Quem se considera democrata tem como obrigação ser defensor intransigente da liberdade de opinião, de imprensa, ou de qualquer outra forma de manifestação de liberdade, sem procurar banalizar o conceito.
Esta declaração de princípios serve para afirmar que não nos podemos coibir de constatar que alguns jornalistas, ou assim considerados, escolheram ser meros propagandistas do pensamento populista e dos seus mentores, os detentores do capital neoliberal.
Proliferaram, nos últimos tempos, os analistas e jornalistas que transformaram a análise e a crítica dos factos em narrativa de combate político, associando-se em ligeireza e superficialidade às práticas do jornalismo imediato e sensacionalista, ao gosto das redes sociais.
Defender o direito à liberdade de opinião, passa, igualmente, por aceitar os critérios jornalísticos que as respectivas redacções querem imprimir ao órgão de que são responsáveis, tendo em conta a salvaguarda da objectividade.
Há vários órgãos de comunicação social, escrita, falada ou televisiva, que não passam de meros panfletos de propaganda, tal é a falta de rigor e de equidade de que usam e abusam, alguns são sobejamente conhecidos por tais práticas, mas outros, de quem seria de esperar maior respeito pela verdade objectiva dos factos, e até pelos leitores, escolhem enveredar por esse mesmo tortuoso caminho, contribuindo de forma acentuada para o descrédito da comunicação social no seu todo.
Noutros casos, há quem se dedique a promover líderes locais, que procuram eternizar-se no poder e que pagam, à custa do erário público, publicações pretensamente independentes, que se prestam a tal tarefa. É mais uma forma de usufruir pessoalmente de vantagem indevida e de degradar a comunicação social.
Os Portugueses habituaram-se a aceder com regularidade a alguns jornais e noticiários, que consideram dignos de merecer a sua atenção, por já terem dado garantias de abertura, equidade e igualdade de tratamento de diferentes opiniões, o que enriquece o conhecimento dos factos e dignifica esses meios de comunicação.
Ora, a partir de determinada altura, sob o pretexto de escutarem diferentes sensibilidades, jornais ditos de referência, começaram a preterir alguns colaboradores, nomeadamente de esquerda, iniciando uma prática própria das redes sociais, preferindo os fabricantes de fake-news e de opiniões apressadas e tendenciosas.
Também ouvimos e lemos alguns jornalistas e cronistas, usando de técnicas comunicacionais aparentemente próximas da ironia, que não hesitam em defender posicionamentos contrários aos interesses dos portugueses, como no caso do aumento de taxas de juro por parte do BCE. Conhecendo a magreza dos nossos vencimentos e pensões de reforma, sou levado a questionar se conhecem o mundo real da maioria do povo português
Basear noticiários e comentários, em horário nobre, em questões mesquinhas de comportamento da vida privada, em falsas polémicas tantas vezes sem fim, tratadas de forma exaustiva, a partir de suposições e não de factos, impede que sejam debatidas as questões de fundo realmente importantes para o país, para a vida de todos nós.
Promover debates desta forma e conteúdo, que apenas vão contribuir para aumentar a confusão e aproveitar esta para difundir ideias antidemocráticas, não havendo possibilidade de estabelecer confronto de ideias com quem tem outra visão das coisas, parece-me do mais absoluto oportunismo e desonestidade intelectual.
Como afirma, com propriedade e criticamente o pensador Noam Chomsky, nos nossos dias “o propósito dos meios de comunicação social não é o de informar o que acontece, mas o de moldar a opinião pública de acordo com a vontade do poder corporativo dominante”.
A obrigação de uma comunicação social honesta, que pretenda ser credível aos olhos da população, é a de divulgar os factos com objectividade e a verdade a que temos direito, capaz de se sobrepor aos interesses que esta possa beliscar.
A autocensura é uma forma de os jornalistas se protegerem das pressões exercidas pelas estruturas dos jornais, quando estas os impedem de ser objectivos. É, igualmente, um abastardamento do direito à informação.
O papel daqueles que se consideram democratas é opor-se a este estado de coisas, evitando que a opinião pública continue a ser poluída por falsas verdades e por conceitos deturpados, de quem pensa que tudo lhe é permitido, só porque tem meios financeiros para comprar quem difunda as suas torpes ideias.