Os Açores são uma encruzilhada de destinos e vontades. Contudo, as recentes notícias sobre a utilização da Base das Lajes por parte das forças armadas dos Estados Unidos, como plataforma logística para o reabastecimento de aviões destinados a operações contra o Irão, devolvem-nos a uma realidade mais amarga: a de que a nossa "centralidade" é, tantas vezes, a medida da nossa servidão.
Assistimos, nas últimas semanas, a um bailado retórico de "autorizações condicionais" e explicações de circunstância. O Governo português, através do Ministério dos Negócios Estrangeiros, apressou-se a garantir que nada foi feito fora do quadro do Acordo de Cooperação e Defesa de 1995. Mas há algo de profundamente hipócrita na afirmação de que Portugal mantém o controlo sobre o que se passa naquele pedaço de terra terceirense quando, simultaneamente, se admite que certas operações podem ocorrer sem aviso prévio. A soberania, quando fatiada em "cláusulas de exceção" ou "interpretações tácitas", deixa de ser um direito inalienável para passar a ser um incómodo administrativo.
O que está em causa não é apenas a logística militar, mas o pilar da nossa identidade insular e a dignidade do Estado. Ao permitir que a Base das Lajes sirva de posto de abastecimento para o belicismo cego, Portugal abdica da sua tradição de construtor de pontes para se tornar num cúmplice passivo de uma escalada de violência cujas consequências não controla. É a hipocrisia de quem apregoa o Direito Internacional em fóruns europeus, mas consente na sua violação em solo açoriano sob o pretexto de uma "aliança estratégica" que parece funcionar apenas num sentido.
A resposta do executivo de Lisboa, marcada por uma ambiguidade que roça a submissão, ignora o grito de alerta que vem das gentes da Terceira. Aqueles que, legitimamente, se manifestaram às portas da Base não o fizeram por partilharem das ideologias do regime de Teerão, mas por perceberem que a paz não se constrói com aviões-tanque a descolar do nosso quintal para alimentar fogueiras noutras paragens. Existe uma profunda assimetria ética em falar de "defesa" quando se viabilizam ataques que ignoram a autodeterminação dos povos e a estabilidade global.
Para os Açores, o risco é duplo. Somos nós que estamos na linha da frente, somos nós que nos tornamos um alvo potencial nas geografias do terror, sem que a nossa voz tenha qualquer peso real na decisão de abrir ou fechar a porta. A Região Autónoma assiste, quase como uma espectadora de luxo, à gestão do seu território por poderes que falam inglês e decidem em Washington, com o aval silencioso de um Terreiro do Paço que prefere a conveniência da vassalagem à coragem da afirmação soberana.
Não podemos aceitar que a nossa "açorianidade" seja reduzida a uma coordenada geográfica útil para a guerra. A Base das Lajes deve ser um espaço de cooperação para a paz e para o progresso, não um buraco negro na soberania nacional onde as leis da moral internacional deixam de se aplicar. É tempo de exigir transparência, é tempo de recusar o papel de "parvos", como tão bem denunciou a crítica mais audaz, e de recordar que Portugal, se quer ser respeitado no mundo, tem de começar por se respeitar a si próprio, começando por estas Lajes que são de todos, mas que parecem, cada vez mais, pertencer a outros.