Verão quente, governo frio

porIsabel Pires

30 de agosto 2024 - 20:35
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O que nos diz o governo sobre o que virá daqui para a frente? Nada. Um governo vazio, frio, que se tenta manter à tona com manchetes mas que não tem nada para oferecer ao povo a não ser mais crise na saúde, mais crise na habitação, mais crise para quem trabalha.

Mais um mês de agosto se passou, mas a tipicamente chamada silly season parece ter sido menos silly. Talvez porque tantas das preocupações das pessoas se mantém e tantas delas continuam sem resposta. Mas vamos por partes.

Num mês que, infelizmente, nos tem trazido tantos fogos nos últimos anos, este ano é a Madeira que nos deixa a todos e todas bastante preocupados, apesar de o presidente do governo regional não estar assim tão preocupado. Quando estava de férias, esteve pouco mais de 24 horas na ilha da Madeira para gerir o cenário de crise para logo retomar o descanso. Continuou mais uns dias a arder uma área importante, mas Albuquerque achou que não era nada com ele e ainda decidiu vedar o acesso a determinadas zonas à comunicação social. Enfim, a irresponsabilidade personificada e agora se verificarão mais concretamente os danos causados e porque não se acionaram outros meios mais cedo.

Mas durante este mês quente voltamos a assistir a mais um verão difícil para o SNS, em particular para os serviços de obstetrícia. Foram várias as urgências de obstetrícia encerradas, com “alternativas” a centenas de quilómetros em alguns casos, situações de grávidas do centro do país a terem que ir ao norte para terem os seus bebés, várias dezenas de transferências de grávidas para maternidades privadas.

Ora, o governo, que prometeu resolver os problemas do SNS em 60 dias, está claramente a falhar. Mas pior do que isso (porque o diagnóstico e as soluções há muito que estão apontadas) é a manutenção de escolhas erradas para o SNS, continuando a ignorar que as soluções implicam investimento, sim, mas são urgentes. São precisos mais médicos, e para isso é preciso que a carreira e os salários sejam adequados.

Até junho, os médicos fizeram 3.174 milhões de horas extra e 2.455 milhões de horas em prestação de serviços. O bastonário da Ordem dos Médicos diz que é “a prova de como o serviço público não deve funcionar”, os gestores hospitalares dizem que era melhor contratar (porque fica mais barato do que pagar horas extra e prestações de serviço), a FNAM insiste para que a tutela negoceie com os médicos de forma justa e séria, por forma a salvar o SNS, tendo apelidado o plano de verão para o SNS como “catastrófico”.

No meio de tudo isto, o primeiro-ministro faz a rentrée do PSD sem referir o orçamento do estado ou sequer alinhavar soluções concretas para os problemas graves no SNS, por exemplo. Anuncia mais vagas nos cursos de medicina, mas continua calado sobre condições de trabalho, carreiras, salários, formas efetivas de manter e chamar profissionais para o Serviço Nacional de Saúde.

Sobre medidas fiscais, continuam a pairar incógnitas. O novo ano letivo está a começar, e o apoio a professores deslocados não abrange todos e continua a não haver solução para a falta de professores em algumas regiões e disciplinas. No ensino superior, a grande preocupação de quem agora entrou é se vai conseguir suportar os custos, em particular com a habitação.

O que nos diz o governo sobre o que virá daqui para a frente? Nada. As incógnitas continuam, o suspense sobre o que será do orçamento do estado volta a contaminar o debate público, afastando a pressão do governo para medidas que respondam aos problemas elencados aqui (e muitos outros). Um governo vazio, frio, que se tenta manter à tona com manchetes mas que não tem nada para oferecer ao povo a não ser mais crise na saúde, mais crise na habitação, mais crise para quem trabalha.

Isabel Pires
Sobre o/a autor(a)

Isabel Pires

Dirigente do Bloco de Esquerda. Licenciada em Ciências Políticas e Relações Internacionais e mestranda em Ciências Políticas
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