Uma resposta ecossocialista à política de sacrifício

porManuel Afonso

18 de julho 2023 - 18:07
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O que têm em comum os vários sectores exportadores que mais crescem em Portugal? Há que entender o admirável mundo extrativista que ameaça devorar Portugal e quem aqui trabalha.

Há, entre os sabedores economistas afetos ao extremo-centro, ao statu quo dos interesses, um debate a que talvez nem sempre prestemos a devida a atenção. Assumindo que crescem as exportações e, a seu reboque, a economia dita nacional, afirmam uns que tal se deve ao turismo, assinalam outros que há vida nas exportações para além deste. Sem entrar na importante discussão sobre se o modelo exportador é o que mais convém — não apenas a quem trabalha, mas mesmo à soberania do país — há aqui um ponto de interesse. Não o de procurar o que diferencia os vários sectores exportadores que mais crescem, mas precisamente o que têm em comum. Ou seja: entender o admirável mundo extrativista que ameaça devorar Portugal e quem aqui trabalha.

Um rol de projetos extrativistas

Ora, vejamos. Numa breve pesquisa pelas notícias recentes, nos vários suplementos económicos ou jornais da especialidade, vamo-nos cruzar com projetos de toda a índole. Ele é a extração de lítio no Norte e Centro do país. É a produção de hidrogénio para exportação (o que significa uma espécie de exportação da nossa exposição solar para servir a indústria do Norte da Europa). São as maiores centrais fotovoltaicas da Europa no Alentejo Litoral. É ainda a expansão do turismo de luxo, por exemplo, com os projetos no concelho de Grândola, ao longo de quase 50 quilómetros de costa, com milhares de camas e vários campos de golfe sugadores de água ou a destruição das Alagoas Brancas, no Algarve, para erguer grandes superfícies comerciais numa zona altamente turística.

Ainda que todos diferentes, algumas coisas aproximam estes projetos. A principal é a sua natureza extrativista. Ao contrário do que sucedia anos atrás, os grandes investimentos previstos não se justificam com a criação de valor e emprego em Portugal e, ainda que casos como a produção de hidrogénio se relacionem com a atividade industrial, o seu centro é a extração de recursos naturais, apoiando-se em trabalho barato, em prol do grande capital, maioritariamente estrangeiro. Isso é evidente na mineração. Mas o mesmo se passa com o hidrogénio, que mais não é do a mineração da nossa exposição solar do país para exportá-la para países mais industrializados com menor exposição solar. E o modelo turístico que por cá vinga vai no mesmo sentido: o do aproveitamento e esgotamento da paisagem e dos recursos naturais, para servir uma clientela de luxo, maioritariamente vinda das grandes potencias do Norte Global, através de resorts associados a grandes grupos como o Club Med ou a Zara. Sempre beneficiando de mão de obra altamente explorada. O grande capital nacional, rentista e parasitário como é, entra como parceiro menor em alguns destes negócios, estando na verdade, ele mesmo, atrelado ao sistema financeiro internacional.

(O modelo que vinga na agricultura, intensiva e monocultora, presa a grandes capitais e vocacionada para a exportação, segue o mesmo padrão.)

Outra das características comuns destes projetos, é a sua pretensa, e muito cinicamente propagada, relação com uma transição ecológica. O lítio estaria ao serviço da mobilidade elétrica, as megacentrais fotovoltaicas seriam essenciais à produção de energia limpa, o hidrogénio é vendido como parte dessa aposta em energia «verde» (que nem sempre o é, pois pode também ser produzido por combustão fóssil ou pelo nuclear). E mesmo os empreendimentos turísticos se mascaram de eco-resorts. Porém, também isso é falso. Primeiro, porque o investimento em energias renováveis só serve uma transição energética se substituir a energia fóssil — na verdade, se for acompanhado de uma redução do gasto energético — e não como parte de uma expansão energética em que o fóssil e as renováveis se expandem em paralelo como está a suceder. Depois, porque a extração de lítio — que, sim, em alguma medida pode ser necessária —, na escala em que se pretende, serve a industria automóvel e o inviável plano de uma transição assente na mobilidade individual elétrica e não nos transportes públicos movidos a renováveis. Os eco-resorts, que adicionam campos de golfe a uma zona sob seca extrema, desmascaram-se a si mesmos. E tão ou mais importante: nenhuma transição ecológica avançará se não for socialmente justa, centrada ma participação democrática das populações, na criação de emprego e de serviços públicos de qualidade e no estreitar do fosso entre interior e litoral — tudo ao contrário do que vemos acontecer.

Externalidades, crise climática e luta de classes

O grande traço em comum destes projetos — que são apenas exemplos maiores de todo um modelo económico em curso — são as externalidades que legam ao território e às classes trabalhadoras. Externalidades são as consequências, as perdas não contabilizadas nos balanços das empresas, que resultam da atividade económica e que alguém terá de pagar, monetariamente, mas não só. São os solos esgotados e contaminados, é a seca, é a perda de biodiversidade, é a destruição da saúde de comunidades e de pessoas que trabalham (compensada pelo SNS e pela Segurança Social), são as cidades e as paisagens devoradas pelo turismo extrativista.

Foi isto o que sobrou do capitalismo nacional após o ajuste da Troika: vender recursos naturais e mão-de-obra barata ao capital estrangeiro, procurando associar-se como sócio menor a essa operação

Tudo isto deixa o país menos preparado para responder à crise climática. Por um lado, porque implica uma expansão energética incompatível com as metas climáticas; porque implica modelos de mobilidade e económicos igualmente incompatíveis (como a turistificação desenfreada dependente do aumento do tráfego aéreo altamente emissor). Por outro lado, a destruição da paisagem, da biodiversidade, da agricultura sustentável e de proximidade e o aprofundamento da fratura interior/litoral destroem os mecanismos sociais e ecológicos que nos permitem resistir às inevitáveis e graves consequências da crise climática. Todo o país paga a fatura, mas são sobretudo as classes trabalhadoras e os seus setores mais expostos — as mulheres, as pessoas racializadas e imigrantes, as gerações mais velhas e as mais jovens, as pessoas do interior — quem mais é afetado. O plano da classe dominante é o de transformar todo o país numa grande zona de sacrifício, sacrificando os de baixo em prol dos lucros de uma minoria irresponsável.

Foi isto o que sobrou do capitalismo nacional após o ajuste da Troika: vender recursos naturais e mão-de-obra barata ao capital estrangeiro, procurando associar-se como sócio menor a essa operação. Sobre tal modelo há acordo ao centro e nas direitas, não haja dúvidas sobre isso.

No lado de cá da barricada, o da luta de quem trabalha, da esquerda anticapitalista e ecossocialista, há que entender o que se passa e responder à altura. Porque as profundas transformações sociais, demográficas, geográficas e ambientais deste modelo extrativista terão reflexos na forma e conteúdo dos conflitos políticos, que já estão a mudar. Novos perigos e novas oportunidades. Novas relações entre o território, as comunidades, os vários setores da classe trabalhadora e outros setores populares.

É toda uma série de novos desafios a que temos de responder, nas lutas e nas ideias, na construção de movimento e na resposta programática, intersectando trabalho, raça, género e ecologia numa resposta de transição justa ecossocialista. Vamos à luta!

Manuel Afonso
Sobre o/a autor(a)

Manuel Afonso

Assistente editorial e ativista laboral e climático
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