Está aqui

Vox Taxi – Vox Dei

O conflito entre os israelitas e os palestinianos começou há 130 anos. Em ambos os lados vai tomando forma um mundo fanático, no qual quaisquer outras perspectivas alternativas estão impedidas de entrar.

Na tarde de sábado, há duas semanas atrás, regressávamos de táxi da reunião anual em memória de Yitzhak Rabin, sempre em conversa com o taxista como era nosso hábito.

Geralmente, estas conversas surgem de forma natural, com muitos risos à mistura. A Rachel adora-os, porque fazem-nos estar cara-a-cara com pessoas que não encontramos regularmente. As conversas são necessariamente curtas, as pessoas expressam os seus pontos de vista de forma concisa, sem escolherem as suas palavras. As conversas são de vários tipos e como barulho de fundo temos sempre as notícias na rádio, programas ou música escolhida pelo condutor. E, claro, o filho soldado e a filha estudante são sempre mencionados.

Porém, desta vez, as coisas foram menos normais. Talvez nós tivéssemos sido mais provocadores que o habitual, ainda deprimidos pela reunião, que não tinha tido conteúdo político, emoção ou esperança. O condutor ficou cada vez mais transtornado, tal como a Rachel. Sentimos que se não fossemos clientes que iriam pagar estes serviços, poder-se-ia ter originado alguma confusão.

Os pontos de vista do nosso condutor podem ser resumidos pelos seguintes tópicos:

Jamais haverá paz entre nós e os Árabes, porque os Árabes não querem.

Os Árabes querem chacinar-nos, sempre o quiseram e sempre irão querer.

Cada Árabe aprende desde criança que os Judeus devem ser mortos.

O Corão apela ao assassinato.

De facto, onde quer que existam Muçulmanos, existe terrorismo. Onde existe terrorismo, existem Muçulmanos.

Não devemos dar nem seis centímetros quadrados do país aos Árabes.

O que recebemos em troca quando lhes devolvemos Gaza? Recebemos foguetes Qassam!

Não há nada que possamos fazer sobre isso. Apenas dar-lhes na cabeça e mandá-los de volta para os países de onde vieram.

De acordo com o Talmud: Aquele que vier para te matar, mata-o primeiro.

Este condutor expressou, numa linguagem simples e directa, as convicções gerais da grande maioria dos Judeus no país.

Não é algo com que apenas uma parte da sociedade possa estar identificada. É transversal a todos os sectores. O dono de uma banca no mercado colocará a questão de uma forma mais rudimentar, um professor irá colocá-la como uma espécie de ensaio com inúmeras notas de rodapé. Um oficial superior do exército irá olhar para esta questão como algo totalmente evidente, por sua vez um político irá basear a sua campanha eleitoral em torno disto.

Este é o obstáculo real com que se depara o campo de paz dos israelitas. Há muito tempo atrás, a discussão relacionava-se com a existência ou não de uma população palestiniana. Isso já está arrumado. Depois disso, tivemos de discutir sobre a “Grande Israel” e “Território Livre Jamais Será Devolvido”. Ultrapassámos isso. Depois era a discussão se haveríamos de devolver os “Territórios” ao Rei Hussein ou a um estado da Palestina a ser formado junto a Israel. Ultrapassámos isso. Depois disso, se haveríamos de negociar com a OLP, que foi definido como uma organização terrorista, e com o principal terrorista Yasser Arafat. Ultrapassámos. Todos os líderes da nação alinharam-se mais tarde para o cumprimentar. Depois, tivemos a discussão acerca do “preço” – de volta à Linha Verde? Trocar os territórios? Uma promessa em Jerusalém? Evacuar as populações? Isso também foi totalmente ultrapassado.

Todos estes debates eram mais ou menos racionais. É óbvio estavam envolvidas emoções profundas, mas até isso era lógico.

Porém, como falar com pessoas que acreditam com todo o coração que discutir por si só é irrelevante? Que não retrata a realidade?

Aos olhos dos nossos parceiros de conversa, questões sobre se vale a pena ou não fazer a paz ou se a paz é boa ou não para os judeus são todas insignificantes, se não mesmo claramente estúpidas. Questões que não fazem qualquer sentido, a partir do momento em que estamos a debater apenas connosco próprios.

Jamais haverá paz, porque os Árabes jamais quererão a paz. Fim da discussão.

Quem devemos culpar por esta atitude? Se existe uma pessoa mais culpada que todas as outras é Ehud Barak.

Se existisse um tribunal internacional para crimes de paz, como o Tribunal Penal Internacional, teríamos de o enviar para lá.

Quando Barak obteve a sua esmagadora vitória sobre Binyamin Netanyahu em 1999, ele não tinha qualquer problema palestiniano. Ele falava como se nunca tivesse tido uma conversa séria com um palestiniano. Ainda assim, ele prometeu alcançar a paz dentro de meses, e mais de uma centena de milhar de pessoas eufóricas aclamaram-no na tarde das eleições na praça onde Rabin tinha sido assassinado.

Barak estava certo do que tinha a fazer: convidar Arafat para uma reunião e oferecer-lhe um estado palestiniano. Arafat agradecer-lhe-ia em lágrimas e desistiria de tudo o resto.

Porém, durante a conferência para os acordos de Camp David ele estava surpreendido de ver que os palestinianos, terríveis como são, tinham algumas exigências a fazer. A conferência acabou num autêntico fracasso.

De volta a casa, Barak não declarou: “Desculpem, eu fracassei. Irei tentar fazer melhor.” Não existem muitos líderes no mundo que admitam a sua estupidez.

Um qualquer político diria: “Esta conferência foi infrutífera, mas fizemos alguns progressos. Faremos novas reuniões e tentaremos ultrapassar as nossas divergências.”

Todavia Barak produziu uma mantra, a qual cada israelita já ouviu milhares de vezes desde então: “Eu derrubei cada pedra no caminho para a paz / Eu ofereci aos palestinianos oferendas generosas sem precedentes / Os palestinianos rejeitaram-nas todas / Eles querem atirar-nos ao mar / não temos parceiros para a paz!”

Se Netanyahu tivesse dito algo neste sentido, ninguém teria ficado impressionado. Contudo, Barak tinha-se apontado a ele próprio como o líder da Esquerda, a cabeça do campo de paz.

O resultado foi desastroso: a Esquerda colapsou, o campo de paz quase desapareceu. O próprio Barak perdeu merecidamente as eleições com uma derrota esmagadora: se não existe qualquer hipótese de paz, quem precisa dele? Porquê votar nele? No fim de contas, Ariel Sharon, o seu adversário nas eleições, era bem mais qualificado para a guerra.

Resultado: o cidadão comum israelita ficou por fim convencido de que não existe qualquer hipótese de paz. Até mesmo Barak disse que não existe nenhum parceiro. E é tudo.

Ninguém, nem mesmo um génio como Barak, teria sido capaz de provocar tamanho desastre se as condições não o proporcionassem.

O conflito entre os israelitas e os palestinianos começou há 130 anos. A quinta e sexta geração nasceram já fazendo parte dele. Uma guerra agudiza mitos e preconceitos, ódio e desconfiança, faz do inimigo um demónio e cega os conceitos de cada um acerca da justiça. É essa a natureza da guerra. Em ambos os lados vai tomando forma um mundo fanático, no qual quaisquer outras perspectivas alternativas estão impedidas de entrar.

Em consequência, se um Árabe declarar a sua vontade de promover a paz, isso apenas confirma que todos os Árabes são mentirosos. (E vice-versa: se um israelita oferecer um compromisso, isto apenas reforça a convicção palestiniana de que não existem limites para os truques do Inimigo Sionista, que está a conspirar para os derrubar.)

E o mais importante é que a convicção que “não temos parceiro para a paz” é extremamente conveniente.

Se não existe hipótese para a paz, não existe necessidade para matarmos os nossos cérebros a pensar nisso, muito menos de fazer alguma coisa sobre isso.

Não existe necessidade de se gastar palavras com este disparate. De facto, a própria palavra “paz” saiu de moda. Já nem sequer é mencionada na sociedade política educada. No máximo, fala-se do “fim da ocupação” ou a “situação final do acordo” – apresentando ambas as hipóteses como bastante remotas.

Se não existe hipótese para a paz, todo este assunto pode ser esquecido. Torna-se desconfortável pensar-se nos palestinianos e sobre o que está a acontecer-lhes nos “territórios”. Por isso vamos direccionar toda a nossa atenção (a qual tem um alcance limitado) para as questões realmente importantes, tais como os desentendimentos entre Barak e Ashkenazi, os negócios de Olmert, os acidentes de viação fatais e o estado crítico do Lago das Tiberíades.

E enquanto o fazemos, já que não existe chance para a paz, por que não estabelecermos alguns acordos? Porque não judaizarmos a zona Este de Jerusalém? Porque não esquecermos os palestinianos?

Se não existe hipótese para a paz porque estão todos estes corações sofridos a dar-nos lições? Porque está Obama a aborrecer-nos? Porque estão as Nações Unidas a aborrecer-nos? Se os Árabes nos quiserem massacrar, temos claramente que nos defender, e todos aqueles que querem que nós estabeleçamos uma relação de paz com eles não são mais que anti-semitas ou judeus que se odeiam a eles próprios.

O ditado hebraico que diz “A voz das massas é como a voz de Deus” deriva do latim“vox populi, vox dei” (“a voz do povo, a voz de Deus”). Foi usado pela primeira vez, de uma forma negativa, por um sacerdote anglo-saxónico há cerca de 1200 anos numa carta ao Imperador Carlos Magno: não se deve ouvir quem o diz, a partir do momento em que “os sentimentos das massas estejam lado a lado com a loucura”.

Não estou preparado para subscrever tamanha declaração anti-democrática. Todavia, se queremos caminhar em direcção à paz, devemos sem dúvida remover esta pedra gigantesca que está a bloquear o caminho. Devemos introduzir no público outra convicção – a convicção de que a paz é possível, de que é essencial para o futuro de Israel, de que depende fundamentalmente de nós.

Jamais teremos sucesso em encorajar tal convicção através de discussões constantes. Anwar Sadat ensinou-nos que isto pode ser feito, mas apenas através de acções dramáticas que façam balançar as bases do nosso mundo espiritual.

Para a atenção do Sr. Obama.

Publicado em Gush Shalom a 13 de Novembro de 2010

Tradução de Sara Vicentepara esquerda.net

Sobre o/a autor(a)

Escritor israelita, jornalista, fundador do movimento de defesa da paz Gush Shalom.
(...)