Está aqui

A falsa fachada da Alemanha

A Alemanha apresenta-se a si mesma e ao resto de Europa como um país sem crise mas nos últimos anos os níveis de desigualdade dispararam. Por Rafael Poch de Feliu
Distribuição de comida a cidadãos pobres em Munique

A Alemanha que se vende como modelo para a Europa é um falhanço. Nos últimos 25 anos o país tem sofrido uma manifesta degradação em quase tudo o que importa à cidadania. Passou de um país relativamente equilibrado, para o contexto europeu, a campeão da desigualdade.

Os 1% mais ricos detêm 23% da riqueza, os 10% mais ricos 53% e à metade mais pobre da sociedade só 1%, há dez anos eram 3%.

A Alemanha, que se apresenta como modelo, viveu um recuo sócio laboral sem precedentes desde o pós guerra, com a generalização da precariedade, a queda registada na última década, em dois anos, da esperança de vida para os mais pobres e uma das taxas de natalidade mais baixas do mundo. A maioria dos alemães viu-se prejudicada com esta mudança, que só a deturpação estrutural dos meios de comunicação social consegue fazer passar por “modelo”.

Esse recuo faz parte de um processo mundial que se iniciou no final dos anos ‘60 nos EUA e se aplicou depois com Thatcher no Reino Unido, saltando mais tarde para toda a Europa com governos conservadores ou social-democratas. O choque da atual crise está a ser utilizado para dar um impulso definitivo a esta grande desigualdade social entre países, que caracteriza o sistema, cujos excessos e ideologia geraram a crise.

O relativo “sucesso” alemão na crise mede-se pelos indicadores de desemprego e de recessão menores que na maioria dos países da Europa, e sustenta-se exclusivamente nas exportações.

A Alemanha gera metade do seu PIB através das exportações, graças ao euro combinado com uma estratégia de salários baixos que prejudica os parceiros europeus. Não há na Europa uma economia mais exposta aos efeitos de um arrefecimento da conjuntura global como a alemã. O modelo alemão de relativa boa saúde na crise, não é que não seja aplicável a outros países, mas só foi possível à custa da deterioração da saúde dos seus parceiros.

O extraordinário superávit comercial que a Alemanha conseguiu nos últimos anos foi colocado nos mais aventureiros e imorais negócios financeiros de países como os EUA, Irlanda ou Espanha. Só entre 2005 e 2008, a banca alemã concedeu a instituições espanholas créditos e investimentos no valor de 320.000 milhões, grande parte para alimentar a criminosa bolha imobiliária pós franquista. Os resgates de países são resgates de dívidas de bancos internacionais.  90% do dinheiro entregue “à Grécia” tem sido destinado a bancos, sobretudo estrangeiros.

A Alemanha é hoje o principal exportador do recuo sócio laboral para o resto da zona euro em nome da austeridade, que gera mais desemprego e mais dívida. É uma política desenhada para que o setor financeiro cubra integralmente os seus maus negócios à custa das classes médias e baixas europeias. Ainda que os cortes sejam os mesmos, os corpos sobre os quais se aplicam – a dimensão dos Estados sociais e os seus níveis de universalidade – são bem mais vulneráveis e os ritmos temporários bem mais acelerados.

O diktat dos bancos

Esta política impõe-se com métodos opacos e autoritários que mantêm em segredo a identidade dos bancos e instituições endividadas e que arrasam com a soberania.

O resultado desta política é necessariamente desintegradora do projeto europeu, cuja única bondade histórica – ser alternativa à crónica guerra entre nações europeias dos últimos séculos – está a transformar-se numa aliança de pequenas nações imperiais para poderem continuar com o seu imperialismo e militarismo na luta pelos recursos globais do século XXI.

Esta política é duplamente desintegradora. Para a Europa, porque as nações e os povos da Europa não querem fazer parte de um clube sobre tais premissas. Para o mundo, porque os reptos do século XXI – a crise da civilização crematística – são incompatíveis com a velha metodologia imperialista. A oposição às veleidades dominantes da Alemanha – condenadas ao falhanço – não é um assunto de luta entre nações, mas um aspeto do longo combate social europeu entre reação e progresso que interessa a todas as cidadanias, incluída, por suposto, a cidadania alemã. A história social europeia escreveu-se sempre assim.


Rafael Poch de Feliu é correspondente do L 'A Vanguardia' na Alemanha.

Artigo originalmente publicado no jornal DiagonalPeriódico.net

(...)

Resto dossier

Alemanha, o país das maravilhas?

Uma brutal desigualdade social entre ricos e pobres, um regime de produção que banalizou a precariedade e a desvalorização salarial, são os rostos obscuros de uma economia que é tida como exemplar. Apesar da política conservadora receber o apoio de muitos na Alemanha, há várias vozes ativas que contra ela se levantam. Dossier organizado por Fabian Figueiredo

O "modelo Alemanha": da sua instrumentalização política à realidade

O "modelo Alemanha" festeja neste momento a sua ressureição. Mas não "o capitalismo do Reno"que significava, na altura:"Estado providência", "relações industriais equilibradas" e uma densa rede entre bancos e empresas. Com a aparição do capitalismo dito financeiro, este modelo não é senão um vestígio de história. Hoje em dia, quando falamos do "modelo Alemanha", é ao mercado de trabalho que nos referimos. Por Richard Detje

As especificidades do capitalismo alemão

Já na era fordista, o capitalismo alemão caracterizava-se por uma forma de desenvolvimento fortemente orientado para a exportação. Mas ao contrário de outros países orientados para a exportação, como a Itália, a indústria de exportação alemã nunca teve de se refugiar na desvalorização da moeda nacional, para defender a sua capacidade competitiva. Por Thomas Sablowski

O governo alemão não faz o que prega

Os sucessivos governos alemães, tanto os presididos pelo chanceler Schröder como as coligações governadas pela Sra. Merkel, não seguiram as políticas de austeridade que estão a impor ao resto dos países da zona euro e muito em particular aos do Sul.

Os alemães têm razão para estarem aborrecidos acerca da “mentira da pobreza”, mas enganaram-se no alvo

A descoberta de que a riqueza líquida dos alemães é menor do que a do Sul tem mais a ver com salários baixos do que com riquezas imaginárias.Por Costas Lapavitzas

A falsa fachada da Alemanha

A Alemanha apresenta-se a si mesma e ao resto de Europa como um país sem crise mas nos últimos anos os níveis de desigualdade dispararam. Por Rafael Poch de Feliu

A política de Merkel: uma catástrofe para a Europa mas também para a Alemanha

É redutor dizer que a política de Angela Merkel persegue os interesses alemães. Isto só é verdade se considerarmos apenas os interesses dos ricos, dos bancos alemães e da indústria alemã. Esta política não tem no seu interesse as pessoas. Por Heinz Bierbaum

Como anda a Alemanha?

Que a chanceler alemã Angela Merkel e o seu ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble, são dos políticos mais odiados em Portugal e na Grécia (...) Mas qual é a razão para que Angela Merkel e o seu partido democrata-cristão CDU/CSU estejam com resultados positivos em todas as sondagens? Por Hans Gerd-Öfinger

A questão não é o euro, mas sim os europeus

Ao invés de políticas de austeridade, precisamos de um programa de investimento europeu para o desenvolvimento de infraestruturas públicas, serviços públicos, para a prevenção e para reestruturação sócio-ecológica. Por Bernd Riexinger, presidente do Die Linke.

Conclusões sobre o debate europeu do Die Linke: "Agir de forma solidária na Europa"

As políticas de contenção da troika (FMI,UE e BCE) levaram ao colapso dos sistemas públicos de pensões. A par disso, com os obrigatórios programas de privatizações, temos hoje Estados que se desmantelam a si próprios. O estado dos Estados piorou. Não dá para continuar assim.

Alemães também participam na manif europeia de 1 de junho

Coligação de ativismos convoca manifestação em Frankfurt, a sede do Banco Central Europeu, apelando à solidariedade e à resistência no coração do “regime europeu de crise”.