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O avanço da extrema direita é a queda coletiva das democracias de um vigésimo andar político, social e cultural.

Há aquele homem que se atira de um vigésimo andar para o suicídio. A meio da queda diz a si mesmo: “até aqui tudo bem”. Mário Machado, confesso militante nazi, repetidamente condenado por crimes de ódio, foi entrevistado na TVI. Para dizer ao que vem a extrema direita. No mesmo programa, foi apresentada uma “sondagem de rua” sobre se Portugal precisa de um novo Salazar. Nada de especial, dizem-nos. Afinal de contas trata-se só de trazer à antena “opiniões polémicas” e – ensinam-nos – em democracia temos que dar voz a todas as opiniões. Pois, até aqui tudo bem…

Adolf Hitler também tinha “opiniões polémicas”. Os alemães e a Europa foram dizendo a si próprios repetidos “até aqui tudo bem” até perceberem, tarde demais, que afinal já estava tudo irreversivelmente mal. Bolsonaro ameaça de metralha quem seja de esquerda, arma as ruas, vomita ódio à população LGBT e dinamita as políticas de discriminação positiva invocando uma igualdade que discrimina – a tudo isso respondem alguns com uma neutralidade de aparências que é uma cumplicidade de facto e outros vão ainda mais longe, qualificando Bolsonaro como “irmão”. Pois, até aqui tudo bem…

O avanço da extrema direita é a queda coletiva das democracias de um vigésimo andar político, social e cultural. E nenhuma distração é admitida aos democratas diante de quem nos quer empurrar para esse suicídio coletivo. A luta contra a extrema direita é, pois, uma luta contra a distração social e contra os dispositivos que alimentam a nossa distração. Uma luta contra tudo quanto seja colocar a extrema direita no mesmo patamar de aceitação política daqueles que a extrema direita quer precisamente silenciar. Uma luta contra o uso de qualquer tipo de pretexto – a substituição do jornalismo pela espetacularização do comentário e o seu nivelamento por baixo, de que se alimenta a guerra de audiências, por exemplo – que abra aos inimigos da democracia, devagarinho, sem se dar conta, a porta do ataque à democracia.

Claro, tem que ser um combate que dê resposta ao descontentamento social que a extrema direita usa a seu favor – por isso uma luta contra o desapossamento de rendimento e de identidade que marca as nossas sociedades. Mas não nos enganemos: é uma luta intransigente e em que os democratas têm que ser intransigentes

Artigo publicado no jornal “as Beiras” a 5 de janeiro de 2019

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
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