Permitam-me hoje uma análise mais fria e refletida sobre as legislativas do passado dia 10.
Grosso modo, parece que a AD aumenta em relação a 2022 a custo do PS, traduzindo-se a diminuição da abstenção no crescimento das terceiras forças, principalmente, no do Chega. Trata-se de uma abordagem generalista e intuitiva, havendo, contudo, a conivência dos números. Significa isto que a maioria dos eleitores continua a valorizar o centro, votando nas duas forças do centrão, e um expressivo eleitorado volátil no seu cerne. Não obstante, o PS deve ter sofrido um sangramento dum punhado de eleitores para os partidos à sua esquerda, nomeadamente o Livre, tendo, ainda assim mantido o grosso do apelo ao voto útil. De notar que a grande queda do PS e o modesto aumento da AD são acentuados por fatores terceiros, a diminuição da abstenção e estes novos eleitores não terem optado pelo centrão. Pedro Nuno Santos terá mais votos que António Costa em 2015, quando ficou em segundo, e Luís Montenegro terá uma votação pouco superior a Durão Barroso em 1999, quando este ficou em segundo.
Continuando nos números, o Chega tem um resultado expressivo, ultrapassando o PRD em 1985 e, escrevo antes de sair os votos do estrangeiro, a pouca distância do PCP em 1979. De tal forma expressivo, que, se a eleição fosse por um círculo nacional, teria menos deputados do que os já distribuídos. Este é, aliás, um excelente tema: os votos desperdiçados nestas eleições foram mais de 673.000. Existe um site que intuitivamente indica ao utilizar se o seu voto foi usado (se o partido elegeu no círculo onde votou), elencando estes números circunscritos a essa pesquisa. Se houvesse um círculo nacional de compensação, à semelhança do que temos nos Açores, PS, AD e CH perderiam alguns deputados, e o Bloco de Esquerda, por exemplo, passava de 5 para 10 (trata-se do dobro dos deputados).
Passando à necessária análise da conação aos eleitores do Chega: parece-me incorreto dizer que estas 1.108.797 pessoas são descontentes. Eu duvido muito que quem tenha votado IL, Bloco de Esquerda, CDU, L, PAN,… também não esteja descontente. É algo mais. Pode-se dizer que é uma vontade radical de mudança, mas há alternativas estruturais, e também com retóricas populistas, como o Bloco de Esquerda e a CDU. É, aliás, interessante notar que o CH se apresenta como antissistema, mas aceita donativos dos maiores vultos económicos e não consegue assegurar a transparência dessas contas. Fala muito de corrupção, mas é incapaz de expor um caso e, mesmo sobre as minorias que acusa de parasitismo, não consegue apresentar um exemplo real – quando temos uma Mortágua nas comissões de inquérito... É importante notar que a comunicação social deu um pódio tremendo ao partido e, quando o contrariava, perdia impacto. Também me parece pertinente olhar para as regionais açorianas de fevereiro e notar um paralelismo dos resultados: será esta viragem à direita algo estrutural e não meramente circunstancial?
Aquilo que me parece importantíssimo, independentemente de tudo o que deve ser debatido e feito, é fazer com que a literacia política e dos media chegue ao maior número de pessoas possível.