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Anatomia de uma Euro-trapalhada

O centro da crise, em termos económicos, é a Espanha, e não resultam de qualquer irresponsabilidade fiscal. Tais problemas são o resultado de “choques assimétricos” dentro da Zona Euro. A Europa está irremediavelmente condenada à sua criatura e deve alcançar o quanto antes a integração dos mercados de trabalho e dos sistemas fiscais que o torne viável.

Uma parte significativa da cobertura jornalística dos problemas económicos e financeiros na Zona Euro tem privilegiado a Grécia. O que é compreensível: é o país da Zona Euro que enfrenta o desafio mais sério. Mas a economia grega tem uma dimensão modesta. O centro da crise, em termos económicos, é a Espanha, que tem uma economia muito maior. Conforme tenho tentado explicar em alguns posts, os problemas da Espanha não resultam de qualquer irresponsabilidade fiscal. Em vez disso, e ao contrário daquilo que poderão ter lido, tais problemas são o resultado de “choques assimétricos” dentro da Zona Euro; choques estes que são sobejamente conhecidos e que se revelaram mais graves do que o esperado pelos eurocépticos.

Percebi então que seria útil esboçar as razões pelas quais a Espanha se encontra nesta situação (todos os dados aqui constantes provêm do boletim económico do Fundo Monetário Internacional, World Economic Outlook Database). Tornou-se clássica uma espécie de simplicidade acerca desta questão – é quase um exemplo escolar –, mas, infelizmente, há milhões de pessoas a sofrer as consequências. A história começa com uma bolha especulativa no sector imobiliário espanhol. Neste país, à semelhança de outros, tal como o nosso, o preço dos imóveis disparou a partir do ano 2000, o que originou afluxos de capital volumosos. No contexto europeu, a conta-corrente da Alemanha alcançou um superavit, enquanto a Espanha e outros países periféricos mergulhavam num deficit:

Estes afluxos de capital volumosos criaram um problema clássico de transferência: provocaram o aumento da procura de bens e de serviços espanhóis e um crescimento da inflação mais elevado neste país do que nos países com superavit, como a Alemanha. Segue uma comparação dos deflatores do PIB (de notar que ambos os países pertencem à Zona Euro, portanto a divergência reflecte o aumento dos preços relativos em Espanha):

Mas quando a bolha rebentou, a procura doméstica em Espanha foi substancialmente reduzida, tornando-se pouco competitiva dentro da Zona Euro devido ao aumento dos preços e do custo do trabalho. Se a Espanha tivesse a sua própria moeda, esta poderia valorizar-se durante o crescimento vertiginoso do sector imobiliário e perder valor quando tal crescimento cessasse. Mas perante a impossibilidade de possuir divisa própria, a Espanha afigura-se condenada a sofrer anos de deflação dolorosa e de taxas de desemprego elevadas.

Onde param os deficits orçamentais no meio de tudo isto? A situação orçamental espanhola era risonha durante os anos de crescimento, agora apresenta deficits gigantescos. Mas estes deficits são uma consequência e não a causa da crise: a receita fiscal afundou-se e o governo gastou algum dinheiro a remediar o desemprego. Eis o panorama:

Impõe-se a pergunta: quem são os responsáveis por esta situação? Ninguém, poderá dizer-se. Poderemos dizer também, a partir de outra perspectiva, que a elite política europeia é a responsável: fez pressão para que se avançasse para a moeda única, rejeitou os alertas que apontavam para a possibilidade de ocorrer este género de problemas (embora, conforme disse, mesmos os eurocépticos não calcularam a sua gravidade).

Apelo, então, ao fim do Euro. Não; os custos de desfazer a coisa seriam elevados e extremamente nefastos. A Europa, na minha opinião, está irremediavelmente condenada à sua criatura e deve alcançar o quanto antes a integração dos mercados de trabalho e dos sistemas fiscais que o torne viável. Mas que trapalhada.

Tradução de Pedro Silva Sena

Sobre o/a autor(a)

Economista
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