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Coimbra não é vossa

Para quem não está a ver como é a vida na cidade que viu nascer a tal de praxe, passo a narrar. Quinze dias do ano em particular, e muitas das terças e quintas em geral, as leis por aqui não são iguais para todos. Artigo de João José Cardoso, publicado no blogue Aventar.
Foto de Paulo Abrantes.

 

Para quem não está a ver como é a vida na cidade que viu nascer a tal de praxe, passo a  narrar. Quinze dias do ano em particular, e muitas das terças e quintas em geral, as leis por aqui não são iguais para todos.

Hordas de bêbados atravessam as ruas a qualquer hora da noite berrando, no intervalo de elas  em coro exigirem mais caralho que as foda e eles mais cona que os satisfaça, Coimbra é nossa. Todas as regras sobre ruído e manifestações públicas são mandadas às malvas com a cumplicidade amedrontada da PSP, Polícia Municipal e Ministério Público.

Este estado de excepção leva a que o sono dos indígenas e aqui emigrantes seja um direito perdido num território com  uma constituição à parte, a que podíamos acrescentar  a esterqueira em forma de vómitos e detritos vários que temos de suportar na manhã seguinte. Mas é considerado normal numa cidade onde por exemplo o saque e a vandalização não são perseguidos, um longo historial de burlas nas contas  das festas académicas não é investigado, um simples roubo no Museu Académico é narrado ao contrário.

Com toda a naturalidade está convocada uma manifestação para 2ª feira  pressionando um debate televisivo e podem ter a certeza que nem foi cumprida a lei nem será impedida, como sucederia se fosse de outro teor. Recentemente os dirigentes da AAC pura e simplesmente arrendaram o centro da cidade aos seus confrades portuenses que provocaram desacatos sem que se visse um só polícia nas ruas. No dia seguinte aos cortejos da Queima das Fitas bandos alcoolizados invadem as escolas secundárias, entrando nas salas de aula onde até podem estar miúdos de 12 anos, e nem se vê a Escola Segura de prevenção.

Se há tradição que Coimbra não perdeu foi a do foro académico, que tinha guarda (os arqueiros), legislação e prisão própria, só que agora funcionando em regime de completa impunidade.

Questionar isto leva sempre com a eterna resposta: Coimbra vive dos estudantes. Nem é verdade, vive sim da Universidade que é muito mais do que isso, nem isso foi necessariamente um benefício já que teve custos ao longo da História por exemplo no desinvestimento industrial (a cidade do saber era suposto não ter fábricas), e sem querer entrar na especulação do como teria sido se o rei João II não a tivesse trazido para a cidade do Mondego (precisamente porque em Lisboa eram muitas as queixas contra os estudantes e suas praxes), a sua localização geográfica privilegiada teria permitido outras alternativas. Convém recordar que aqui se fundou Portugal e houve o mais parecido com a primeira capital do reino.

Se aproveito o facto de finalmente as ditas praxes serem objecto de discussão nacional para denunciar isto? aproveito, sim senhor.

A tal tradição só o era realmente em Coimbra (e foi-se reinventado como muito bem explica o Rui Bebiano) e, proclamou o Dux* local, dela depois se fizeram “cópias mal feitas” pelo país fora, dando ideia de que a culpa foi da fotocopiadora.

Não é bem assim. Desde a década de 90 que progressivamente as fotocópias entraram em Coimbra e foram objecto de estudo pelos energúmenos locais como ele muito bem sabe: a prática erótica de depilar testículos não tem tradição conhecida, é apenas um exemplo que veio a público porque correu mal e, mais grave, ocorreu num julgamento, essa cerimónia secreta tão peculiar e de que tanto se ouve falar pela cidade, mas que anda envolta num pacto de silêncio.

Coimbra não é vossa. Há muito que o assunto praxe me desinteressou, não apanhei na faculdade mais que os trajes e o sossego nas bibliotecas por alturas da Queima. Pregavam-se algumas partidas aos novos alunos, com piada e sem qualquer humilhação, o facto de não me meter no assunto não impediu que só quando finalista tivesse conhecido os meus colegas de ano porque sempre acompanhei sobretudo com os mais velhos, achei sacanita esquecerem-se de mim para os jantares de curso porque não tinha ido no cortejo e recusara o meu nome no livro respectivo, mas paciência. Coimbra era de todos nesse tempo, em que a distância entre o futrica e o estudante era mínima e entre todos se brindava nas tascas, e em que o Pratas aprendia a fazer cervejão comigo e com o Mário da Costa.

Coimbra não é vossa. É do Manuel que se tem de levantar para que vocês almocem, da Emília que precisa de ir cedo para o mercado para que vocês jantem, do Francisco que tem de sair às 6 com o autocarro que vos vai levar à faculdade, da Fernanda médica que vos trata os comas alcoólicos,  e de quem souber viver connosco, que sempre vos soubemos receber sem pinturas, ordens, insultos e humilhações.

Coimbra não é vossa e está a ficar muito farta de vos aturar, sei do que falo porque antes de doutor fui e morrerei futrica, vi como lentamente aquilo que começou numa boa evoluiu para rituais violentos, repelentes, que envergonham os meus amigos envolvidos na restauração da praxe em 1979. Sim fui anti-praxista sempre com amigos praxistas, porque sempre nos entendemos mesmo discordando sobre o seu regresso, porque tínhamos e temos em comum o que mais vos falta: amar Coimbra, com os seus imensos defeitos mas humildemente sem espaço no coração para as suas pequenas virtudes, e sem precisarmos de o berrar aos outros, que o vinho serve para conversar, discutir, despertar ideias.

Coimbra pode voltar a ser vossa, isolem os canalhas, aprendam a respeitar primeiro os vossos colegas, e depois a todos nós. Vão ver que não dói nada.

* O João Luís Jesus anda nas bocas do mundo. Conheço-o desde a sua primeira ou segunda matrícula, era responsável técnico remunerado da RUC, nunca o vi sendo estudante como profissão, trabalhou em muitas coisas, dir-se-á que hoje é um empreendedor. Senhor de algumas lacunas na inteligência e outros excedentes na esperteza, sempre foi bom moço: pode ser conivente com práticas que destruíram a tal tradição, mas nem deve ter reparado nisso. Não façam dele bode expiatório, lá porque dá a cara, duvido muito que tenha ganho directamente grande coisa com isso.


Artigo publicado no blogue Aventar.

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Resto dossier

Praxes: humilhação e impunidade

O país despertou no último mês para a realidade das praxes do ensino superior, esses rituais de humilhação e violência psicológica que ganharam força nos últimos anos e hoje contaminam uma parte importante da vida universitária e do convívio entre estudantes.
Dossier organizado por Luís Branco.

Cronologia da violência das praxes

Com base nas notícias compiladas por coletivos antipraxe ao longo da última década e meia, lembramos aqui alguns dos casos denunciados por vítimas da praxe que chegaram à comunicação social.

“Não há boa praxe ou má praxe, praxe há só uma”

Bruno Moraes Cabral, realizador do documentário “Praxis” - premiado no Doclisboa 2011 e recentemente transmitido na RTP - diz ao esquerda.net que não faz sentido falar de “integração” quando todas as praxes se baseiam em valores de dominação “contrários ao que deviam ser os princípios da universidade”.

Se não agora, quando?

A primeira intervenção que fiz no Parlamento, no final de 2007, foi sobre a violência nas praxes. Seis anos depois, esse exercício de poder e a impunidade continuam a ser a regra, se não dentro, à porta das Universidades.

O que dizia o relatório parlamentar de 2008 sobre as praxes

Por iniciativa do Bloco de Esquerda, a Comissão de Educação e Ciência da Assembleia da República discutiu as praxes e recolheu contributos do meio académico. Mas as conclusões e propostas concretas nunca foram seguidas pelos governos.

Cinco mitos em torno das praxes

O historiador Rui Bebiano regressa a um tema que conhece bem para colocar em causa cinco mitos sobre as praxes: os da “tradição”, “simpatia popular”, “aceitação pelos caloiros”, “prestígio para as instituições” e “integração ou preparação para a vida”. Artigo publicado no blogue “A Terceira Noite”.

Debates sobre a Praxe: balanço dos Prós e Contras

O debate sobre a praxe que surgiu, como uma avalanche, nos media e redes sociais nas últimas semanas apresenta poucas novidades e corre sérios riscos de deixar tudo na mesma, apesar de, pela primeira vez, ter interpelado toda a sociedade e todos os responsáveis, das associações de estudantes ao Primeiro-ministro.

Duas memórias da praxe

A praxe está na berlinda e não é por ser uma versão sofisticada do jogo do berlinde. Para fazer “jogo abaixo”, recordo duas vivências nas duas faculdades por onde passei: o Instituto Superior Técnico e Letras de Lisboa.

A Volta da Praxe

Em meados da década de 1990, a praxe e a “tradição académica” já estavam disseminadas no ensino superior público e privado. Esta reportagem de Luísa Costa Gomes, publicada em 1996 na revista Grande Reportagem, parte dessa realidade para recuar aos últimos séculos da história das praxes em Portugal.

Coimbra não é vossa

Para quem não está a ver como é a vida na cidade que viu nascer a tal de praxe, passo a  narrar. Quinze dias do ano em particular, e muitas das terças e quintas em geral, as leis por aqui não são iguais para todos. Artigo de João José Cardoso, publicado no blogue Aventar.

A praxe coimbrã no fim da ditadura

Este artigo do historiador Miguel Cardina, publicado em 2008 na Revista Crítica de Ciências Sociais, relaciona os movimentos estudantis dos últimos anos da ditadura com as mutações então ocorridas no terreno da praxe académica em Coimbra.

O Manifesto Anti-Praxe de 2003

Em 2003, o Movimento Anti-Tradição Académica juntou-se ao coletivo Antípodas e à República das Marias do Loureiro para lançar um desafio a personalidades de dentro e fora do meio académico: juntarem-se pela primeira vez numa tomada de posição pública contra as praxes.

Receber ou praxar?

O jogo de semântica inerente à distinção entre praxes-que-são-praxes e praxes-que-não-são-praxes é tão inútil quanto revelador da incapacidade da praxe se auto-regular ou sequer olhar para dentro de si mesma.

A praxe é uma aventura

Música anti-praxe composta e interpretada pelo duo Azeitivinagre em 2010.

Praxistas defendem "direito à humilhação"

Praxistas defendem a humilhação como forma de integração na universidade e na vida activa, num debate na Aula Magna, em Lisboa, depois da projeção do filme "Praxis".