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O “acordo” visto do interior do Syriza

Quando Alexis Tsipras regressou de Bruxelas com um acordo em que diz não acreditar e ter resultado da chantagem europeia, encontrou o partido dividido entre a estupefação e a revolta.
Foto Left.gr

A maioria dos membros do Comité Central do Syriza emitiu uma declaração a denunciar “o golpe de estado” em Bruxelas, com o objetivo de “infligir uma punição exemplar a um povo que imaginou outro caminho, diferente do modelo neoliberal de austeridade”.

“Estamos conscientes da asfixia das pressões que foram exercidas sobre a parte grega, mas consideramos por outro lado que a luta avançada dos trabalhadores aquando do referendo não autoriza o governo a renunciar sobre as pressões exercidas pelos credores”, acrescenta a declaração publicada no dia da votação do primeiro pacote de austeridade, que pedia uma reunião urgente do Comité Central.

Depois dos dois votos contra e oito abstenções na proposta que Atenas levou para Bruxelas, estava dado o mote para o início da rebelião dos deputados do Syriza. Na noite de 15 de julho, 32 deputados do Syriza votaram contra o pacote previsto no “acordo” de Bruxelas, entre os quais vários membros do governo, que seriam afastados na remodelação governamental do fim de semana seguinte. Algumas das principais secções do partido, como a do Pireu e Salónica, também se pronunciaram contra o acordo.

A manifestação contra o pacote de austeridade em frente ao parlamento também foi convocada pela juventude do Syriza. “A classe trabalhadora e a juventude deve responder a estas pressões, não podemos permitir que este acordo seja votado nem permitir que o governo seja derrubado, de forma a trazer o grande Não como a linha principal no dia seguinte”, diz o comunicado do setor juvenil do partido. Numa declaração posterior, a juventude do Syriza exigiu a convocação de um Congresso extraordinário do partido para os próximos meses.

Na reunião do grupo parlamentar antes da votação de dia 15, a corrente do Syriza liderada pelo agora ex-ministro da Energia Panagiotis Lafazanis, a Plataforma de Esquerda, apresentou a sua alternativa ao terceiro memorando. O documento propunha que o país optasse por desenvolver um plano de transição para a saída do euro, reorganizando o sistema bancário através da nacionalização, a rejeição de mais austeridade orçamental e o cancelamento da maior parte da dívida.

“Devemos sublinhar que a saída do euro não é um fim em si mesmo, mas o primeiro passo num processo de mudança social, de recuperação da soberania nacional e do progresso económico que junte crescimento e justiça social”, afirma o documento. “Perante o comportamento intransigente dos credores, cujo objetivo é a rendição total do governo do Syriza, sair do euro é a escolha policia e eticamente justa”, prossegue o documento.

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Resto dossier

A Europa da chantagem e o ultimato à Grécia

O acordo imposto em Bruxelas a Alexis Tsipras veio mostrar aos europeus que a democracia vale zero para quem toma decisões nos corredores do Eurogrupo. O povo grego vai continuar a pagar a permanência no euro com a receita recessiva prescrita pela Alemanha.

Dossier organizado por Luís Branco.

Democracia contra o colonialismo financeiro

Leia aqui a resolução aprovada na reunião da Mesa Nacional do Bloco de Esquerda a 26 de julho sobre as consequências da cimeira da zona euro e a solidariedade com a luta contra a ocupação financeira da Grécia.

Vozes da direita juntam-se às críticas a Bruxelas

Em Portugal, não foram apenas os partidos à esquerda do PS a insurgirem-se contra a chantagem de Bruxelas e Berlim ao povo grego. Ex-governantes e comentadores políticos nos antípodas destes partidos também criticaram a “humilhação” que os líderes políticos europeus procuraram infligir ao governo da esquerda grega.

Leia aqui o "acordo" de Bruxelas (anotado por Varoufakis)

O ex-ministro das Finanças grego decidiu dar a conhecer as suas notas pessoais sobre o texto que serviu de acordo em Bruxelas e no qual, poucos dias depois, já quase ninguém diz acreditar.

Discurso de Zoe Konstantopoulou a favor do NÃO ao acordo imposto pelos credores

A presidente do Parlamento grego e uma das figuras mais populares do Syriza votou contra os dois pacotes de medidas prévias à negociação do terceiro memorando. No discurso de 15 de julho, Zoe Konstantopoulou diz não ter dúvidas de que "Alexis Tsipras foi chantageado com a sobrevivência do seu povo".

O “acordo” visto do interior do Syriza

Quando Alexis Tsipras regressou de Bruxelas com um acordo em que diz não acreditar e ter resultado da chantagem europeia, encontrou o partido dividido entre a estupefação e a revolta.

Habermas: “Governo alemão assumiu-se como chefe disciplinador da Europa”

Nesta entrevista ao Guardian, o filósofo alemão Jürgen Habermas fala sobre o acordo imposto à Grécia, considerando-o “um ato de punição de um governo de esquerda”. E defende que as medidas exigidas são uma “mistura tóxica de reformas” que irão “matar qualquer ímpeto de crescimento” na Grécia.

Stiglitz: Acordo sobre Grécia é "punitivo e uma estupidez cega”

Segundo o ex economista chefe do Banco Mundial e prémio Nobel da Economia, a Alemanha “não tem nenhum bom senso económico e nenhuma solidariedade”. Joseph Stiglitz  defendeu uma transformação radical da arquitectura financeira mundial. 

Vicenç Navarro: “Europa como ponto de referência mundial desapareceu”

“A Europa ponto de referência mundial para aqueles que desejam viver em países democráticos e justos desapareceu”, defende o sociólogo e politólogo espanhol. No seu artigo, Navarro denuncia a enorme manipulação dos media espanhóis e alemães no que respeita à chantagem e ao ultimato a que foi sujeita a Grécia.

Mélenchon: “Um acordo forçado que não devemos apoiar”

“O Governo de Alexis Tsipras resistiu de pé como nenhum outro na Europa. Devemos-lhe solidariedade”, contudo, “nada nos pode obrigar a participar na violência que lhe estão a infligir”, destacou Jean Luc Mélenchon poucos dias após a cimeira de Bruxelas.

O “plano Grexit” da Alemanha

O plano de Wolfgang Schäuble de expulsão da Grécia do euro, dado a conhecer na reunião do Eurogrupo de 11 de julho, impõe que o país entregue bens no valor de 50 mil milhões a um fundo para abater a dívida, sob a ameaça de mandar a Grécia para um “intervalo da zona euro” pelo menos até 2021. Aparentemente tem a cobertura de Angela Merkel e do vice-chanceler Sigmar Gabriel, líder do SPD.

Tsipras: “Ameaça de Grexit só acaba com a assinatura do programa”

No dia seguinte à assinatura do acordo, o primeiro-ministro grego recusou o cenário de eleições antecipadas, afirmando que assinou um acordo em que não acredita para evitar o desastre inscrito no plano dos “conservadores extremistas europeus”. Até à assinatura final do programa nenhum cenário está fechado, avisa.

Varoufakis abre o livro: “Você até tem razão, mas vamos esmagar-vos à mesma”

Na primeira entrevista após deixar o Ministério das Finanças, Varoufakis revela que defendeu a emissão de moeda alternativa como resposta à asfixia dos bancos, fala da “completa falta de escrúpulos democráticos por parte dos supostos defensores da democracia na Europa” e acusa os governos de Portugal e Espanha se serem “os mais enérgicos inimigos do nosso governo”.