Vítimas da guerra

porMário André Macedo

25 de março 2022 - 14:39
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A invasão é uma catástrofe de saúde pública, com consequências que ultrapassam as fronteiras da Ucrânia. A Rússia é o agressor que iniciou uma guerra injustificada. A luta por um mundo mais justo, solidário e em paz nunca foi tão atual e urgente.

Às primeiras horas da madrugada do dia 24 de fevereiro, forças russas invadiram sem justificação a Ucrânia. Além das consequências políticas, militares ou económicas, esta agressão produz um impacto considerável na saúde.

No dia 15 de março, o gabinete de coordenação para os assuntos humanitários das nações unidas (OCHA), confirmava a morte de 691 civis, embora o número real seja provavelmente superior, pois no mesmo dia, as autoridades ucranianas confirmam o óbito de 103 crianças. Fontes americanas apontam para pelo menos dois mil óbitos nas forças ucranianas e quatro mil no exército russo. Estes números serão agravados a curto prazo. Os planos frustrados para uma curta guerra, levaram Putin a alterar a estratégia, tornando a atuação das forças russas mais destrutiva. Quem tem dúvidas sobre este cenário, deve lembrar-se das imagens da devastação que Grozny sofreu no princípio do século ou Alepo em 2016.

As consequências na saúde em muito ultrapassam os óbitos diretamente causados pelo conflito. Temos o impacto que as disrupções nos serviços de água, eletricidade, comida e aquecimento provocam na saúde da população, assim como na capacidade de os hospitais funcionarem com padrões mínimos de qualidade. Sem esquecer o contexto epidemiológico. Poucos dias antes da invasão russa, a Ucrânia reportava perto de 40 mil casos de Covid, com tendência ligeiramente decrescente. Tinha perto de duas mil pessoas internadas por Covid, com necessidade de oxigénio suplementar. Com apenas 40% da população imunizada, a guerra criou as condições ideais para a doença alastrar de forma descontrolada. Por falar em oxigénio, a carência deste bem essencial é dos principais problemas que necessita de uma resolução urgente. Devido às dificuldades de produção, distribuição e armazenamento, a OMS lançou um forte apelo sobre a iminente escassez de oxigénio nos hospitais ucranianos.

A Ucrânia também é conhecida por baixas taxas de imunização para o Sarampo, o que causou em 2019, o maior surto dos últimos anos no continente europeu, e para a poliomielite, que infelizmente para as crianças ucranianas, causou um surto no final do ano passado. A campanha mediada pela OMS para vencer a pólio, foi derrotada pela invasão e as crianças serão as principais vítimas.

Sem querer ser exaustivo nas doenças infeciosas que assolam a região, é importante relembrar que a Ucrânia é o país da Europa e Ásia Central com maior prevalência de HIV, cerca de 1% da população. Em 2020, foram reportados 17.533 novos casos de tuberculose, cerca de 6 mil de estirpe multirresistente a antibióticos. Estas doenças necessitam de medicação diária e específica, que em contexto de guerra se torna quase impossível de mobilizar. Uma população desnutrida está sempre mais vulnerável a qualquer doença, pelo que podemos estar perante o maior retrocesso de saúde pública na Europa desde a desagregação da União Soviética.

Antes do início da guerra, o OCHA publicou um preocupante relatório sobre a situação humanitária na Ucrânia. Foram identificadas 3.6 milhões de pessoas com necessidade de auxílio e apoio, 1.5 milhões das quais, já se encontrava deslocada pelo conflito no Donbass. Este gabinete da ONU, efetuou um apelo para a recolha de 190 milhões de dólares durante o ano de 2022, para poder concretizar a sua missão humanitária no leste da Ucrânia. As maiores parcelas são a saúde, orçamentada em 36 milhões de dólares e a segurança alimentar com 30 milhões. Representa cerca de 16 milhões de dólares de mês, dos quais em janeiro, apenas 600 mil foram recolhidos. Tratava-se de um conflito largamente ignorado, que apesar de a invasão russa ter recolado no mapa mediático, não teve a necessária e urgente correspondência com a ajuda humanitária. O programa, agora atualizado para um valor de 1,7 mil milhões de dólares, apenas recolheu cerca de 200 milhões de dólares, essencialmente graças às doações da Comissão Europeia, responsável por uma doação de 80 milhões de dólares.

É estimado que 5 a 7 milhões de ucranianos se tornem refugiados de guerra. É incerto e depende da evolução dos combates. Mas sabemos que cerca de 3 milhões já abandonaram o país. A UE não pode abandonar estas pessoas, vítimas das ambições imperiais de um regime iníquo que vive fora do seu tempo. Os passos dados por Portugal, no sentido de facilitar a burocracia na receção de refugiados, são de saudar, e os 10 mil refugiados já acolhidos serão, sem dúvida, bem recebidos. Mas devem ser tornados permanentes e abranger todos os refugiados de guerra. Não nos devemos esquecer que o sofrimento causado pelas bombas é todo ele igual, a necessidade de salvar a família não se torna diferente pela nacionalidade. Independentemente do sítio onde as armas são disparadas, quem foge da guerra deve ser ajudado.

Há outro efeito internacional que tem sido alvo de pouca reflexão: A Rússia é o maior produtor mundial de trigo, a Ucrânia o quarto maior produtor e o segundo maior exportador. O aumento dos preços dos alimentos, tem o potencial de provocar uma onda de choque assimétrica, que pode trazer a fome de volta a países de baixo e médio rendimento. Países como o Líbano, cuja capacidade de armazenamento ainda não recuperou da forte explosão de 2020, importa 80% do seu trigo da Ucrânia, ou o Iémen, país a braços com uma guerra de procuração entre sauditas e iranianos, são dois dos principais afetados com o fim das exportações ucranianas de trigo.

É preciso ir além da condenação da invasão e apelos à paz. É curto e não reflete o necessário julgamento moral que a situação acarreta: a Rússia é o agressor que iniciou uma guerra injustificada. Tem de cessar todas as hostilidades, recuar as suas tropas e permitir a entrada de ajuda humanitária. A invasão é uma catástrofe de saúde pública, com consequências que ultrapassam as fronteiras da Ucrânia. A luta por um mundo mais justo, solidário e em paz nunca foi tão atual e urgente.

Artigo publicado no “Diário de Notícias” a 22 de março de 2022

Sobre o/a autor(a)

Mário André Macedo

Enfermeiro especialista em saúde infantil e mestre em saúde pública.
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