Vão-se os anéis, ficarão os dedos?

porMaria Luísa Cabral

11 de janeiro 2024 - 17:10
PARTILHAR

Valiosos equipamentos urbanos sofrem desmandos desnecessariamente. Uma autarquia com uma verdadeira política de cultura estaria atenta e interviria a tempo. Desta vez é a Livraria Férin, em pleno Chiado, que ameaça desaparecer.

Paulatinamente, Lisboa descaracteriza-se. Virou um grande centro comercial a céu aberto com as ruas do centro histórico a oferecer exactamente o que se encontra noutra grande capital. Quando os turistas se fartarem, ficaremos nós a gerir o que não tem interesse nenhum, ruas e locais irreconhecíveis, sem história, falhas de memória e identidade.

Lisboa descaracteriza-se. Virou um grande centro comercial a céu aberto com as ruas do centro histórico a oferecer exactamente o que se encontra noutra grande capital

Flanar pelo Chiado, um prazer que se esvai. Ah, claro, a não ser que se pretenda ouvir uma babel de línguas estranhas, comprar umas sardinha de cerâmica ou comer um pastel de nata industrializado. Ou um azulejo montado em cortiça para uma cozinha em estilo étnico.

Turistas everywhere, tours em carripanas tipo rickshaw para turistas mais ou menos decoradas como se mergulhassemos no trânsito de Bombay, restaurantes para os turistas com cardápios completamente descaracterizados, lojas de souvenirs para os turistas, muita roupa, muito calçado, tudo marcas internacionais. Espanta-me que continue a haver turistas para tanta bugiganga e tantos produtos globalizados. Ele é a cortiça transformada em mil e uma aplicações, muitas sardinhas em cerâmica decorada, eléctricos amarelos a perpetuar o nosso imaginário, um susto de azulejos, muita aguarela com putativos recantos lisboetas, muito Tejo com ferryboats já que as faluas desapareceram. Indianos a venderem bugigangas chinesas; chineses a venderem saris indianos e écharpes de Caxemira. Talvez seja curioso para quem passa, para quem vive aqui, um pesadelo.

Procurar aquela loja lisboeta diferente, acabou. Em toda a Lisboa, as “lojas com história” contam-se pelos dedos da mão, não se aguentaram. Não é difícil perceber que a voragem do tempo as engoliu mas talvez não seja pedir muito à Câmara de Lisboa um plano de preservação para as jóias que ainda sobrevivem. Essas [poucas] lojas são verdadeiras pérolas de um tempo em acelerado processo de transformação, testemunhos históricos interessantíssimos, um marco que pode distinguir Lisboa de outras capitais, valorizando-a e constituindo, esse sim, um poderoso elemento de atracção.

No passado, muitas lojas eram pontos de encontro, locais que não se limitavam à transacção comercial, comerciantes e clientes conheciam-se. Ia-se à Baixa para ver as novidades, fossem de que natureza fossem. Comparava-se, sim, sonhava-se, imaginava-se e comprava-se. Quantas deste tipo de lojas resiste? Lá vêm a lógica do mercado, perdemos todos. Subir a Rua do Carmo ou Nova do Almada, só por necessidade absoluta. Não têm interesse nenhum, tudo igual entre multidões sufocantes, o tempo é outro mas talvez haja coisas que devamos preservar.

No tocante a equipamentos culturais, é ainda mais entristecedor. Há uns anos desapareceu a Livraria Portugal (na esquina da R. do Carmo com as Escadinhas de Santa Justa), quem entrava explorava o piso térreo mas os superiores escondiam as novidades; hoje vendem-se por lá uns bonecos em forma de bovinos que se encontram em qualquer cidade Europa fora. Depois foi a Aillaud & Lellos, mesmo ao lado, onde antes havia livros agora há muitos sabonetes (alguns em forma de sardinha). E nas últimas semanas, foi-se a Livraria Férin na Rua Nova do Almada. Mais lá em cima, na Rua Garrett, a Bertrand vai resistindo (mal na minha opinião) e a Sá da Costa, uma confusão, um bric-à-brac onde há livros.

Amargura-me o desaparecimento da Férin. Era uma livraria para um público específico tendo chegado a ser distinguida como “Loja com História”. Era uma espécie de último reduto (e o José Pinho sabia-o melhor que ninguém)

Amargura-me o desaparecimento da Férin. Fundada em 1840, encaixa-se na linha de livreiros estrangeiros, predominantemente franceses, que se foram estabelecendo em Portugal entre os quais o mais famoso será Bertrand. Era uma livraria para um público específico tendo chegado a ser distinguida pela Câmara como “Loja com História”. A Férin era uma espécie de último reduto (e o José Pinho sabia-o melhor que ninguém), com pessoal que sabia de livros (a um livreiro exige-se muito mais do que o avio de livros), que agora encerra. Mas precisará mesmo de desaparecer? Tudo tem acontecido tão depressa que urge intervir e evitar o desastre total. Talvez até se pudesse manter aquele espaço no ramo editorial, adaptando-o a outros objectivos. Por exemplo, uma livraria municipal (há uma na Av. da República o que obviamente é pouco) caía bem, numa localização excelente e mantendo o equipamento (estantes, expositores) e com a oferta do auditório na cave para iniciativas culturais (conferências, lançamento de livros, debates, exposições). Também a Imprensa Nacional-Casa da Moeda podia ocupar aquele espaço, dinamizando-o. Ainda não é irremediável mas seria preciso empenho por parte da sociedade civil e das autoridades, commitment como dizem os estrangeiros que por ali passam, às centenas.

Impedir a todo o custo trocar a cultura por sardinhas ou napperons com coloridos corações bordados. Se nos tirarem os anéis (livros) que preservem os dedos (espaço+equipamento), que perdure o lugar. Nos Paços do Concelho, mesmo ao lado, perceberão o que está em jogo, em risco de se perder?

Maria Luísa Cabral
Sobre o/a autor(a)

Maria Luísa Cabral

Bibliotecária aposentada. Activista do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
Termos relacionados: