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Vamos lá dar uma “lição exemplar”

Um dos mistérios da campanha eleitoral foi a bravata de António Costa contra a Galp, prometendo-lhe uma “lição exemplar” pelo despedimento coletivo que está em curso. Ora, não se descortina nenhuma razão eleitoral local para tanto entusiasmo comicieiro.

O PS ganhou naquele município, como sempre e com grande vantagem, mais do dobro dos votos do PSD, 44% contra 17%, ninguém imaginava outro resultado e não parecia haver necessidade. Assim sendo, tratou-se unicamente de uma mensagem nacional para abrir telejornais.

Haveria, então, outra razão para a ameaça que não fosse a eleição em Matosinhos? O mistério adensa-se. O Governo é acionista da Galp (7%) e não moveu uma palha em qualquer momento do processo; a ministra do Trabalho poderia ter impedido o despedimento coletivo e ficou impávida. Só o primeiro-ministro ameaçou, em eleições, a tal “lição exemplar”, já consumado o agravo. Depois, perante a perplexidade pública sobre esta duplicidade, explicou num longo artigo no “Público”, ainda em campanha, que “a pretendida ‘lição’ não é mais do que a utilização do Fundo de Transição Justa e a aplicação da legislação para proteção dos trabalhadores e do futuro do território”, nomeadamente para “garantir que aquele território que ali fica disponibilizado não é utilizado como a Galp lhe der ‘na real gana’”. Dito em bom português, a “lição exemplar” é que a Galp fica a saber que pode fazer o despedimento coletivo, mas que se aplicará a lei e o município cumprirá o PDM no que toca ao uso dos terrenos.

O Governo e o seu partido dizem a uma empresa que farão o braço de ferro de não mudar a lei ou as regras municipais ao sabor da sua conveniência financeira, o que parece então ser coisa admitida em algum passado

Exemplar é esta lição, de facto. O Governo e o seu partido dizem a uma empresa que farão o braço de ferro de não mudar a lei ou as regras municipais ao sabor da sua conveniência financeira, o que parece então ser coisa admitida em algum passado, e, sendo desagradável o despedimento, siga a parada. Não deixa de ser revelador de uma história do poder de Estado que um primeiro-ministro ache que é intrépido dizer que, desta vez, a lei não se muda para fazer um favor. Não vejo como se possa conceber um sketch mais curioso sobre o “segura-me, se não eu bato” de um Governo em relação a um gigante económico. Para mais, era não só possível como necessário gerir a redução de emissões e, ao mesmo tempo, garantir o emprego destes técnicos qualificados, para o que a empresa dispõe de amplos recursos e, sobretudo, de uma obrigação. Fica a “lição exemplar”: ou a lei limita estas estratégias empresariais destrutivas do emprego, ou só restarão decibéis em comícios para fingir que se faz o que se devia ter feito.

Artigo publicado no jornal “Expresso” de 1 de outubro de 2021

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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