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Viva Paulo Freire!

Nas obsessões bolsonaristas, há fantasmas omnipresentes e Paulo Freire é um espectro temido. Ao mesmo tempo, os seus livros continuam a ser reeditados, os seus métodos experimentados e o pedagogo continua a inspirar crianças que querem mais tempo para brincar.

A imagem viralizou há cerca de uma semana e, depois disso, os miúdos de uma escola em Belo Horizonte ganharam direito a mais recreio. Um grupo de alunos entre os 6 e os 9 anos fizeram um protesto para que aumentasse o tempo de recreio, reduzido por conta da pandemia a dois períodos de 15 minutos. Um dos desenhos realizados para esse protesto ficou famoso: uma mão erguida de dentro de um túmulo empunhava um cartaz com a frase "Aumenta o recreio”. Na campa desenhada lia-se o nome de “Paulo Freire”. O pedagogo brasileiro era assim simbólica e temporariamente ressuscitado por uma criança de 8 anos, para vir em apoio das suas reivindicações. Numa assembleia posterior, a escola acabou por instituir um esquema de “bolhas” e aumentar o tempo do intervalo. Vitória!

Talvez não haja melhor homenagem que esta a Paulo Freire, cujo centenário do nascimento agora se celebra. Freire, que tinha 29 doutoramentos honoris causa de diferentes universidades, é o autor de língua portuguesa mais citado do mundo, segundo a Google. A sua obra mais conhecida, “Pedagogia do Oprimido”, é um dos três livros mais referenciados internacionalmente em todo o campo das humanidades. Mas seria triste celebrá-lo apenas por ser campeão bibliométrico ou celebridade do competitivo e capitalizado mundo académico. Logo ele que criticou a instrumentalização da educação e da escola pelo mercado capitalista, o predomínio da razão técnica, a “sabedoria de resultados” como ideologia de despolitização, a visão tecnicista que confunde educação com treinamento instrumental. Freire merece ser homenageado no seu contributo para o conflito e a emancipação. Não como letra morta e conservada, mas como legado ressuscitado nas lutas atuais dos oprimidos, nas pelejas dos “esfarrapados deste mundo” a quem dedicou a sua Pedagogia.

O legado de Freire é de facto impressionante. Mostrou-nos como os processos de alfabetização não são mera didática de letras e números, mas aprendizagem em comunhão para nomear o mundo e a nossa condição nele, para ler a sociedade e escrever a nossa própria história. Combateu a ditadura militar brasileira, mas também as formas autoritárias de ação política e de organização, inclusive das esquerdas, sempre que estas coisificavam as massas e dispensavam a sua ação ou as destituíam da condição de sujeitos da sua libertação. Se “ninguém liberta ninguém e ninguém se liberta sozinho”, então a verdadeira organização libertadora exige direção mas não dirigismo ou vanguardismo e dispensa "o discurso sectário do militante messianicamente autoritário". Freire inspirou Boal, o Teatro do Oprimido e a procura de formas dialógicas de ação dramática. Esteve na Guiné, encontrou Amílcar Cabral e identificou as formas coloniais de “invasão das consciências” que perduraram mesmo depois do colonialismo político e que fazem dos oprimidos hospedeiros dos seus próprios opressores. Empenhou-se na revolução e na autodeterminação dos povos, não apenas como acontecimento redentor ou proclamação de independência política, mas como libertação económica e processo permanente de descolonização das mentes, de libertação das racionalidades opressoras enraizadas na cabeça dos oprimidos. Assumiu mandatos políticos no Brasil, quando integrou a equipa da prefeita Luiza Erundina como Secretário Municipal da Educação no início da década de 1990. Inspirou muitos processos de alfabetização integral e de animação cultural, como aconteceu em Portugal no período pós-revolucionário. Procurou sempre esses “inéditos viáveis”, ou seja, as possibilidades de transformação e do novo que é preciso arrancar à realidade que existe: mesmo quando a nossa ação não pode tudo, alguma coisa pode.

Não deixa de ser curioso que Paulo Freire, que em 1968 escreveu a sua “Pedagogia do Oprimido” no exílio, fugido da ditadura brasileira, esteja agora de novo, para utilizar a expressão do jornalista Urariano Mota, a sofrer “um segundo exílio post-mortem neste governo Bolsonaro”. Ele, que foi nomeado Patrono da Educação Brasileira em 2012, é outra vez perseguido e proibido pelo poder. Nas obsessões bolsonaristas, há fantasmas omnipresentes e Paulo Freire é um espectro temido. Ao mesmo tempo, os seus livros continuam a ser reeditados, os seus métodos experimentados e o pedagogo continua a inspirar crianças que querem mais tempo para brincar. É afinal uma bela forma de estar vivo e de, 100 anos depois, participar ainda nas contendas dos oprimidos. Viva Paulo Freire!

Artigo publicado em expresso.pt a 8 de outubro de 2021

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, sociólogo.
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