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Divagações sobre Swaps

A palavra invadiu-nos de repente o quotidiano, abriu os serviços noticiosos, demitiu secretários de Estado, abriu suspeitas várias. Artigo de Diana Andringa, jornalista.
Imagem de WillSpaetzel/Flickr

Talvez que o facto de ser dita em inglês – swaps – acrescentasse à dificuldade. Afinal, poder-se-ia dizer, em português, “permuta” – mas não será que, por trás da expressão “contratos swap”, há mais do que na versão “contrato permuta”?

O cidadão comum não sabe. Pagas a casa – renda ou empréstimo – a eletricidade, a água, a prestação do carro, retiradas as verbas para comida, transportes, farmácia, não lhe sobejam euros para investir, sequer para poupar. Permuta ou swap, os contratos que enchem os noticiários são-lhe tão alheios como a possibilidade de teleportação ou a exploração do espaço sideral.

O cidadão comum não sabe. Espera, por isso, que os jornalistas lhe expliquem. Que traduzam a palavra, e o jogo por trás dela, e o seu significado em termos da vida corrente de todos os cidadãos que compõem o Estado.

E os jornalistas tentam. Mas são também cidadãos comuns, as escolas de Comunicação onde estudaram ensinaram-lhes muitas coisas, mas esqueceram-se de abordar os contratos swap. E, como os outros cidadãos, confrontados com a precariedade, os baixos salários, o desemprego, nunca pensaram que aquela publicidade bancária a propor-lhes a troca de uma taxa variável para o empréstimo à habitação por uma taxa fixa fosse um contrato swap. Por isso têm também dificuldade em explicar, num português claro, aquilo que lhes chega na linguagem anglófila dos economistas.

Mas nem todos os jornalistas vêm de escolas de Comunicação. Se toda a sociedade se financeirizou, também as empresas de Comunicação Social apostam agora em jornalistas saídos das escolas de Economia e Gestão. Esses devem ser, então, capazes de explicar... o quê? “Swaps? Bom, é isso, são contratos swap!” Como querem que percam o tempo que não lhes é dado a explicar algo para que já há uma palavra, aceite em toda a comunidade que de facto lida com eles? Tomara terem tempo para cultivar fontes, pesquisar, ler os documentos que lhes chegam às mãos. Traduzir de forma compreensível? Não há tempo. “Aquele que tiver ouvidos para ouvir, oiça.”

Aliás, até é melhor que sejam poucos a perceber. Quando começam a perceber, fazem perguntas, Muitas perguntas. Muitas dúvidas. Não compreendem a beleza das operações financeiras. Querem ter segurança, quando a beleza está no risco, quando é saber arriscar bem que garante o êxito e a fama – e a carreira, e o salário, e a instituição internacional – a quem os faz. Querem taxá-las, como se se pudesse comparar uma grande operação financeira à compra de um pacote de leite, ou de bolachas, numa mercearia de esquina... Pobres ignaros!

Não vale a pena, no entanto, matar o mensageiro. Não foram os jornalistas quem criou esta sociedade de ocultação, em que muito se disfarça sob o manto diáfano da incompreensão: “Pobre povo, tem dificuldade em compreender que é diminuindo-lhe o salário e aumentando os impostos que o tornamos mais rico.” Então, como nas antigas famílias, em que os pais falavam francês para não serem compreendidos pelos filhos, apela-se ao economês, às palavras estrangeiras.

E os jornalistas? Sim, cabe-lhes traduzir. Mas vigiados, de rédea bem curta. Ou, se preferirem, com pouco tempo e poucos caracteres (“o público gosta de ver infografias”). Não ouvimos tantas vezes dizer que “tradutor”, “traidor”? E se, precários, mal pagos, forçados a um ritmo que não admite pesquisa nem crítica, ainda assim se lembram de trair o discurso dominante?

Ná! “Há que impedi-los de comentar. Para isso, temos os nossos próprios especialistas.” “Um pouco monocórdicos, talvez?” “Mas a diversidade ia confundir o povo.” “Noticiar?” “Pois, lá terá de ser. Mas com palavras escolhidas por nós. Sem lhes dar tempo de procurarem outras.”

“E se, ainda assim?” “Trocam a ousadia pelo desemprego. É apenas mais um processo swap.”

Artigo de Diana Andringa, jornalista.

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Resto dossier

O escândalo dos swaps

Os contratos swap das empresas públicas tornaram-se um escândalo e constituem uma fatura pesada a pagar pelo Estado, ou seja por todos os contribuintes. O assunto levanta muitas interrogações sobre o seu exato significado, a boa gestão pública e a relação entre Estado e banca. Neste dossier diversos especialistas analisam e opinam sobre o tema.

“A banca tem interesse na opacidade dos swaps”

Em entrevista ao esquerda.net, a economista Eugénia Pires aborda o papel da banca neste escândalo, ao mesmo tempo que clarifica alguns conceitos, tal como o papel dos gestores públicos. Neste artigo pode ler a primeira parte da entrevista.

“Os swaps especulativos são equiparados a contratos de jogo e de aposta”

Em entrevista ao esquerda.net, a economista Eugénia Pires aborda o papel da banca neste escândalo, ao mesmo tempo que clarifica alguns conceitos, tal como o papel dos gestores públicos. Nesta segunda parte da entrevista, Eugénia Pires salienta: “Todos os swaps, mesmo os mais simples – os plain vanilla, têm o potencial de gerar perdas e, por isso, de se tornarem ruinosos, tóxicos, se não respeitarem determinadas regras básicas”.

“Swaps serviram para obter ganhos extraordinários”

O economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas, Nuno Teles, explica - em dois vídeos - o desvario dos gestores públicos, o papel da banca e os riscos para a dívida pública inerentes da contratação de swaps. A circulação de uma elite entre o Estado e os bancos é central, salienta o economista na entrevista ao Esquerda.net.

Swaps: “A ligação entre bancos e Governo deve ser aprofundada”

O Governo decidiu pagar mais de mil milhões de euros aos bancos pelos swaps, apenas para não prejudicar as relações com o sistema financeiro. A economista Sara Rocha, que desenvolveu uma investigação sobre o tema para o Le Monde diplomatique - edição portuguesa, fala ao esquerda.net sobre esta permanente posição de subordinação perante a banca. Veja vídeo

Swaps: "Governo fez secretária de Estado juíza em causa própria"

Ana Drago defendeu no parlamento que a entrega do processo dos swaps a Maria Luís Albuquerque, que assinou vários dos contratos ruinosos, "é o mesmo que entregar o julgamento a um dos arguidos". Veja o vídeo de declaração política no parlamento em 18 de junho de 2013

Fica claro para quem governam PSD e CDS

Ana Drago participou na Comissão Parlamentar de Inquérito dos Swaps, como deputada do Bloco de Esquerda. Neste texto descreve os principais acontecimentos e as conclusões políticas essenciais.

Combater a corrupção pela esquerda

As semelhanças entre os casos das PPP e dos swaps não passam apenas pela existência de atos e decisões individuais censuráveis: ambos exemplificam a corrupção sistémica que decorre da “nova gestão pública” segundo lógicas de mercado. Artigo de Alexandre Abreu, economista e coautor do blogue Ladrões de Bicicletas

Jogo de espelhos: Swaps e opacidade no sector empresarial do Estado

A destruição de documentos fundamentais para a compreensão de um processo de contratualização com perdas potenciais contabilizadas em 3300 milhões de euros (com a garantia de que esse valor só pode ser reavaliado em alta) redefine os termos da discussão. Por Luís Bernardo

Swaps: a compra de lotaria como técnica de gestão financeira

O que o caso dos swaps mostra são as empresas públicas e o Estado como uma gigantesca coutada privada onde os grandes bancos entram e saem a seu bel-prazer. Artigo de José Vítor Malheiros, jornalista e colunista do Público.

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A palavra invadiu-nos de repente o quotidiano, abriu os serviços noticiosos, demitiu secretários de Estado, abriu suspeitas várias. Artigo de Diana Andringa, jornalista.

Quanto ganharam os bancos com os swaps?

Os swaps têm-se revelado um ótimo negócio para os bancos. São mesmo as únicas instituições que têm lucrado com o descalabro das empresas públicas, com a falta de regulação e com a incompetência dos gestores públicos e dos sucessivos Governos.

Falso ou Falso? A verdade vs as citações da ministra

O processo dos swaps tem sido marcado pelas mentiras da Ministra das Finanças. Desde o início do processo, Maria Luís Albuquerque tem constantemente tentado enganar os portugueses com informações incorretas.

Os swaps desaparecidos

O processo de análise da contratação de swaps por empresas públicas e posterior renegociação junta da banca está envolto num manto de opacidade.

Qual a verdadeira fatura dos swaps?

Para já, a decisão de pagar aos bancos custou 1.037 milhões de euros mais o acréscimo de juros a pagar pela dívida pública. E ainda faltam fechar dezenas de swaps…

Fotogaleria: Quem é quem nos swaps?

Nesta fotogaleria, mostramos as caras dos principais responsáveis políticos e administrativos pela assinatura dos contratos swap na última década.