UFMG

Julio Rique Neto – Psicologia da UFPB

Kissila Teixeira Mendes – Psicologia UFJF

Ladislau Dowbor – Economista PUC/SP

Laura Tavares Ribeiro Soares – Economia UFRJ

Laurindo Leal Filho – ECA/USP

Léa Maria Reis – Jornalista

Leda Maria Paulani – Economista USP

Leneide Duarte-Plon – Jornalista e escritora

Leonardo Ramos - Relações Internacionais PUC Minas Gerais

Liszt Vieira – Sociólogo e Advogado

Luciano Freitas Filho – Linguística UFBA

Luiz Gonzaga Mello Belluzzo – Economista Unicamp/Facamp

Magda Barros Biavaschi – Desembargadora Aposentada e Prof. da Unicamp

Marcio Pochmann – Economista Unicamp

Marco Cepik – Relações Internacionais da UFRGS

Maria Alice Vieira - Historiadora

Maria da Graça Bulhões – Sociologia UFRGS

Maria Inês Nassif – Jornalista

Maria Luiza Flores da Cunha Bierrenbach – Advogada

Maria Rita Bicalho Kehl – Psicanalista - USP

Maria Rita Garcia Loureiro Durand – Ciências Sociais – FGV/SP

Mariana Serafini – Jornalista

Mario Luiz Madureira – Advogado

Martonio Mont'Alverne Barreto Lima – Direito da UNIFOR

Miriam Goldfeder – Socióloga e Editora

Mojana Vargas – Relações Internacionais da UFPB

Newton de Menezes Albuquerque – Direito da UFC e UNIFOR

Nora Krawczyk – Educação Unicamp

Otaviano Helene – Física - USP

Pablo Schwartz Frydman – Letras Clássicas da USP

Paulo Kliass – Economista

Pedro Dimitrov – Médico Sanitarista

Pedro Paulo Zahluth Bastos – Economista Unicamp

Pedro Rossi – Economista Unicamp

Rafael Rossoto Ioris – História da América Latina - University of Denver

Ricardo Guterman – Sociólogo

Roberto Bueno Pinto – Filosofia UFPR

Roberto Leher – Faculdade de Educação - UFRJ

Roberto Requião – Advogado e ex-Senador da República

Roberto Vasques – Sociólogo

Rodrigo Vianna – Jornalista e Historiador

Rosa Maria Marques – Economista PUC/SP

Róber Iturriet Ávila – Economia e Relações Internacionais da UFGRS

Rubem Murilo Leão Rego – Ciências Sociais UNICAMP

Sandra Helena de Souza – Filosofia da UNIFOR

Sebastiao Velasco e Cruz – Ciência Política da Unicamp

Sergio Leite – Ciências Sociais da UFRRJ

Sergio Roberto Kapron – Economista UFSM

Silvia Zimmermann – Desenvolvimento Rural e Segurança Alimentar - UNILA

Tarso Fernando Herz Genro – Advogado, Ex-Ministro da Justiça

Tatiana Carlotti – Jornalista

Thiago Lima – Relações Internacionais da UFPB

Valéria M. Rufino - Psicologia da UFPB

Valton de Miranda Leitão – Médico Psiquiatra - UFRGS

Venício Artur de Lima – Professor Emérito da UnB

Vera Soares – Professora e feminista

Vicente Carlos Y Pia Trevas – Sociólogo

Virginia Fontes – Historiadora UFF e Fiocruz

Walquiria Gertrudes Domingues de Leão Rego – Socióloga – Unicamp

Zaneir Gonçalves Teixeira – Direito UFC

Termos relacionados Governo Bolsonaro, Internacional
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