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Uma vitória da Amazon contra os seus trabalhadores

Os trabalhadores de um pequeno centro da Amazon em Bessemer, no Alabama, recusaram em referendo a criação de um sindicato. A votação foi conclusiva, rejeitando o que seria o primeiro sindicato nos gigantes de tecnologia.

Tratava-se de um pequeno passo: o armazém só tem cinco mil funcionários, a Amazon atualmente contrata 1,2 milhões. Isso não impediu a administração de tratar o referendo como uma decisão capital: mobilizou uma intensa campanha de intimidação e prometeu benesses pessoais se não houvesse sindicato, suscitando preocupação de alguns acionistas, que protestaram contra o ataque aos sindicalistas. Para satisfazer essas vozes e já ganha a votação, Jeff Bezos, o almirante deste barco, veio admitir que poderia tratar melhor os seus empregados.

Há em tudo isto um simbolismo intenso. Este colosso do comércio eletrónico quer evitar que exista um sindicato. Os seus concorrentes, as outras Big Tech, apoiam-no com todo o entusiasmo, temendo que o vírus sindical lhes bata à porta. Para já, venceu entre estes trabalhadores a ideia de que cada um vive por si, aceitando o que a empresa oferece, sem negociação entre os de cima e os de baixo. Nesse sentido, em Bessemer voltou-se a disputar a fronteira da modernidade, entre os trabalhadores que queriam chegar ao século XX dos seus direitos e a empresa que procura manter a relação feudal de mando sobre súbditos obedientes. O resultado destes conflitos nos gigantes tecnológicos vai definir o tempo em que vivemos.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 23 de abril de 2021

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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