A velha linhagem dos interesses

porMiguel Cardina

07 de setembro 2023 - 23:36
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As direitas em Portugal são diversas nas suas origens, histórias e características ideológicas. Tudo isso lhes dá um nome diferente, ainda que tenham todas o mesmo apelido: “dos interesses”.

As direitas em Portugal são diversas nas suas origens, histórias e características ideológicas. Tudo isso lhes dá um nome diferente, ainda que tenham todas o mesmo apelido: “dos interesses”. O mais antigo é o partido da direita tradicional dos interesses. Os mais recentes são o partido da direita neoliberal dos interesses e o partido da extrema-direita dos interesses. Divergem muito, zangam-se às vezes, e o mais velho diz recorrentemente que o familiar preferido é aquele e não é o outro. Mas desenganemo-nos: quando chegar a altura, se isso for necessário, não terão nenhum problema em juntar os trapinhos ou em ir juntos à boda.

Família é família. É por isso que tanto se chateiam quando lhes tocam nos seus: quando se fala da elite financeira; quando se aponta a “santa aliança” entre a banca e o imobiliário; quando se denuncia a forma como, a partir do Estado, se estruturou em Portugal uma economia do privilégio e da desigualdade.

Dizer isto não é desconsiderar o perigo específico que representa hoje a extrema-direita. Ela é a expressão orgânica de algo que existe há muito na sociedade portuguesa: o machismo, o racismo, a xenofobia, a homofobia, o ódio aos pobres. Não haverá vitória sobre a extrema-direita sem se levar a sério e combater caso a caso, luta a luta, as estruturas sociais que permitem essas opressões.

Sabemos também que a extrema-direita crescerá na exata medida em que crescer o ressentimento, o desânimo e a desigualdade. Cabe à esquerda definir caminhos para esse combate necessário. O PS e a maioria absoluta já desenharam a sua solução: passa por evidenciar a vozearia da extrema-direita, para depois dizer que é nesse contraponto que está o verdadeiro antifascismo. Se a direita tem como estratégia a normalização da extrema-direita, o PS usa-a como seguro de vida: ou nós, ou veem aí eles.

Não parece importar que as políticas aplicadas pela maioria absoluta sejam aquelas que a direita aplicaria caso estivesse no governo. Nisso, aliás, a maioria absoluta assume o mesmo apelido das direitas. A agenda da velha linhagem dos interesses continua viva e de boa saúde e traduz-se, hoje, no desrespeito pelos professores, na degradação continuada do Serviço Nacional de Saúde, na falta de resposta à insegurança económica, no privilégio do setor financeiro, na privatização da TAP, na aposta nacional numa monocultura do turismo que precariza o trabalho e torna a habitação um luxo.

É porque falha em dar uma resposta de esquerda que a maioria absoluta faz hoje uma política de trincheira: ou nós, ou vêm aí eles. Acontece que a alternativa não pode ser entre os fantasmas da direita reerguida e o fracasso da maioria absoluta. Há um país desiludido com quem é necessário saber fazer os combates da esperança: com espírito unitário, e onde o papel do Bloco será absolutamente decisivo para derrotar a extrema-direita onde ela cresce e para liderar a oposição à velha linhagem dos interesses. São estas as lutas que, hoje e amanhã, teremos de saber fazer.

Miguel Cardina
Sobre o/a autor(a)

Miguel Cardina

Historiador, doutorado em História, investigador do CES/UC.
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