Pedro Amaral

Pedro Amaral

Natural da ilha de Santa Maria, estuda Filosofia no Porto. Membro da Comissão Coordenadora Regional dos Açores do Bloco de Esquerda.

A política local é a política da escala humana. É o último reduto onde o nome de uma pessoa ainda pesa mais do que o seu número de contribuinte. Dizer que é insignificante é ignorar que a felicidade (ou a falta dela) é quase sempre uma questão de pormenor.

Ao permitir que a Base das Lajes sirva de posto de abastecimento para o belicismo cego, Portugal abdica da sua tradição de construtor de pontes para se tornar num cúmplice passivo de uma escalada de violência cujas consequências não controla.

Quando o debate público se resume a uma busca incessante por um centro morno, o que estamos a fazer é multiplicar a nossa humanidade por zero.

A política como corrida de cavalos não é somente um sintoma, mas também uma causa moldando a discussão e reflexão no espaço público. São inúmeros os outros sintomas que se tornam causas, justamente por serem esses fenómenos que permitem a manutenção de uma organização societária tão injusta e desigual.

A greve conseguiu algo verdadeiramente extraordinário: quebrar o monopólio de temas da extrema-direita omnipresentes na esfera pública, como é o caso da imigração.

Não nos podemos esquecer que a democracia só o é se houver processo democrático e este faz-se com a abertura e justiça para a participação, mas também, claro!, com a participação.

As greves são sempre mais que uma greve, são o reconhecimento de quem faz o país avançar. São a exigência de se valorizar quem trabalha. Este pacote laboral estás nos seus antípodas: facilita despedimentos, incentiva a precariedade, ataca a parentalidade, retira rendimentos e mina o direito à greve.

O mínimo para quem trabalha é ver as suas condições mínimas de vida automaticamente garantidas. Alimentação é o mínimo. Habitação também o devia ser. Água, luz, saneamento idem. Ninguém devia passar frio ou ficar sem tomar um medicamento, porque o salário não chega.

O meu ponto-provocação hoje é simples: não será o mundo da pós-verdade o maior dos ciberataques? A epidemia das fake news nas redes sociais não constituem um ataque à nossa democracia através de redes de informação informática?

O poder local em concreto pode ser um tampão, dinamizando a comunidade através de valores como a cooperação, estando próximo da população, do seu quotidiano, e sendo um veículo de literacia. Se alguém se preocupa com a sua terra, não fique indiferente nestas autárquicas.