Para uma leitura marxista do fenómeno fascista

porDiogo Machado

Na historiografia liberal, o fascismo é visto quase como uma aberração histórica. Pelo contrário, o marxismo tende a situar o fascismo na história mais alargada do desenvolvimento do modo de produção capitalista, considerando que este último contém inerentemente em si as sementes para este tipo de soluções autoritárias.

14 de junho 2026 - 12:29
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livro de Karl Marx
Foto de Ismael Villafranco/Flickr

Na historiografia liberal, o fascismo é visto quase como uma aberração histórica, uma degenerescência caraterística de um período específico – o pós-I Guerra Mundial, crise dos valores da modernidade, crise económico-social, como diz Emilio Gentile, historiador do fascismo italiano –, logo normalmente irrepetível.

Pelo contrário, o marxismo tende a situar o fascismo na história mais alargada do desenvolvimento do modo de produção capitalista, considerando que este último contém inerentemente em si as sementes para este tipo de soluções autoritárias. Para o marxismo, num sentido lato, o fascismo é uma forma de impor a acumulação do capital de forma violenta, quando não é mais possível fazê-lo pela via do consenso, isto é, quando a ordem vigente atravessa uma «crise de hegemonia», nas palavras de Ugo Palheta. O capitalismo não é necessariamente democrático (e toda a democracia em capitalismo é sempre muito limitada); as classes dominantes não hesitarão em recorrer ao fascismo quando a sua acumulação está em causa.

Esta abordagem permite compreender o fascismo de uma forma sistémica, observando as tendências objetivas que o tornam possível, além de permitir que o conceito viaje no tempo. De facto, Fernando Rosas, à semelhança de outros historiadores do fascismo do nosso campo teórico, sublinha que, embora as diferenças entre a extrema-direita hoje e o fascismo do século XX sejam consideráveis, a primeira não se consegue compreender e explicar sem ter em conta o segundo, pois é sua herdeira histórica e partilha continuidades de ordem diversa que não se podem ignorar. É evidente que não são fenómenos iguais. Robert Paxton fala de «equivalentes funcionais». Enzo Traverso propõe o conceito de «pós-fascismo», enfatizando a distância temporal e localizando a extrema-direita hoje numa sequência histórica marcada tanto por continuidade, como por transformação.

Elementos de uma definição

O modo convencional de definir o fenómeno fascista é pelo levantamento exaustivo de características variadas das experiências do período entre guerras: dos pontos de vista organizativo, ideológico, cultural e institucional. Esta descrição pormenorizada do fenómeno histórico concreto é útil, mas falha em identificar o núcleo da ideologia fascista, que permite identificá-la e colocá-la em relação noutros momentos históricos e noutras geografias. Ugo Palheta propõe uma definição mais sucinta que tem este mérito:

«um movimento de massas que pretende operar a regeneração de uma “comunidade imaginada” considerada como orgânica (nação, raça ou civilização), e em decomposição ou desaparecimento. A regeneração passa pela purificação etno-racial, pela aniquilação de toda a forma de conflito social e contestação (política, sindical, religiosa, jornalística ou artística), ou dito de outra forma, de tudo o que possa colocar em perigo a unidade fantasmagórica dessa “comunidade imaginada”, em particular a presença visível de minorias étnico-raciais e o ativismo de movimentos de emancipação»

Esta definição mais mínima identifica com clareza, em linha com os desenvolvimentos do pensamento marxista sobre o fascismo a partir dos anos 70, o racismo como nuclear na ideologia fascista. Ou seja, o fascismo é sempre o projeto de salvação de uma nação dita em declínio pela purificação étnico-racial – se isto se manifesta em genocídios ou deportações em massa depende da experiência local e das condições de possibilidade do momento histórico. É esta ideia que une ideias aparentemente diferentes como o «Reich dos mil anos» e o «Make America Great Again», ou mesmo «Limpar Portugal».

Além disto, a definição de Palheta mostra que o fascismo procura a adesão das massas como meio para o seu objetivo último: a conquista do monopólio do poder político. Assim, contém em si uma pulsão integracionista ou corporativista, de supressão do pluralismo, de eliminação de todas as formas de dissensão e oposição, de subordinação de todas as esferas da sociedade ao poder político incontestado; que, poderíamos acrescentar à definição de Palheta, tem a missão de esmagar o movimento operário e concretizar os interesses históricos da alta burguesia.

Visões clássicas

Trótski foi, quiçá, o primeiro pensador marxista a teorizar sistematicamente o fascismo. Entende o seu ascenso na década de 20 como resultado simultaneamente de uma crise social do capitalismo, «ou seja, da incapacidade de prosseguir uma acumulação “natural” do capital», e da ameaça revolucionária na sequência da revolução de outubro, materializada na pujança do movimento operário e dos partidos comunistas nos principais países capitalistas.

Para Trótski, a democracia burguesa é a forma mais vantajosa de preservar a ordem do capital, por permitir uma participação limitada do proletariado e neutralizar alguns conflitos por via de reformas sociais, mas assenta num equilíbrio instável devido às suas contradições internas, pelo que, quando posto em causa, «apenas restará à grande burguesia uma saída: tentar, ao preço da renúncia ao exercício direto do poder político, estabelecer uma forma superior de centralização do poder executivo para a realização dos seus interesses históricos».

Para o conseguir, tem como objetivo desmobilizar o movimento operário, necessitando, além de um Estado autoritário e policial, de um movimento de massas composto por milícias paramilitares encarregadas de reprimir pela violência física sindicatos, partidos e outras organizações dos trabalhadores. Como explica Ted Grant mais tarde, este foi o papel histórico cumprido pelos “Camisas Negras” em Itália, que se dedicavam, por exemplo, a impedir greves, possibilitando o ascenso de Mussolini ao poder.

O fascismo encontra a sua base social na pequena burguesia e na classe média. Explica Trótski, nas palavras de Mandel, que «quando a pequena burguesia é atingida tão severamente pola crise estrutural do capitalismo de idade madura, ela afunde na desesperança (inflação, falência dos pequenos empresários, desemprego massivo dos diplomados, dos técnicos e dos empregados superiores, etc.), é quando, pelo menos em parte desta classe, surge um movimento tipicamente pequeno burguês, mistura de reminiscências ideológicas e de ressentimento psicológico, que combina um nacionalismo extremo e uma demagogia anticapitalista, violenta pelo menos em palavras, com uma profunda hostilidade para com o movimento operário organizado».

A vitória do fascismo só é possível pela derrota da classe operária organizada. É então que chegado ao poder, o movimento de massas se burocratiza, fundindo-se com o aparelho do Estado burguês. No poder, abandona os compromissos com a pequena burguesa e passa a servir o grande capital monopolista. É este o carácter de classe do fascismo, que pode ser compreendido como a mudança da forma estatal da dominação da burguesia: da democracia burguesa à ditadura declarada, com o objetivo de concretizar os interesses históricos desta classe.  Assim, o fascismo não é uma “terceira via” entre o capitalismo e o liberalismo, como os historiadores liberais costumam dizer; é, sim, o capitalismo no seu estado mais violento e autoritário.

Visões contemporâneas

Fernando Rosas situa o regresso do (pós-)fascismo na crise multímoda – económica, política, social, e de valores –, que é resultado da viragem neoliberal do capitalismo nos últimos 40 anos. A enorme ofensiva contra a classe trabalhadora, o desmantelamento do Estado Social e atomização da sociedade, ao mesmo tempo que floresce uma economia de privilégio e desigualdades brutais, pautada por enorme instabilidade e uma sucessão de crises económico-financeiras, criaram um cenário de policrise permanente e de ressentimento popular, afigurando-se um terreno fértil para a nova extrema-direita.

Esta crise é também de legitimidade dos próprios regimes demo-liberais. Segundo Traverso, o neoliberalismo acarretou um «momento impolítico» em que a política deixou de ser um combate de ideias ou um confronto de alternativas, e passou a ser uma matéria de gestão tecnocrática de recursos e de construção e carreiras, como tão bem encapsula a máxima de Thatcher «there is no alternative» (TINA). A rotatividade entre partidos do centro no governo nunca se refletiu numa mudança de políticas, incapazes de responder ao agravamento das condições de vida da grande maioria. O apagamento da possibilidade de alternativa e o esvaziamento da soberania popular geraram uma crise de confiança nas instituições das democracias liberais que foi o embrião para a extrema-direita.

Assim, Ugo Palheta argumenta que o novo fascismo do séc. XXI cresce então no contexto de uma crise de hegemonia das democracias liberais e na sequência de processos de fascização no seu seio, isto é, sucessivos governos dos partidos burgueses vão produzindo discurso e empreendendo políticas que normalizam ideias e partidos fascistas, seja pela normalização de discursos xenófobos, legitimação de atores da extrema-direita, ou por ataques ao mundo do trabalho.

O fascismo hoje, apesar das suas diferenças, procura cumprir o mesmo objetivo histórico do fascismo do séc. XX: aproveitar-se da crise social do capitalismo para centralizar o poder político, no que Rosas chama um «autoritarismo de novo tipo», em aliança com a alta burguesia para remover obstáculos democráticos à acumulação de capital. Alia-o a um programa extremamente racista para reprimir, violentar ou expulsar as franjas racializadas da classe trabalhadora como parte do seu projeto chauvinista de alegada regeneração nacional. A continuidade com o fascismo histórico no seu ADN genético e objetivos é evidente, embora haja mudanças qualitativas nas suas intensidades, retóricas e métodos.

Primeiro, em conformidade com a reformulação da ideologia da extrema-direita dos anos 60 da Nouvelle Droite francesa, renuncia formalmente à violência política e aceita o jogo eleitoral, procurando chegar ao poder não pela violência de grupos paramilitares, mas através de eleições. Isto não significa que o fascismo abandonou por completo a violência – aliás, a sua apologia é comum pelos bufões da extrema-direita e, uma vez no poder, aplica-a através do aparelho do Estado (veja-se o ICE nos EUA) –, mas antes uma mudança de tática para combater o estigma contra o fascismo no pós-II Guerra, na tentativa de o voltar a tornar palatável para as massas, como explica Fernando Rosas. A renúncia à violência política também se explica pela fragilidade do movimento operário organizado depois do colapso da União Soviética; isto é, ela já não é, de certa maneira, tão necessária.

Segundo, observa Traverso, o novo fascismo é marcadamente conservador, deixando para trás as ambições revolucionárias («Reich dos mil anos», «o Homem Novo») do fascismo do século XX. Abandona a sua dimensão utópica e as pretensões de revolução antropológica, pretendendo essencialmente restaurar um passado glorioso («Make America Great Again»). Chora, assim, o declínio da civilização ocidental, ameaçada pela «grande substituição» racial, e defende os «valores tradicionais»: a família, a heterossexualidade, a dominação masculina, a cultura nacional, ou os valores judaico-cristãos.

Terceiro, há uma evolução importante na modalidade do racismo empregue pela nova extrema-direita, que continua a ser o núcleo da sua proposta ideológica. O racismo com bases pseudo-biológicas evolui para um racismo cultural, ou xenofobia, em que não se diz mais que há seres humanos naturalmente superiores a outros, mas antes que há culturas melhores que outras, essencializando-as e argumentando que não se podem misturar. Traverso fala num «novo orientalismo», em que a islamofobia destitui a centralidade do antissemitismo. Ou seja, «uma visão dicotómica do mundo que opõe a civilização, o racionalismo, o progresso e a liberdade à barbárie, ao fanatismo e ao obscurantismo. (…) Abandonaram, sim, um discurso racialista e colonialista tradicional, que já não é aceitável neste século XXI, mas constroem uma discrepância cultural ontológica entre o Ocidente e o resto».

Quarto, altera-se a sua relação com o Estado e com as classes possidentes. O fascismo clássico nasce na época do New Deal, do intervencionismo estatal, tendo um carácter estatista a nível da política económica. Pelo contrário, o fascismo contemporâneo floresce no momento neoliberal, o que se reflete nos seus programas, aliando o seu tradicional autoritarismo à defesa de reformas ultraliberais (privatizações, desmantelamento da lei laboral, etc.). No poder, tendem a prosseguir e aprofundar este trajeto de política económica levado a cabo pelos tradicionais partidos burgueses, procurando, em simultâneo, eliminar a oposição e esvaziar as instituições democráticas. Muda também a sua relação com a alta burguesia, tendo agora muito menos reservas em apoiar a extrema-direita, que necessita da colaboração da primeira para chegar ao poder e para lá se manter. Como sublinha Traverso, esta capacidade de forjar vínculos orgânicos com a elite económica é nova, mas vem com um preço: o abandono do estatismo e da autonomia política. Como o caso da segunda administração Trump torna claro, há uma quase fusão entre o aparelho do Estado e as frações dominantes do capital para servir estas últimas, formando-se uma espécie de autoritarismo neoliberal em torno do princípio da autonomia do capital.

Quinto, muda a base social do fascismo, que alarga além da tradicional pequena burguesia e classes intermédias, conquistando partes importantes da classe trabalhadora, o que é uma inovação preocupante. Muitos estudos têm-se dedicado a compreender o voto na extrema-direita além de variáveis sociodemográficas, apontando para tendências de direitização do voto (passagem do centro-direita, que se fascitiza, para a extrema-direita), a sua relação com a desindustrialização, periferalidade e sentimento de abandono, assim como para a importância do racismo na construção de uma mundivisão assente numa «consciência social triangular», em que o inimigo é quem está abaixo de “nós”, numa dicotomia entre “produtores” e “parasitas”, normalmente em linhas raciais (minorias, pobres e beneficiários de apoios sociais.

Em todo o caso, estejamos seguros de que o fascismo, mesmo que aparentemente mais anódino, permanece o principal inimigo das organizações marxistas, sendo necessário estudá-lo e compreendê-lo em profundidade, em diálogo com a História e a experiência.


Este texto é um resumo da apresentação da sétima sessão dos ‘Ciclos Marxistas’ do Bloco Lisboa, subordinada ao tema «Fascismos». Esta iniciativa decorre de 3 em 3 semanas, procurando discutir temas da teoria marxista de forma informal, aberta e participada. Os textos em discussão foram excertos d’A Teoria do Fascismo segundo Trótski (Mandel, 1974), das Teses sobre o Fascismo ao Comintern (Dimitrov, 1935), e de uma entrevista ao Esquerda.net de Fernando Rosas acerca do seu livro sobre a nova extrema-direita (2024). A compilação dos excertos citados encontra-se disponível aqui.

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