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Weimar em Jerusalém

Não se passa um dia – literalmente – sem que um grupo de membros do Knesset [parlamento de Israel] apresente uma nova lei racista.

Em Berlim, uma exposição intitulada “Hitler e os Alemães” acaba de abrir. Ela examina os factores que levaram o povo alemão a trazer Adolf Hitler ao poder e segui-lo até ao fim.

Estou demasiado ocupado com os problemas da democracia israelita para voar para Berlim. É pena. Porque, desde a infância, precisamente essa questão me tem incomodado. Como é que aconteceu que uma nação civilizada, que se via a si mesma como o “povo de poetas e pensadores”, tenha seguido este homem, como as crianças de Hamelin seguiram o flautista para a sua perdição?

Isto incomoda-me, não apenas como um fenómeno histórico, mas como um aviso para o futuro. Se isso aconteceu com os alemães, pode acontecer com qualquer povo? Pode acontecer aqui?

Como criança de 9 anos, fui testemunha ocular do colapso da democracia alemã e da ascensão dos nazis ao poder. As imagens estão gravadas na minha memória – as campanhas eleitorais sucedendo-se umas às outras, os uniformes na rua, os debates em torno da mesa, o professor que nos saudou pela primeira vez com “Heil Hitler”. Ressuscitei essas memórias num livro que escrevi (em hebraico) durante o julgamento de Eichmann, e que terminaram com um capítulo intitulado: “Pode acontecer aqui?” Estou a voltar a elas nestes dias, enquanto escrevo as minhas memórias.

Não sei se a exposição de Berlim tenta responder a estas questões. Talvez não. Mesmo agora, 77 anos depois, não há uma resposta definitiva à questão: Porque é que a república alemã entrou em colapso?

Esta é uma questão muito importante, porque agora as pessoas em Israel estão a perguntar, com crescente preocupação: está a república israelita a entrar em colapso?

Pela primeira vez, esta pergunta está a ser feita com toda a seriedade. Ao longo dos anos, tivemos o cuidado de não mencionar a palavra fascismo no discurso público. Ela levanta memórias que são demasiado monstruosas. Agora, esse tabu foi quebrado.

Yitzhak Herzog, o ministro da Previdência no governo de Netanyahu, membro do Partido Trabalhista, neto de um rabino e filho de um Presidente, disse há poucos dias que «o fascismo está a tocar as margens da nossa sociedade». Ele estava errado: o fascismo não só está a tocar as margens, ele está a tocar o governo no qual ele está a servir, e o Knesset, do qual ele é membro.

Não se passa um dia – literalmente – sem que um grupo de membros do Knesset apresente uma nova lei racista. O país ainda está dividido pela alteração da lei da cidadania, que vai obrigar os candidatos a jurar lealdade a «Israel como um Estado judeu e democrático». Agora, os ministros estão a discutir se isso será exigido apenas aos não-judeus (o que não soa bem) ou aos judeus também – como se isso alterasse o conteúdo racista um pouco que fosse.

Esta semana, um novo projecto de lei foi entregue. Proibiria não-cidadãos de actuarem como guias turísticos em Jerusalém Oriental. Não-cidadãos, neste caso, quer dizer árabes. Porque, quando Jerusalém Oriental foi anexada pela força a Israel depois da guerra de 1967, não foi concedida a cidadania aos seus habitantes árabes. Foi-lhes concedido apenas o estatuto de “residentes permanentes”, como se fossem novos recém-chegados e não descendentes de famílias que viveram na cidade durante séculos.

O projecto de lei pretende privar os habitantes árabes de Jerusalém do direito de servirem como guias turísticos nos seus lugares sagrados na sua cidade, já que eles são capazes de se desviar da linha da propaganda oficial. Chocante? Incrível? Não aos olhos dos proponentes, que incluem membros do partido Kadima. Um membro do Knesset do partido Meretz também assinou, mas retraído, alegando que estava confuso.

Esta proposta vem depois de dezenas de projectos de lei deste tipo terem sido apresentados recentemente, e antes de dezenas de outros que já estão a caminho. Os membros do Knesset agem como tubarões num frenético festim. Há uma competição selvagem entre eles para ver quem consegue conceber o projecto de lei mais racista.

Vale a pena. Depois de cada projecto de lei, os iniciadores são convidados para estúdios de TV para “explicar” o seu propósito. As suas fotos aparecem nos jornais. Para parlamentares obscuros, de cujos nomes nunca ouvimos falar, isso representa uma tentação irresistível. Os meios de comunicação estão a colaborar.

Este não é um fenómeno exclusivamente israelita. Em toda a Europa e na América, fascistas ostensivos estão a levantar as suas cabeças. Os disseminadores do ódio, que até agora têm vindo a espalhar o seu veneno nas margens do sistema político, estão agora a chegar ao centro.

Em quase todos os países existem demagogos que constroem as suas carreiras com base no incitamento contra os fracos e desamparados, que defendem a expulsão dos “estrangeiros” e a perseguição das minorias. No passado, eles eram fáceis de ignorar, como foi Hitler no início da sua carreira. Agora, eles devem ser levados a sério.

Há apenas alguns anos atrás, o mundo ficou chocado quando foi permitido ao partido de Jörg Haider entrar na coligação do governo austríaco. Haider elogiou os feitos de Hitler. O governo israelita chamou furiosamente de volta o seu embaixador em Viena. Agora, o novo governo holandês está dependente do apoio de um racista declarado, e partidos fascistas obtêm ganhos eleitorais impressivos em muitos países. O movimento “Tea Party”, que está a florescer nos EUA, tem alguns aspectos claramente fascistas. Um dos seus candidatos gosta de se passear vestindo o uniforme da assassina Waffen-SS nazi.

Por isso, estamos em boa companhia. Não somos piores do que os outros. Se eles podem fazê-lo, porque não nós?

Mas há uma grande diferença: Israel não está na mesma situação que a Holanda ou a Suécia. Ao contrário desses países, a própria existência de Israel é ameaçada pelo fascismo. Pode levar o nosso estado à destruição.

Há anos atrás, eu acreditava que dois milagres tinham ocorrido em Israel: o renascimento do idioma hebraico e da democracia israelita.

A ressurreição de uma língua “morta” nunca foi bem sucedida em qualquer outro lugar. Theodor Herzl, o fundador do sionismo, uma vez perguntou com desprezo: «Será que as pessoas pedirão um bilhete de comboio em hebraico?» (Ele queria que falássemos alemão.) Hoje, o idioma hebraico está bem melhor do que o transporte ferroviário israelita.

Mas a democracia israelita é um milagre ainda maior. Não cresceu a partir de baixo, como na Europa. O povo judeu nunca teve uma democracia. A religião judaica, como quase todas as religiões, é totalitária. Os imigrantes que fluíram para o país também nunca tinham experimentado a democracia antes. Eles vieram da Rússia czarista ou bolchevique, da Polónia autoritária de Josef Pilsudski, dos tirânicos Marrocos e Iraque. Só uma ínfima parte veio de países democráticos. E contudo: desde os seus primórdios, o movimento sionista promoveu uma democracia exemplar nas suas fileiras, e o Estado de Israel continuou esta tradição (com uma limitação: uma democracia plena para os judeus, uma democracia limitada para os cidadãos árabes.)

Sempre me preocupou que esta democracia estivesse pendurada por um fio, que devêssemos estar em guarda a cada hora, a cada minuto. Agora enfrenta um teste sem precedentes.

A república Alemã levou o nome de Weimar, a cidade onde a Assembleia Constituinte aprovou a sua Constituição após a Primeira Guerra Mundial. A Weimar de Bach e Goethe foi um dos berços da cultura alemã.

Foi uma Constituição democrática brilhante. Sob as suas asas, a Alemanha viu um florescimento intelectual e artístico inédito. Então, porque é que a república entrou em colapso?

Geralmente, são identificadas duas causas: a humilhação e o desemprego. Quando a república estava ainda na sua infância, foi forçada a assinar o tratado de paz de Versalhes com os vencedores da Primeira Guerra Mundial, um tratado que não foi mais do que um acto humilhante de rendição. Quando a república ficou para trás com o pagamento das indemnizações enormes a incidir sobre ela, o exército francês invadiu o coração industrial da Alemanha em 1923, precipitando uma inflação galopante – um trauma do qual a Alemanha não recuperou até hoje.

Quando a crise económica mundial estourou em 1929, a economia alemã entrou em colapso. Milhões de desempregados desesperados caíram em pobreza abjecta e gritaram por salvação. Hitler prometeu acabar tanto com a humilhação da derrota como com o desemprego, e cumpriu as duas promessas: deu trabalho aos desempregados na nova indústria de armas e em obras públicas, como as novas rodovias, em preparação para a guerra.

E houve uma terceira razão para o colapso da república: a apatia crescente da opinião pública democrática. O sistema político da república tornou-se simplesmente repugnante. Enquanto as pessoas se estavam a afundar na miséria, os políticos continuaram a jogar os seus jogos. O público ansiava por um líder forte, para impor a ordem. Os nazis não derrubaram a república. A República implodiu, os nazis só preencheram o vazio.

Em Israel, não existe crise económica. Pelo contrário, a economia é florescente. Israel não assinou qualquer acordo humilhante, como o Tratado de Versalhes. Pelo contrário, venceu todas as suas guerras. É verdade que os nossos fascistas falam sobre os “criminosos de Oslo”, tal como Hitler vociferava contra os “criminosos de Novembro”, mas o acordo de Oslo foi o oposto do tratado de Versalhes, que foi assinado em Novembro de 1919.

Se assim é, donde provém a profunda crise da sociedade israelita? O que leva milhões de cidadãos a encarar com completa apatia as acções dos seus líderes, contentando-se em abanar as suas cabeças à frente do televisor? O que os leva a ignorar o que está a acontecer nos territórios ocupados, a meia hora de carro da sua casa? Por que tantos declaram que já não ouvem as notícias ou lêem os jornais? Qual é a origem da depressão e do desespero, que deixam o caminho aberto para o fascismo?

O estado chegou a uma encruzilhada: a paz ou a guerra eterna. Paz significa a fundação do Estado palestiniano e a evacuação dos colonatos. Mas o código genético do movimento sionista está a empurrar no sentido da anexação de todo o país histórico até ao rio Jordão, e – directa ou indirectamente – da transferência da população árabe. A maioria das pessoas está a fugir a uma decisão, alegando que “não temos parceiro para a paz” de qualquer maneira. Estamos condenados à guerra eterna.

A democracia está a sofrer de uma paralisia crescente, porque os diferentes sectores da população vivem em mundos diferentes. O secular, o nacional-religioso e o ortodoxo recebem educações totalmente diferentes. O terreno comum entre eles está a diminuir. Outros fossos se abrem entre a velha comunidade asquenaze, os judeus orientais, os imigrantes da antiga União Soviética e da Etiópia, e os cidadãos árabes, cuja separação do resto está sempre a aumentar.

Pela segunda vez na minha vida, posso ter de presenciar o colapso de uma república. Mas isso não está predestinado. Israel não é a Alemanha em passo de ganso daqueles dias, 2010 não é 1933. A sociedade israelita ainda pode ficar sóbria a tempo e mobilizar as forças democráticas dentro de si.

Mas para que isso aconteça, deve acordar do coma, entender o que está a acontecer e para onde está a levar, protestar e lutar por todos os meios disponíveis (enquanto isso ainda é possível) para conter a onda fascista que ameaça engolir-nos.

Artigo publicado em Gush Shalom

Traduzido por Informação Alternativa

Sobre o/a autor(a)

Escritor israelita, jornalista, fundador do movimento de defesa da paz Gush Shalom.
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