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Web Summit: cimeira virtual com 11 milhões de euros públicos bem reais

Todos os anos venho criticando Fernando Medina e António Costa por despejarem milhões de euros num evento de uma empresa milionária e na associação dos patrões, mas este ano o apoio à Web Summit é uma indignidade.

Lê-se e não se acredita: a Web Summit vai ser 100% virtual, mas o Governo e a Câmara de Lisboa vão manter os 11 milhões de euros de apoio à iniciativa.

Quando, em 2018, Fernando Medina anunciou o contrato de dez anos com a maior feira de empreendedorismo e tecnologia do mundo, a promessa era que esse dinheiro seria em grande parte usado para a logística da Web Summit, totalizando mais de 110 milhões de euros até 2028. Para além desse apoio milionário, Fernando Medina garantia ainda a Paddy Cosgrave um investimento nas instalações da FIL. Ou seja, Medina não era só imensamente generoso para com a Web Summit, como ajudava a pagar o passivo milionário da AIP, a associação dos patrões da indústria portuguesa, dona da FIL.

Todos os anos venho criticando Fernando Medina e António Costa por despejarem milhões de euros num evento de uma empresa milionária e na associação dos patrões, mas este ano o apoio à Web Summit é uma indignidade.

Este ano, Paddy Cosgrave não vai gastar um cêntimo com a logística em Portugal e os participantes da cimeira não vão deixar um cêntimo na economia de Lisboa. As empresas de produção não vão receber, as empresas de catering não vão receber, os lojistas da cidade, a hotelaria e a restauração não vão receber nada, mas a Web Summit vai. Como se nada fosse, os 11 milhões de euros são deitados janela fora quando são tão necessários para ajudar os milhares de pessoas que foram afetadas pela pandemia.

Os 11 milhões gastos na Web Summit faltam a estes pequenos negócios e António Costa e Fernando Medina mostram que têm prioridades trocadas. É inexplicável

Nas últimas semanas têm existido justos protestos dos donos e dos trabalhadores dos setores da restauração, do comércio e da cultura, que têm dito que as medidas que o Governo tem posto em prática são muito insuficientes. Só em Lisboa havia 150 mil pessoas a trabalhar do turismo e perderam tudo de um momento para o outro com a pandemia, na Baixa já fecharam mais de 100 lojas, o Bairro Alto está em agonia e já há grupos informais de trabalhadores da cultura a recolher comida para quem montava os espetáculos da EGEAC.

Os 11 milhões gastos na Web Summit faltam a estes pequenos negócios e António Costa e Fernando Medina mostram que têm prioridades trocadas. É inexplicável.

Artigo publicado no jornal “Público” a 23 de novembro de 2020

Sobre o/a autor(a)

Engenheiro e mestre em políticas públicas. Dirigente do Bloco.
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