É preciso fincar o pé

porPedro Amaral

27 de março 2026 - 21:27
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Ao permitir que a Base das Lajes sirva de posto de abastecimento para o belicismo cego, Portugal abdica da sua tradição de construtor de pontes para se tornar num cúmplice passivo de uma escalada de violência cujas consequências não controla.

Os Açores são uma encruzilhada de destinos e vontades. Contudo, as recentes notícias sobre a utilização da Base das Lajes por parte das forças armadas dos Estados Unidos, como plataforma logística para o reabastecimento de aviões destinados a operações contra o Irão, devolvem-nos a uma realidade mais amarga: a de que a nossa "centralidade" é, tantas vezes, a medida da nossa servidão.

Assistimos, nas últimas semanas, a um bailado retórico de "autorizações condicionais" e explicações de circunstância. O Governo português, através do Ministério dos Negócios Estrangeiros, apressou-se a garantir que nada foi feito fora do quadro do Acordo de Cooperação e Defesa de 1995. Mas há algo de profundamente hipócrita na afirmação de que Portugal mantém o controlo sobre o que se passa naquele pedaço de terra terceirense quando, simultaneamente, se admite que certas operações podem ocorrer sem aviso prévio. A soberania, quando fatiada em "cláusulas de exceção" ou "interpretações tácitas", deixa de ser um direito inalienável para passar a ser um incómodo administrativo.

O que está em causa não é apenas a logística militar, mas o pilar da nossa identidade insular e a dignidade do Estado. Ao permitir que a Base das Lajes sirva de posto de abastecimento para o belicismo cego, Portugal abdica da sua tradição de construtor de pontes para se tornar num cúmplice passivo de uma escalada de violência cujas consequências não controla. É a hipocrisia de quem apregoa o Direito Internacional em fóruns europeus, mas consente na sua violação em solo açoriano sob o pretexto de uma "aliança estratégica" que parece funcionar apenas num sentido.

A resposta do executivo de Lisboa, marcada por uma ambiguidade que roça a submissão, ignora o grito de alerta que vem das gentes da Terceira. Aqueles que, legitimamente, se manifestaram às portas da Base não o fizeram por partilharem das ideologias do regime de Teerão, mas por perceberem que a paz não se constrói com aviões-tanque a descolar do nosso quintal para alimentar fogueiras noutras paragens. Existe uma profunda assimetria ética em falar de "defesa" quando se viabilizam ataques que ignoram a autodeterminação dos povos e a estabilidade global.

Para os Açores, o risco é duplo. Somos nós que estamos na linha da frente, somos nós que nos tornamos um alvo potencial nas geografias do terror, sem que a nossa voz tenha qualquer peso real na decisão de abrir ou fechar a porta. A Região Autónoma assiste, quase como uma espectadora de luxo, à gestão do seu território por poderes que falam inglês e decidem em Washington, com o aval silencioso de um Terreiro do Paço que prefere a conveniência da vassalagem à coragem da afirmação soberana.

Não podemos aceitar que a nossa "açorianidade" seja reduzida a uma coordenada geográfica útil para a guerra. A Base das Lajes deve ser um espaço de cooperação para a paz e para o progresso, não um buraco negro na soberania nacional onde as leis da moral internacional deixam de se aplicar. É tempo de exigir transparência, é tempo de recusar o papel de "parvos", como tão bem denunciou a crítica mais audaz, e de recordar que Portugal, se quer ser respeitado no mundo, tem de começar por se respeitar a si próprio, começando por estas Lajes que são de todos, mas que parecem, cada vez mais, pertencer a outros.

Pedro Amaral
Sobre o/a autor(a)

Pedro Amaral

Natural da ilha de Santa Maria, estuda Filosofia no Porto. Membro da Comissão Coordenadora Regional dos Açores do Bloco de Esquerda.
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