A visita de Bush: mudança de retórica para disputar com Chávez

09 de março 2007 - 0:00
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A preocupação de Bush de se apresentar com uma retórica amena aos povos da América Latina foi tal, que chegou ao ponto de se apresentar como "filho de Bolívar". Bush agora fala de "justiça social", de uma "mensagem de esperança", de "mudança para os pobres". Mas os EUA vão gastar mais no Iraque só nesta semana do que com todos os programas anunciados para um ano na América Latina.



EUA vão gastar mais no Iraque nesta semana que nos programas anunciados para um ano na América Latina



Começa a visita de Bush à América Latina




David Brooks, La Jornada



O presidente George W. Bush começou a sua visita pela América Latina na quinta-feira, para "levar uma mensagem de esperança" à região, insistindo que a receita norte-americana pela liberdade, a justiça social e a prosperidade é melhor que a dos líderes da revolta contra o neoliberalismo.



Mas uma coisa curiosa ocorreu no percurso da visita. Bush e o seu governo - e não Hugo Chávez, Néstor Kirchner ou Evo Morales - tiveram de mudar de estratégia a agora vêem-se obrigados a competir para conquistar as mentes e os corações do hemisfério no terreno estabelecido pelos seus opositores.



Antes de sair de Washington, Bush e o seu governo evitaram mencionar Chávez pelo nome, e insistiram que esta viagem não tem nada a ver com ele, mas o discurso traiu-os: "justiça social", promover "a mudança para os pobres", satisfazer as necessidades básicas", o envio de educadores e médicos e, se ainda houvesse dúvidas, Bush ainda se declarou filho de Bolívar.



Esta nova preocupação com a "justiça social" aparentemente mudou o tom, ainda que não a substância, da política externa de Bush. "Obrigado ao senhor Chávez", foi o título de um editorial do New York Times, ao comentar a nova visão da Casa Branca sobre a pobreza da América Latina: "Se é necessária a demagogia do senhor Chávez para que Washington promova políticas mais lúcidas nas Américas, pois que assim seja." O editorial recordou que foi a preocupação pela influência de Fidel Castro nas Américas que inspirou as políticas pró-desenvolvimento da Aliança pelo Progresso do presidente John Kennedy, e sugeriu que Bush use esta viagem para iniciar uma nova versão desta política.



No entanto, apesar da retórica sobre como duplicou a ajuda dos EUA à América Latina durante a presidência de Bush, e o anúncio nesta semana de um pacote de iniciativas para oferecer apoio a programas de educação, saúde e habitação em diferentes países, alguns acham que a retórica é maior que a realidade.



"Nos seis dias da visita de Bush à América Latina, os Estados Unidos vão gastar mais dinheiro no Iraque que tudo o que Bush propôs (em ajuda) para a América Latina no ano fiscal de 2008", declarou Dan Restrepo, director do Projecto sobre as Américas do Center for American Progress (Centro para o Progresso Americano) em Washington.



A uma pergunta de La Jornada durante uma teleconferência sobre a visita de Bush, Restrepo considerou que o governo Bush cometeu o erro de "entender Chávez como uma ameaça regional, com uma visão rival, que tem de ser contida", já que essa atitude "exagera a influência real de Chávez".



Restrepo e outros analistas comentaram a tentativa de Bush de "assenhorear-se"do símbolo de Bolívar - o presidente disse esta semana que "somos filhos de Washington e de Bolívar" - e recordaram que Washington tentou o mesmo com José Martí há décadas por causa das relações com Cuba.



O objectivo da viagem, reiterou Bush numa entrevista à CNN, é "recordar às pessoas, através da nossa vizinhança, que os Estados Unidos se preocupam com eles, e levo uma mensagem de esperança, uma mensagem que diz que a condição humana nos preocupa..." Mas a sua equipa deixou claro que o objectivo é também promover a visão "democrática" de Washington para enfrentar "outra visão" que surgiu no hemisfério.



Thomas Shannon, subsecretário de Estado encarregado da América Latina, advertiu na semana passada que existe uma competição entre duas visões diferentes, a da promoção da "democracia e do livre mercado" vinculada com o livre comércio, e uma que procura regressar a um passado com maior centralização da economia e a governos mais autoritários. Reconheceu que a pugna entre estas duas visões - que se realiza dentro dos canais políticos e democráticos - é a expressão de "uma luta fundamental: como abordar a pobreza, a desigualdade e a exclusão social. Neste sentido, não deveremos subestimar a volatilidade criada pelo crescente ressentimento e amargura entre os sectores mais pobres e vulneráveis das Américas." Isso explica a mensagem de Bush pela "justiça social".



Mas ao pretender limitar a influência dos governos, em particular o da Venezuela, que rejeitaram a agenda do chamado "consenso de Washington", analistas como o economista Mark Weisbrot, codirector do Centro de Investigação Económica e de políticas em Washington, consideram que "a política da administração Bush de tentar isolar a Venezuela dos seus vizinhos conseguiu apenas isolar Washington."



Uma receita económica difícil de defender



Além disso, a receita económica de Bush, a mesma dos últimos 20 anos, não é fácil de defender. "O crescimento económico na América Latina durante os últimos 25 anos foi um desastre, o pior fracasso económico a largo prazo em mais de cem anos", afirma Weisbrot.



Shannon insistiu que esta viagem não gira em torno de uma competição entre Washington e Caracas pelo hemisfério. "Isto não é uma competição... porque o que estamos a tentar fazer com a nossa ajuda e apoio não é comprar favores ou criar relações de dependência, que é o que deseja fazer o presidente Chávez."



Depois de dizer que ainda que Washington estivesse disposta a dialogar com Chávez, o venezuelano preferiu - com a sua retórica - rejeitar um trabalho conjunto com o governo Bush, Shannon concluiu que "da forma que os países desejam trabalhar connosco, e cremos que são a maioria... estamos preparados (para fazê-lo). Mas se alguns países decidem que não querem trabalhar connosco, é a sua decisão também".



Mas alguns analistas estimam que o problema desta viagem é não só a mensagem, mas também o mensageiro. "Provavelmente nunca houve tanto sentimento anti-EUA e tão pouca confiança na liderança dos Estados Unidos desde a Guerra Fria" na região, disse Peter Hakim, presidente do Diálogo Interamericano ao New York Times.



9/3/2007

 

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