«O que é evidente, mente. Evidentemente». Li esta passagem em Evidentemente: histórias da educação, uma obra belíssima e riquíssima de António Nóvoa, em que afirma o modo superficial como muitas vezes se debate a educação, nomeadamente, com uma falsa sensação de familiaridade. Hoje, gostava de abordar uma evidência que mente, uma dessas confusões linguísticas com um reflexo político, e quotidiano.
São tantos os exemplos que até arrepia. Pensemos no casamento entre casais homossexuais: há quem o defenda, como quem se lhe oponha. Pensemos em quem não se quer comprometer com nenhuma das posições e afirma somente «temos de encontrar um meio termo». Pensemos na violência racista: há quem diga que o respeito pela dignidade humana é universal e quem berre para «voltarem para a sua terra». «Temos de encontrar um meio termo.» Pensemos em Gaza: em como tanta gente persistentemente defende a paz e como há quem tente justificar a morte de crianças. «Temos de encontrar um meio termo», repetem eles. Pensemos numa criança que se afoga: uma pessoa pretende correr e socorrê-la, enquanto outra se recusa. Uma terceira, confrontada com estas opções, sentencia «temos de encontrar o meio termo».
Existe aqui uma confusão entre o que é imparcialidade e neutralidade. Esta última, tantas vezes confundida com a virtude da moderação, é, na verdade, um deserto de carácter – na melhor das hipóteses. A imparcialidade, pelo contrário, exige o rigor do juízo, a análise dos factos, a justiça da balança; mas a neutralidade é a negação do movimento, é o congelamento da consciência face ao sofrimento do outro. Nesta aritmética social, o «meio termo» tornou-se o esconderijo dos cínicos. Se um prato da balança contém o direito à existência e o outro contém o extermínio, o ponto médio não é a justiça, é a barbárie atenuada.
Nas nossas ilhas, onde o mar nos ensina que não há meio termo entre a terra e o abismo, deveríamos ser os primeiros a entender que a neutralidade é uma ficção de quem está seguro no cais. Quando o debate público se resume a uma busca incessante por um centro morno, o que estamos a fazer é multiplicar a nossa humanidade por zero. E, como aprendemos desde cedo, multiplicar por zero dá sempre zero. Não importa quão grande seja o valor da dignidade que colocamos na equação; se o fator multiplicador for a nossa indiferença «neutra», o resultado será a nulidade absoluta.
Muitas vezes, a condescendência do «meio termo» é até mais ensurdecedora do que alguns dos opressores. É uma voz que se veste de prudência, que se perfuma com a retórica da ponderação, mas que, no fundo, é apenas o vazio de quem não quer ter o trabalho de sentir, ou a coragem de enfrentar quem brinca com o que há de humano. No mundo conturbado em que vivemos, pede-se a clareza de quem sabe que o mal não tem «outro lado» que mereça ser validado pelo compromisso.
Que saibamos, pois, distinguir a luz do nevoeiro. Que não nos deixemos seduzir pela mentira da evidência fácil, aquela que nos diz que a paz se constrói com a soma das metades de uma injustiça. Porque no fim do dia, quando as luzes se apagam e a consciência se deita, o que resta não é o que evitámos dizer, mas o que tivemos a coragem de defender. A vida, essa sim, nunca foi neutra. E nós também não podemos ser.