Receber ou praxar?

O jogo de semântica inerente à distinção entre praxes-que-são-praxes e praxes-que-não-são-praxes é tão inútil quanto revelador da incapacidade da praxe se auto-regular ou sequer olhar para dentro de si mesma.

09 de fevereiro 2014 - 1:22
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Quem assistir a debates sobre praxe verá praxistas a usarem os argumentos mais rebuscados para tentarem defender o indefensável. A praxe é boa porque ensina a submissão e isso é essencial para sobreviver no mundo moderno. A praxe é boa porque humilha e as pessoas têm o direito de ser humilhadas. A praxe é boa porque é em contextos de grande adversidade e de sofrimento pessoal que se fazem as melhores amizades. Mas nos últimos tempos houve um argumento que se sobrepôs a todos os outros: a praxe é boa porque tudo o que acontece de errado na praxe não é praxe.

O jogo de semântica é tão surreal que deixa qualquer pessoa confusa. Mas foi isso que o Secretário de Estado da Juventude disse sobre a tragédia do Meco: o que aconteceu não foi uma praxe. Foi isso também que praxistas disseram no programa “Prós e Contras” sobre as imagens mostradas pelo documentário “Praxis”: aquilo que vemos no filme não são praxes. Mas então o que são praxes afinal? A acreditar no que foi dito na televisão por praxistas, são serenatas, festas, eventos de caridade e atos de entreajuda entre colegas.

Com tanta confusão, o debate torna-se impossível. Como acho que é importante debater a praxe e não há debate onde há jogos de semântica, proponho então que distingamos entre duas categorias mutuamente exclusivas.

A primeira categoria é “receção”. Nesta categoria cabem todas as atividades que permitem que novas estudantes conheçam melhor a faculdade e a cidade, incluindo festas, tertúlias, concertos ou visitas guiadas. Infelizmente, estas atividades são raras. As Associações de Estudantes e Associações Académicas já há muito que se demitiram de organizar atividades de receção, tendo-as trocado pelas praxes. As direções das instituições de ensino superior seguem o mau exemplo e são incapazes de organizar qualquer tipo de atividades de receção. Com uma importante exceção: em algumas universidades, existem programas de voluntariado, apoiados logística e financeiramente pelas reitorias, através dos quais estudantes podem participar em atividades de receção de estudantes de Erasmus. Ter uma receção decente para novos alunos no ensino superior seria tão simples quanto estender estas atividades a todo o universo estudantil.

A segunda categoria é “praxe”. Nesta categoria cabem todas as atividades de submissão e rebaixamento dos novos alunos, como pôr-se de quatro, rastejar, simular poses sexuais, rebolar na lama ou andar na rua com fraldas na cabeça. Estas atividades, realizadas ao abrigo de instituições não eleitas e reguladas por códigos macabros inventados por líderes auto-proclamados, podem ser mais ou menos violentas, mais ou menos humilhantes, mais ou menos duras, mas são sempre atentatórias da dignidade humana. Não passam de atividades criminosas e, tal como acontece com todos os crimes, o consentimento (mais ou menos voluntário) das vítimas não atenua a gravidade do crime.

Todas as atividades de receção são de encorajar, todas as atividades de praxe são de repudiar. Creio que esta ideia é consensual, a avaliar pela forma como as pessoas assistem horrorizadas às praxes filmadas para o “Praxis”. Mas repudiar a violência da praxe não se confunde com dizer que não é praxe. O jogo de semântica inerente à distinção entre praxes-que-são-praxes e praxes-que-não-são-praxes é tão inútil quanto revelador da incapacidade da praxe se auto-regular ou sequer olhar para dentro de si mesma.

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