Volta e meia, surgem notícias sobre o tema. Desta vez, o pretexto foi um estudo da University College de Londres, divulgado há dias no Expresso. Uma pequena sesta diária é, segundo a pesquisa, um antídoto contra a neurodegeneração e ajuda a preservar a saúde do cérebro à medida que envelhecemos.
Declaro-me apoiante da prática, embora menos praticante do que gostaria. E serei um combatente contra o estigma que ainda lhe está associado. A sesta, necessidade de dormir um pouco, parênteses no tempo do trabalho, instante de fuga, espécie de refúgio interior, pequeno descanso do corpo, deveria ser muito mais bem tratada pela nossa sociedade. É um oásis temporário no meio de dias complicados. Mas ainda é vivida com culpabilidade por quem a deseja. Como se fosse um indício de preguiça ou manifestação de falta de eficiência.
Na verdade, talvez o escândalo destes cochilos seja eles surgirem como uma espécie de afronta ao produtivismo. Durante o dia, são como que a emergência de uma exigência do corpo num mundo social em que é suposto ignorar essas necessidades para nos submetermos ao trabalho e ao relógio. Num livro chamado “A Arte de fazer a sesta no trabalho”, Camille e William Anthony revelam os dados de um inquérito que realizaram, há mais de vinte anos: 70% das pessoas admitia que já tinha tirado umas sestas furtivas no emprego. Mas o facto é que a sesta continua a ter, genericamente, má imprensa.
Já o contrário da sesta diurna parece ser um movimento imparável. A hiperaceleração do tempo do trabalho e a eliminação do tempo do sono e do repouso não são um projeto distópico, mas uma operação em marcha. Já se faz nas estufas, com as lâmpadas para as plantas crescerem como se fosse quase sempre de dia. Ou nos aviários, acelerando os dias para os frangos medrarem mais rápido. Faz-se nas guerras, com o uso de anfetaminas e fármacos para diminuir a necessidade do corpo dormir. Mas cada vez mais acontece no nosso quotidiano. É o capitalismo tardio “à conquista do sono”, como alerta Jonathan Crary no seu livro “24/7”. Um mundo de produção e consumo contínuos, no qual “o sono não é necessário nem inevitável”. A cultura de “conexão permanente”, através da qual a empresa e o trabalho invadem (à margem da lei!) o nosso tempo pessoal e de descanso, com mensagens e solicitações feitas a quase toda a hora por via de smartphones, é apenas mais uma dimensão deste processo.
Miguel Angel Hernandez, professor de História de Arte na Universidade de Múrcia, fala da sesta como uma “arte da interrupção" do tempo, um intervalo necessário para abrandar (ainda que por um instante) o ritmo contínuo, acelerado e capitalizado da nossa experiência quotidiana. A sesta, que para Angel representa uma forma privilegiada de convívio com a “fragilidade do nosso organismo”, pode ser vista como um acontecimento “capaz de fraturar a lógica produtiva”.
Libertemos então a sesta. Que ela deixe de ser uma prática clandestina para tanta gente em tantos espaços (porventura com a exceção dos comboios, autocarros ou das festas de família…). Ainda para mais em Portugal que, não tendo as tradições culturais de Espanha neste domínio, tem contudo, na sua história, alguns admiráveis cultores da prática. E à descarada, como Mário Soares, por exemplo, do qual se contam inúmeras histórias maravilhosas acerca do assunto (eu próprio assisti, era pequenino, a uma belíssima e justificada sesta do então presidente numa cerimónia oficial!).
Celebremos e defendamos a sesta! Como domicílio, refúgio interior, espaço de desconexão, de exílio, de retirada momentânea. Viva a sesta como trincheira possível contra a colonização produtivista do tempo.
Artigo publicado em expresso.pt a 21 junho 2023