Como impedir o declínio, por Joseph Stiglitz

24 de janeiro 2008 - 0:00
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A economia americana encaminha-se para um importante arrefecimento. Se é uma recessão (dois quadrimestres de crescimento negativo) é menos importante do que o facto de a economia ir funcionar muito abaixo do seu potencial, e o desemprego ir crescer. O país precisa de estímulos, mas tudo o que fizermos vai aumentar o nosso altíssimo défice, por isso é importante o máximo de valor possível por cada medida. O pacote óptimo conteria uma medida de efeito rápido, junto com outras que poderiam levar a mais gastos se - e apenas se - a economia entrar num arrefecimento profundo.



Por JOSEPH E. STIGLITZ



Devíamos começar por reforçar o sistema de seguro-desemprego, porque o dinheiro recebido pelos desempregados será gasto imediatamente.



O governo federal deveria também dar alguma assistência aos estados e aos municípios, que já estão a sentir o aperto, à medida em que caem os valores das propriedades. Normalmente, reagem com cortes nos gastos, o que provoca uma desestabilização automática. A assistência federal deveria vir na forma de apoios à reconstrução das infra-estruturas mais importantes.



Mais apoio federal para os orçamentos de educação dos estados também reforçaria a economia no curto prazo e promoveria o crescimento no longo prazo. O mesmo acontece com os gastos na promoção da conservação de energia e da redução de emissões [de carbono]. Pode demorar algum tempo para pôr de pé estes programas, mas este arrefecimento parece que vai demorar mais do que outras quedas recentes. Os preços das casas têm um longo caminho de queda até regressarem a níveis mais normais, e se os americanos começarem a poupar mais do que antes, o consumo pode permanecer baixo por algum tempo. A administração Bush há muito que acha que os cortes de impostos (especialmente cortes permanentes de impostos para os ricos) são a solução de todos os problemas. Isto é um erro. As reduções de impostos perpetuam em geral o consumo excessivo que tem marcado a economia americana. Mas os americanos de médio - e baixo - rendimento têm sofrido nos últimos sete anos - as famílias de médio rendimento estão pior hoje do que em 2000. Faz sentido uma redução de impostos dirigida aos lares de baixo - e médio - rendimento, especialmente porque teria um efeito muito rápido.



Alguma coisa devia ser feita em relação às execuções das hipotecas, e estimularia a economia uma legislação apropriada que permitisse que as vítimas de empréstimos predatórios pudessem ficar nas suas casas. Mas não devíamos gastar demasiado com isto. Se o fizermos, acabaremos por safar os investidores, e não são eles que precisam da ajuda dos contribuintes.



Em 2001, a administração Bush usou a ameaça da recessão como desculpa para reduzir os impostos dos americanos de mais altos rendimentos - o mesmo grupo que se deu tão bem no último quarto de século. Os cortes não tinham a intenção de estimular a economia, e fizeram-no apenas de forma limitada. Para manter a economia andando, a Reserva Federal foi forçada a baixar as taxas de juros a um nível sem precedentes e depois olhar para o outro lado quando a América se envolveu em empréstimos irresponsáveis. A economia estava sustentada em dinheiro emprestado e tempo emprestado.



Chegou o dia do ajuste de contas. Desta vez precisamos de estímulos que estimulem. A questão é saber se o presidente e o Congresso vão pôr a política de lado e deitar mãos à obra.



Joseph E. Stiglitz é professor de economia na Universidade de Columbia e autor, mais recentemente, de "Making Globalization Work". Recebeu o Prémio Nobel da Economia em 2001. Publicado originalmente no The New York Times , em 23/1/2008



Tradução de Luis Leiria

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