Diz-se frequentemente que está na natureza das camadas juvenis ser-se revolucionário.
Considero que não existe uma natureza na comunidade jovem, nem em qualquer outra comunidade ou grupo etário. Existe um contexto cultural, social e familiar.
Existe uma história e um contexto histórico, marcados por variáveis económicas, políticas, ideológicas que em determinados momentos colocam as pessoas no limite da sua existência Individual e da sua experiência colectiva. É aí, por norma, que as mudanças surgem ou as transformações sociais, mesmo que sejam pequenas, acontecem. Quando confrontadas com essas limitações ou com algumas contingências.
Um dos aspectos mais notados do mundo pós-moderno é a ausência da memória, ou melhor, de uma memória representada ou que se represente per si como modo de fazer história, individual ou colectiva. A secundarização da memória (pre) dispõe, em determinados campos, uma vontade ou uma imposição frequentes ao longo do tempo de um conjunto de memórias construídas ou imaginadas que não se questionam no mundo contemporâneo. Sem contemplar outros detentores dessas vivências ou, simplesmente, sem procurar entender o porquê do seu esvaecimento ou da selecção que dela é feita neste tempo.
As cerca de 18 horas de entrevistas dirigidas que hoje servem a minha investigação académica, recentemente publicadas num audiolivro, com a chancela da Editora Caleidoscópio - RAPublicar. A micro-história que fez história numa Lisboa adiada (1986 - 1996) -, tiveram como principal missão devolver essa memória pouco interpretada, demasiadas vezes sistematizada, e as questões que ela levantou, primeiro na cidade de Lisboa e depois um pouco por todo o país, de um modo claro ao panorama da sociedade e da cultura populares da segunda metade do século XX, numa linguagem apreensível para todos (as).
Este trabalho dará mote à comunicação que farei no âmbito do Fórum Socialismo 2017, com o título “Abram Espaço que elas estão a chegar, as mulheres no RAP: afirmação e resistência (1990 -1997)”.
Nesta fala procurarei demostrar como a temática do RAP apresentou pouco depois das suas primeiras aparições, uma grande heterogeneidade de tipologias musicais e de recursos musicais que se afirmou com a criação dos seus próprios estilos diferenciados neste domínio, ao mesmo tempo que prevaleceu, nestes anos e acerca destes primeiros anos, a narrativa, em torno do RAP, como um campo de produção cultural marcado especialmente por populações jovens e de género maioritariamente masculino. Mesmo existindo mulheres que participaram desde o seu começo como MCs ou flygirls - nos concertos ou outro tipo de eventos locais realizados durante esta fase -, e sendo o período em que pela primeira vez, de um modo explícito, temas como a igualdade de género e o sexismo ganhavam aqui território: primeiro a partir da presença do grupo Djamal no panorama discográfico nacional e depois pela actuação do grupo Divine que voltaria a dar destaque a este assunto.
Artigo de Soraia Simões*, que participará no debate “Hip Hop em Portugal”, com Ana Sofia Fernandes, no Fórum Socialismo 2017. O debate será sábado 26 de agosto, às 14.30h na Sala 4.
* Soraia Simões é Investigadora no Instituto de História Contemporânea da FCSH Nova, Autora Mural Sonoro e RAPublicar. A micro-história que fez história numa Lisboa adiada: 1986 - 1996 (2017, Editora Caleidoscópio), Prémio Megafone Sociedade Portuguesa de Autores'14.