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A vergonha da praça de jorna estivadora

72 anos depois, contratos ao dia ou até dois contratos por dia, as praças de jorna na sua novel forma aplicada aos estivadores de Setúbal.

Basta rasurar uma palavra para adaptar Soeiro Pereira Gomes no seu trabalho “Praças de Jorna” escrito em agosto de 1946:

A «praça de trabalho» ou «praça de jorna» é pois um mercado de mão-de-obra, a que vão assalariados e proprietários rurais (ou os seus delegados: os capatazes), e em que os primeiros, como vendedores, oferecem a sua força de trabalho, e os segundos, como compradores, oferecem o salário ou jorna, que é a paga de um dia de trabalho.

Na frase seguinte basta trocar Lisboa por Setúbal:

Pelo que acabamos de ver, e se bem que existam ainda muitos restos de medievalismo, tanto no modo como nas relações de produção agrícola (o Foro, as coutadas, o uso do arado, a designação de servo, etc.), a «praça de jornas» é fruto da sociedade capitalista, em que até as faculdades do homem constituem uma mercadoria. Tanto assim que, mesmo noutros domínios da produção, se encontram «praças de trabalho», como a Casa do Conto dos estivadores de Lisboa, os quais, ainda há bem pouco tempo, se juntavam perto das docas, para condições colectivas de trabalho.

Agora, a citação integral assenta que nem uma luva:

É bem sabido que a união faz a força. E a «praça de jorna» comprova o ditado. Naquela, o trabalhador sente a força da união dos companheiros; levanta a voz; teima; defende os seus direitos. Ao passo que, no pátio do patrão ou na sua casa, porque está isolado, o trabalhador sente-se fraco: cala-se com um copo de vinho; trai os seus interesses e dos seus companheiros. Tanto assim é que, mesmo na «praça», os capatazes ou os patrões estão sempre a puxar homens menos firmes para a taberna ou para a conversa à parte a fim de abrirem brechas na unidade dos trabalhadores.

Eis-nos aqui chegados, 72 anos depois, contratos ao dia ou até dois contratos por dia, as praças de jorna na sua novel forma aplicada aos estivadores de Setúbal. 72 anos depois, o poder continua a escolher o lado “esclavagista”, o capitalismo continua sendo-o!

72 anos depois os patrões continuam apoiando-se nas autoridades; as polícias recebem ordens do governo e o governo recebe ordens de quem protege os negócios – assim, os patrões querem as polícias a proteger os que aceitam a subjugação do medo, o copo de vinho, serem atiçados contra os seus iguais… Como numa luta de cães, só ganham os seus donos!

Ante a luta unida dos trabalhadores, os patrões da estiva clamaram às autoridades pelos seus prejuízos no banquete de milhões; mas sempre desprezaram os que ganham os tostões, os que comem as migalhas que caem da mesa do seu banquete.

Ai a economia/ ai a exportação/ ai a mais valia/ ai a exploração…

Afinal…

Tudo se resume à unidade e acção organizadas: acção da Comissão de praça e unidade dos camponeses na «praça» e nos ranchos.

Pois é Soeiro Pereira Gomes, a mesma água continua a correr debaixo da mesma ponte; vai é mais poluída!

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Sindicato dos Trabalhadores da Energia e Águas de Portugal, SIEAP.
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