Universidade Fast Food

porLuís Monteiro

20 de dezembro 2023 - 22:46
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Na Universidade do Porto, premeia-se com 2000€ estudantes que apresentem a sua tese em 3 minutos. Mas também se premeia quem a terminar. O prémio, nesse caso, são 500€ de taxa que o estudante é obrigado a pagar para a poder defender.

As instituições de ensino superior (IES) têm sofrido grandes alterações nas últimas décadas. Essas mudanças estruturais tiveram três principais pilares: alteração do modelo de financiamento, desregulação das relações laborais e um novo modelo de gestão proto-empresarial. Sobre isso, tive já oportunidade de desenvolver um conjunto de críticas a essas opções, num conjunto de outros ensaios e artigos. Os impactos dessas alterações fazem-se sentir na forma como a Universidade fala para dentro e fala para fora. É o caso de um conjunto de novas modalidades de comunicação de ciência, cada vez mais impulsionadas por gabinetes de comunicação e outras estruturas paralelas aos tradicionais órgãos de gestão académica e que têm vindo a operar de forma a tornar mais apelativa a imagem do mundo académico junto do resto da sociedade.

Fui surpreendido - talvez tardiamente devido à minha desatenção - com uma notícia publicada pela própria Universidade do Porto sobre um concurso que envolve estudantes a terem de apresentar o seu trabalho académico em três minutos. O primeiro prémio são 2000€, concedidos em regime de parceria deste projeto com a Caixa Geral de Depósitos. O modelo do concurso existe noutras instituições de ensino superior em Portugal, como é exemplo a Universidade de Coimbra, apesar de, neste caso, não haver um prémio monetário envolvido.

O papel deste novo modus operandi comunicacional merece uma reflexão que ainda não foi devidamente feita. Mas é evidente que há aqui uma valorização da "comunicação da ciência" que ultrapassa a própria necessidade primeira de a fazer. O objetivo não é conhecer mais e melhor, é saber comunicar mais e melhor. Este processo de alteração das prioridades pode parecer aparentemente um simples erro momentâneo mas consagra um novo papel para a Universidade.

Em suma: na Universidade do Porto, premeia-se com 2000€ estudantes que apresentem a sua tese em 3 minutos. Mas também se premeia quem a terminar. O prémio, nesse caso, são 500€ de taxa que o estudante é obrigado a pagar para a poder defender. As atividades extracurriculares são importantes e fortalecem laços entre a produção de conhecimento e a comunidade envolvente. Mas numa altura em que chove dentro das instalações da Faculdade de Belas-Artes, há uma brutal falta de oferta pública de alojamento estudantil, os estudantes são espremidos em propinas, taxas e emolumentos, há carência de espaços de qualidade para estudo nas faculdades, a precariedade entre a classe docente e de investigação é a regra, talvez fosse mais prudente procurar parcerias que valorizassem verdadeiramente o papel transformador para cada um dos seus membros, para o país e para a sociedade em geral. E, para isso, é preciso resistir aos perigos de a tornar um mercado de cursos onde concorremos para entrar, investimentos a nossa vida e não queremos sair a perder.

Luís Monteiro
Sobre o/a autor(a)

Luís Monteiro

Museólogo. Investigador no Centro de Estudos Transdisciplinares “Cultura, Espaço e Memória”, Universidade do Porto
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