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Vão praxatear outro

Começou o ano lectivo e a praxe já cá canta. Há vozes dissonantes?

Todos os anos, no início do ano lectivo, vemos nas ruas umas pessoas pintalgadas e com as calças viradas do avesso e outras com um traje preto. E, sempre que alguém reclama contra ritual tão boçal, imediatamente é secundado por um “mas até é divertido” e por um encolher de ombros. Ser contra a praxe é sempre a luta que fica p’ra depois.

A praxe é um sinal dos nossos tempos; é um sinal de que as universidades não são um local onde os alunos e as alunas possam perguntar, pesquisar e, principalmente, pôr em causa. Numa faculdade onde a porta nos é aberta por quem nos grita aos ouvidos e em que temos de olhar para o chão, não é o lugar de fórum e de participação, de rebeldia e de inventividade que alguns e algumas ainda desejam que fosse. A praxe tenta fazer de quem entra no ensino superior um conformista por natureza, normalizando-lhe o espírito para que seja cool cantar Quim Barreiros e beber até cair, para que a diversão seja padronizada e em moldes rígidos, pagos por cervejeiras e pelos bancos.

A praxe não foi melhor ou pior nas faculdades e politécnicos em que andámos. A praxe ainda é. Ainda é violenta, porque faz com que algo tão violento como um grito seja a forma como nos recebem; ainda é sexista, porque põe as meninas submissas e os rapazes viris, porque elege as miss e os misters; ainda é homófoba, porque põe milhares de pessoas a gozar com os “maricas” e com as “camionistas”; ainda é para se perceber quem manda aqui, porque a forma como hierarquiza os veteranos e os caloiros serve para que se perceber que ali e “na vida” uns mandam e os outros obedecem.

Mas há sempre quem argumente com o excelente serviço de integração que faz. Mas não é verdade: a praxe não integra, segrega. Segrega quem entrou no ensino superior de quem não entrou, segrega os comportamentos que não são a norma, segrega a sociedade do ensino superior. Aliás, só pode fazer sentido integrar as pessoas num local ou instituição se esse sítio estiver absolutamente separado do resto das coisas e o ensino superior não deveria ter muros a separá-lo das pessoas. Assim, a praxe ajuda os que a amam a auto justificar os exames, os numerus clausus, as propinas, o Processo de Bolonha e o RJIES (Regime Jurídico das Instituições do Ensino Superior) porque o ensino superior, para eles, é o lugar das elites.

No entanto, a praxe, nos últimos anos, mudou muito para se poder manter igual. Por causa de Bolonha e do enorme sub-financiamento a que as universidades e politécnicos estão sujeitos as escolas passaram a ter de competir entre si para arranjar alunos e isso fez com que muitas instituições de ensino superior passassem a investir muito em marketing e publicidade. Um caso de “abuso” das praxes – como a morte do caloiro da tuna Diogo Macedo por tunos ou a rapariga da Escola Superior Agrária de Santarém a quem uns praxistas amigos enfiaram a cabeça num balde de esterco – seria má publicidade para as escolas, por isso muitas escolheram inscrever nos seus regimentos a proibição da praxe. Uma acção que nada tem de progressista, mas que apenas espelha o medo dos reitores de ficarem baixarem a sua cotação no rating do ensino superior.

Apesar de muitos e muitas na esquerda adjectivarem negativamente a praxe a luta contra esta tradição inventada continua a ser para depois. É melhor que se façam listas para as associações de estudantes deixando as comissões de festas e os grupos desportivos para os sectores mais à direita e é preferível nem se meterem com a poderosa comissão de praxe. As associações de estudantes nada têm que ver com um movimento de estudantes, desistiram por completo de ser um local de reflexão, de procura de conhecimento e de reivindicação, apenas reproduzem comportamentos, servem como comissões de festas e como rampas de lançamento de juventudes partidárias. Isto prova a hegemonia da praxe e das suas ideias conservadoras no seio dos e das estudantes. É preciso que comece a haver gente mais ousada, que queira questionar para que serve o Ensino Superior, que não queira aceitar a fábrica de diplomados que se continua a construir e que queira, para começar, discutir a ideia de Escola. Nesse combate a praxe nunca vai caber.

Sobre o/a autor(a)

Engenheiro e mestre em políticas públicas. Dirigente do Bloco.
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